terça-feira, 29 de maio de 2018

                                         Imagens feitas a partir da década de noventa.

Arroz e feijão

Arroz e feijão
feijão com arroz
feijão preto feijão preto
arroz integral
feijão mulatinho
feijão fradinho
arroz e feijão
feijão com arroz
arroz banal
feijão com sal
feijão feijão
arroz integral
feijão nosso de cada dia
arroz e feijão?

Rio de Janeiro, 29.05.2018

domingo, 27 de maio de 2018

Poema


Quero de volta as estações do ano
E os muitos tons do viver
Circuitos inquietos abrem
Portas e janelas de violências
Não vislumbro no agora o suave
O susto e o imprevisível de atos bárbaros
Assombram as horas e as tardes
Que correm sem saber o porquê
Quero um dia e uma noite
De braços mansos
De pernas fortes
E gestos brandos
Sem temer a noite
Mais nada






segunda-feira, 21 de maio de 2018

Cannaregio - Veneza

                                                              Na Igreja Madonna dell'Orto
                                                              pintura de Jacopo Tintoretto:
                                                             Apresentação da Virgem Maria ao Templo
                                                             A pequenina Maria sobe os degraus do Templo diante da figura de Zaccaria, que a aguarda no alto dos 13 (?) degraus.

                                                           
Comento ainda que as telas de Tintoretto estão espalhadas em Veneza. Esta, especialmente, reproduz a mesma temática que a de seu mestre Ticiano, que está exposta na Accademia ocupando um espaço nobre em uma  parede enorme. As semelhanças e as diferenças entre elas seriam motivo de estudo para os apreciadores da arte. Mas, vale afirmar que Tintoretto apresenta Maria menos iluminada, e há outras meninas, de diferentes classe sociais, que estão também colocadas nos degraus desta grande e figurativa escada.


quinta-feira, 17 de maio de 2018

A prática da escrita: uma longa caminhada


Escrever para mim é uma experiência. Escrever é parte do viver. E é um ato, um ato de escrita. Neste ato experimento um saber fazer/savoir faire que se desdobra a cada livro e a cada poema ou texto em prosa que nasce no processo de criação.
Escrever conforme gosto de afirmar me ajuda a respirar. O mundo ao redor silencia no momento desta entrega. A angústia ganha novos contornos, pois o trabalho é, primordialmente, realizado com a memória em seu viés mais guardado. Há uma elaboração que se faz aos poucos, portanto, e, que pode até mesmo me surpreender em um momento a posteriori, pois nunca o trabalho é feito exatamente com o mais conhecido e o mais sabido. Sempre me envolvo em camadas desconhecidas. Talvez por isto, algo ficcional esteja sempre presente no texto. Há entre o sonho e a realidade, nas camadas que se montam, as partes distintas do viver que vão compondo a vida onde estamos inseridos. É um espaço de luz e sombra que é recortado a cada vez, e onde se instalam as dores do mundo também.
Um passo e outro... respiro, e neste passo alcanço uma parte da história de fato vivida, até mesmo esquecida, que a escrita enlaça com a memória recente e traz de volta a partir de alguma palavra, alguma sensibilidade. A poética andarilha-personagem que sigo construindo no ritmo das letras – a que tudo olha e muito vê com as pupilas abertas -, testemunha em versos, em prosa ou fragmentos um mundo veloz, violento e em movimento constante. Ela faz na viagem com a linguagem um trabalho atento à letra, onde o Tempo e a Memória estão inseridos na cultura. Leio o poema “Na língua materna”: (p.76 do livro Outonos)

1.
Imagine a solidão de um estrangeiro.
Um árabe. Um chinês.
Um norueguês. Qualquer um.
Um país. Um lugar. Qualquer.
Os olhos. As mãos. Um café.
Um canadense. Um brasileiro.
Um alemão. Um.

Qualquer lugar.
(...e aqui não se fala inglês!)

2.
Um árabe procura um café. Está tudo fechado.
Um alemão deseja um interlocutor.
A francesa se queixa do calor.
E o norueguês não encontra o caminho de casa.

As praias estão poluídas.
O diálogo não se faz, em bora a mímica ajude.
Copa do mundo? Onde? Quando?
Começou. Vai começar. Acabou.
Talvez, a hospitalidade seja o fruto da resistência!

3.
Nenhum oceano a ver,
apenas um mar negro de óleo!
Pássaros enlameados:
negro petróleo.
No movimento do tempo
não vejo nada claro.
Em solidão...os homens.
Qualquer um.
Um.

Experimento escrever ‘fora’ de uma norma que nomeia estilos e mistura experiências. Essa voz escrita guarda um lugar aberto e endereçado ao leitor, sem se nomear no mais conhecido do meio literário, por exemplo. É mais perto, talvez, de um trabalho de “colagem” onde, um corpo a corpo com a matéria e com a língua trazem o mundo ao redor com as sujidades aonde estamos vivendo. O texto múltiplo se escreve nesta experiência.  A escrita vai ficando com um tempero ensaístico e mesmo com dados históricos e frutos de pesquisas, nos relatos de situações observadas ou anotadas ou, que, até mesmo foram vividas em uma viagem. Ou seja, os traços mais autobiográficos surgem em meio a poética e a ficção que se desenvolvem.
O livro Estrangeira, por exemplo, é fruto de uma experiência de Doutorado sanduíche e abriu este caminho em 2010. Traduz a luta de grafar a escrita da experiência vivida em Paris mais especialmente, mas, também, estabelece a dificuldade de escrever a ‘estrangeiridade’; este ‘fora’ que guarda um lugar pouco nomeado. No caso deste livro, um lugar de pesquisa mais ensaístico e ficcional de certa forma. Ele é o meu primeiro livro escrito assim, com uma mélange de textos: momentos de pesquisa em bibliotecas, notas de estudos ou detalhes da vida de uma estudante estrangeira, e muito mais (poemas e colaborações à revista eletrônica paulista Cronópios).
Leio : Estrangeira, p. 14

Dias curtos. Inverno.

