Somos a favor do porte de livros!
Somos a favor da economia verde!
E vamos dar voz aos nossos índios!

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Devaneio

O vento das montanhas altas sopra. Longe. Talvez na infância.
O corpo segue a direção salgada do mar. Um murmúrio de folhas 
soltas. Sobrevoam no descampado verde, bem perto da areia da 
praia. Distintos matizes. O céu cinzento não esconde a sua força: 
nuvens pesadas. Elas ainda guardam a água a ser derramada em 
breve. Alguns raios riscam letras. A lembrança é antiga. 
Parece nunca ter sido alcançada com nitidez. 

A escrita abre as asas da mão.
O corpo gelado da tarde de inverno.
Um maiô azul colado à pele.
Os lábios quase roxos.
Areias douradas: 
Guarapari.
Areias duras.
Uma surra de vento corta as canelas.
O branco da página sopra.
Bico de lápis.  
Um calor acalma o frio da infância.
Lívida. 
(É possível escrever um devaneio?)



Rio, final de verão de 2016.


PS. publico novamente um texto-poema que escrevi no final do verão de 2016.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Gradiva verão - parte 1

5.

Quando eu me pergunto se o tecido de algodão antigo
pesava mais que o véu de uso diário, não encontro
dúvida na resposta para um grande sim. As mulheres
envoltas em panos, na Itália e na Grécia antiga, man-
tinham com o chão uma proximidade tão natural
como hoje assistimos na nudez em destaque. E o
corpo carregava em dobras o pouco que se expunha
nas muitas pontas do algodão. (...)
Sobre o azul e o verde das paredes desbotadas pelo
vento e pelas águas, na frequência entre espaço e 
tempo, percorro minha imaginação lenta com as
pupilas abertas nesses arranhões gravados a céu
aberto.
Há e ainda haverá, por algum tempo, os sulcos com 
as marcas dos dedos dos que pintaram as paredes de 
Pompéia. Um pequeno retoque aqui, um arranhão
mais forte do outro lado, bem perto daquela grande
porta em arco.
(...)

(Naquela Pompéia de quase 80 anos d.C. havia muita
festa e muita música. A brisa soprava quente.)


Fragmento do livro Gradiva verão Lumme editor, p.23

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Sem título


Água e campo cravados de fé.
O sonho do menino que descansa no ombro da mãe.
Caminhada imigrante: terras de passagem.
Ler as palavras distintas de um estranho estrangeiro.
Chegar nas terras de hoje de todo lugar.

Soldados de olhares e lugares de março-e-abril.
Final de um inverno qualquer.
Água e tempo nos campos: incertezas permanentes.
Os sonhos de hoje de um menino imigrante.
As luzes gritam o vento nos céus da Síria.


                                                              Hoje, 18.02.2018.
                           Para Fabrizio De André (músico-poeta italiano)



PS. até quando vamos assistir a esta matança na Síria?
A tv francesa hoje, dia 20 de fevereiro, mostrou no seu jornal
(TV 5) cenas de um massacre de mais de 200 pessoas em Damas!
Inúmeras crianças .

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Indignação


Indignação é pouco!
Abriu-se o leque da cidade e suas mazelas. Seu desmando com a falta de cabeças pensantes dirigindo a cidade. Antes da maré do carnaval começar já dava para ver - no horizonte verde e amarelo - o que seria este carnaval sem organização e nem previsão de nada. E só estou olhando para o Rio de Janeiro.
Os jovens em alvoroço na idade das paqueras e das saídas sem hora para voltar já estavam animados com o samba. E enlevados pelo álcool que corre solto para alegria das cervejarias em demasia. Isto sem falar nas demais misturas que fazem também neste tempo das descobertas desmedidas e escondidas do olhar dos pais.
Mas, vivemos tempos mais difíceis. A situação é grave em quase todos os sentidos. A cidade é nossa e precisamos cuidar de nossos jovens. Cuidar dos que nunca foram à Escola, dos que não têm dinheiro para comprar nada, sequer comida. Cuidar e cuidar é a palavra de ordem, agora. Quem não recebe educação não aprende a respeitar nada nem ninguém. É preciso ler para construir um simbólico, uma forma humana de viver.
Se os empresários querem ganhar dinheiro nesta cidade terão que cuidar do povo. Cada vez mais. Os políticos não dão conta da tarefa. Não sabem pensar. Não sabem agir. Todos nós que vivemos aqui precisamos somar força, fazer esforço, “arregaçar as mangas” como diziam os mais antigos.
Ir embora não é solução! Deixar a cidade entregue ao tráfico e aos iletrados nunca foi solução pra ninguém. O carnaval de 2018 e suas intempéries de violência desmedida só destamparam os nossos inúmeros problemas hoje.
Há décadas que escrevo sobre a importância de se investir nas Escolas, tomar conta das crianças que estão na rua sem orientação e em estado lamentável de abandono. Nas cirandas do mundo estamos caminhando para repetir as situações extremas de abandono da África? Ou “o Haiti é aqui”? (miséria e abandono!)
Nas zonas da baixada, os valões estão imundos e transbordaram (até de fantasias). As chuvas ainda pioraram a situação. Nosso povo não tem educação nem mesmo na zona sul, na já nomeada "burguesia". Onde já se viu um bloco arrastar tantos foliões e tanta sujeira ficar para trás depois ? ou mesmo arrasar o plantio de "uma parte da área de recomposição da vegetação de restinga" na praia de Ipanema? 
E a mídia televisiva ri ao noticiar ter tido tantos jovens bebendo de tudo, misturando álcool e estimulantes, passando noites sem dormir. Nossa, nem dá pra crer que este é o Brasil do futuro! (O carnaval do futuro, os homens do futuro!)
Onde estão os médicos que não passam para o povo a quantidade de internações de alcoolizados em coma ou quase, que foram atendidos nas redes públicas e privadas?
Não estou achando tão interessante uma Escola de Samba que grita a “podridão” do momento político que vivemos. Os arrastões levam junto com o samba a nossa esperança? Não. Espancamentos “gratuitos” em assaltos têm que nos fazer pensar!
Indignação é pouco neste carnaval!

                                                                                                  Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Boletim da SLFP


Recebi o BULLETIN n.6 de JUIN 2017 da Sociedade de Leitores de Francis Ponge há alguns meses
São fotos, manuscritos, documentos e crítica principalmente.
Traduzo hoje um pequenino fragmento (p. 10)

O Novo Peixe

Muito mais que os pássaros, os peixes são flechas,
rodeados de carne.  Mas seu alvo (o alvo que corresponde a estas flechas)
não está no exterior delas. Ele está incluído nelas; elas o transportam inexoravelmente,
comicamente (...)


Surpreendida pelo desejo, quase imediato, da tradução penso em meus outros projetos de escrita já em andamento.
E, me recolho deste momento espontâneo com o desejo antigo de voltar a traduzir Ponge em sua Correspondência.

A tarde corre para o escuro deste último dia de Carnaval!

Voilà!

                                               Lyon,
                                              Sexta-feira 17 de março de 1944

Caro Camus,

Curioso como se torna difícil para mim te escrever. Seria preciso fazê-lo quase a cada dia, então isto não seria nada.E certamente pensei nisso quase a cada dia, retomo mesmo as cartas... Enfim, fique tranquilo, isso é um bom sinal (com Paulhan, por exemplo, foi sempre assim. Com Hélène também (minha irmã). 

(...)

                                    - com toda minha ternura.
                                                                                      Francis


p.118 do livro
Albert Camus Francis Ponge CORRESPONDANCE (1941-1957)
Gallimard, 2013



Rio de Janeiro, 13.02.2018
                                                                                                                                           




domingo, 11 de fevereiro de 2018

Carnaval de 2018


                                                             “Foi um rio que passou em minha vida”
                                                                                               Paulinho da Viola

Sem sair de casa.
Carnaval nas vias do Rio.
Passa na vida com um furor de
excessos. Epidermes cansadas do calor:
“O bêbado e o equilibrista” - Bosco-Blanc.
Movimentos de blocos bebem muito.
Os sons distantes dizem de canções
e batuques roucos. A lua canta seu pendor.
Sirenes da ambulância ensaiam um “uivo” rascante.
Duas vezes na manhã. Quase sem intervalos.
A letra da noite é seca e   
não dá conta da e s c r i t a.
No Leme os muitos blocos fecharam o bairro.
Na praia do Leblon - sábado passado (?) –
a polícia entrou na folia.
E fez seu papel. O fato não foi noticiado.
Caminhar entre os restos e os ruídos da cidade.
Aturdida.
Há quem goste.  Há quem goste.
Há quem dance. Há quem dance.


                                                                  Domingo de carnaval, 11.02.2018

Inverno em Paris

Parc Montsouris, 2011
                                         
Perto da rue Monge, 2005 

Perto da Sorbonne, 2005

Centre G. Pompidou, 2009

A história do céu

Estamos no céu e flutuamos fixados na Terra.
O Sol nasce cedo todos os dias.
E dorme no final da tarde descendo no mar.
Participa do luminoso vermelho no horizonte.
A prateada claridade da Lua ilumina a noite
e beija a face dos amantes com o sopro da brisa.
As estrelas brilhantes ousam: Ursa Maior
vive no hemisfério norte.
Vega da constelação de Lira surge da
palavra que, em árabe, significa "caindo".
Capella é a ninfa que cuidou de Júpter
na mitologia grego-romana.

Um dia de chuva e frio no céu.
Diante de nossos olhos as flores do campo umedecem.
Lágrimas descem aos campos sob cabeças humanas.
Do oriente ao ocidente sopram as ondas do mar.
Segredos são ditos às pedras:
"A terra é uma esfera suspensa no vazio"!
E o céu? Na história do céu
fixados somos no imenso universo.
O céu e a terra - juntos - se montam e
não são estranhos um ao outro.
Devemos observar tudo diante
de nós: o movimento e as paisagens.


 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Poema


Pitangueira em flor

Do quintal um cheiro quase perfumado se espalha
Ela – aos sete anos – rabo de cavalo e descalça pisa na grama
Pássaros beliscam frutinhas vermelhas
Gestos distintos e inesperados movimentos
Chuvas de verão. O calor avança
A sede aumenta no corpo quente
As crianças não descansam de brincar
Entre os pássaros e as árvores do quintal
Pontos avermelhados brotam nos pés descalços
Marcam um som abafado no pisar
Ela é de outro lugar. Ela veio de longe
O ponteiro do relógio da cozinha bate cinco horas
A chuva refrigera os cabelos e a pele
A mãe recolhe pitangas respingadas


Rio de Janeiro, 6 de setembro de 2017

 OBS. revisto hoje


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Passeio na orla do mar

                                                              para Oliverio Girondo

De manhã um passeio na praia povoada.
Superpovoada.

Pernas e mais pernas nas areias.
E braços e cabeças em tumultos.

Muito azul e alguma coisa cinza.

Não há sombra. No ritmo da caminhada de algumas mulheres
o horizonte do corpo e o algodão da estação se incorporam.

Por quase nada um gole de água de coco pode acender o desejo.

Os homens em bando jogam vôlei ou futebol.
O céu cinza finca o tempo e as horas.

O mar
essa água metade sal e metade vento
afoba e abafa os vícios de verão.

Muito azul! Alguma coisa gris?

O mar grita.
Na voz do mar
uma tortura
um sonido distante
:
muito azul e muito cinza.



                           do livro Outonos, p.84

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Rio de Janeiro, 1 de fevereiro de 2018


A paz acima de todas as nuvens
Um sopro a se fazer ouvir
Cantemos a paz!
Uma esperança aos que sobrevivem
Uma fé quase infantil. Sábia
E a literatura em sua veste de letras
Afirma: a lua é um poema
Cantemos a claridade
E seu movimento no mar!
Na sombra ilimitada deste dia
Cantemos a paz tão desejada no asfalto
Acima das montanhas e das tristezas!