A sensação térmica padece. Os agasalhos ajudam a manter o calor corpóreo.
Manhã escura.
Saio a pé. Respiro. 
O ar gelado penetra.
Olho o mundo ao redor habitado de estrangeiros.
Jovens e velhos andam para todos os lados.
Noto a pressa que aumentou.
Posso senti-la nos músculos, nos ossos.
Escuto os ruídos e percebo que os barulhos abafam a visão.
Há africanos envoltos em panos de algodão colorido.
Calçam sandálias grossas com meias.

(...)

e p. 31
... o céu ainda é cinza

neste Printemps des poètes que começa

Não sei bem em que língua
écrire
Na minha? Lingua-mãe
que se mostra lenta e 
firme, ou na língua 
que força
passagem?

espaço de ligeiro silêncio

p. 67-68

Notas tomadas em 25.07.05
na Bibliotheque Saint-Geneviève

A porta diante de mim possui o número 13 bem no meio do portal

(...)
O capítulo é denso: "La situation d'un langage poétique"
Anoto traduzindo:
A poesia escapa ao verbo ser, ela é a própria figura da linguagem. 
Leio com vagar.


Livro das areias publicado em 2012, uma narrativa/un récit, nasceu com um pouco da história vivida na infância em Manaus em uma gama de fatos e leituras que se somam ao texto que trabalha inclusive com sonhos (sonhados ou ficcionados).
Quatro partes compõem o livro: “os ruídos”, “o gosto”, “a utopia”, “os corpos” e sustentam conversas com o leitor. São formas muito diversas as que encontrei para falar fora da cronologia habitual e nas brechas da memória de leituras – também atravessadas pela ficção. Leio, p. 51.

Escrever uma chama negra. Pequena. Deixá-la descansar.
Mas, o que é essa distância entre um começo e seu fim?
(o texto me pergunta)
– Uma situação dolorosa que não conseguimos prever. Procuro responder.
De início, é do objeto perdido que estamos falando também.

O trabalho mistura os Tempos da vida e o Movimento entre prosa e poesia estabelece-se na narrativa. Há muito trabalho com a língua e há espaços de silêncios. Este livro veio um pouco depois que o ensaio O idioma pedra de João Cabral, com o meu estudo de doutorado, foi publicado na coleção Estudos da ed. Perspectiva em 2010.
Leio no Livro das areias, p. 14:

De muito longe escuto nas leituras que desvendo que o sopro da aridez do estrangeiro não pode ser ignorado.
Mas, o que é o estrangeiro? Alguém ou alguma coisa que nos faz perceber o nosso lar, em movimento, e nos coloca diante da língua materna como se fosse um lugar mais habitável?

E, p.31

Estado de escrita.
Ontem hoje. Lanço palavras e recupero nestas páginas escritas alguma coisa que não sabia que sabia?
(...)
Sem silêncio. O dia vai se repondo com as palavras que voltam à minha mão.
Se eu não as agarrar ao redor dos dedos que firmam esse grafite, nunca saberei o que o voo dessas letras desenharia.

Em “um enodamento de letras” e tempos, logo em seguida, escrevi Gradiva verão, que saiu em 2013 pela pequenina editora Lumme de S. Paulo, a mesma onde publiquei a minha tradução de Francis Ponge em Nioque antes da primavera e o livro Traduzir testemunhar Francis Ponge. Ambos são trabalhos do meu posdoc com estudos sobre tradução em língua francesa na UFF.
Gradiva pode ser reconhecida como uma narrativa mais autobiográfica, ou mesmo como poesia porque, “aquela que passeia” e que é a personagem que nomeia o livro, anda pelas ruas de Pompéia e tb as da cidade do Rio de Janeiro e se mistura às minhas próprias vivências; uma figura feminina em deslocamento. Este livro de fato me ajudou a viver “um luto” depois de uma doença grave. O real aqui posso dizer, agora, invadiu o texto de forma delicada. Leio p. 49,50

1.
Um enodamento de letras.
Onde encontrar o texto em meio a uma abundância
Biográfica que coloca a memória em movimento
desordenado?
Como mover os pés para além das margens do texto?
A sandália havaiana é verde e coloca uma distância
suave com o chão.
O tronco do corpo respira com delicadeza.
Há um fluxo novo que arde na extremidade da virilha
Esquerda sem compreensão. Às vezes incomoda.
(...)
A tela do texto se monta e encontra os arranha-céus.
Desce para a margem do mar.
(...)

A escrita que se enoda ao real estabelece um caminho quase à margem, onde “respira” nas linhas e nas letras do corpo, neste “mínimo pontual” que se estabelece no texto poético.
Dois livros nasceram, mais recentemente, na viagem com a escrita: Oito noites em Veneza (em 2016) e Assis de Francisco/Francisco de Assis (em 2017).
Ambos são narrativas de viagem, são ensaísticos e são poéticos. Além de trazerem uma pesquisa pessoal sobre a história das cidades que também os nomeia: Veneza e Assis, e, ainda sobre o(s) habitante(s) que por estas cidades circularam em outro tempo da história, os escritores que a escreveram: Philippe Sollers, Henry James, Joseph Brodsky, George Sand e seu amor na época o poeta Alfred de Musset, e muitos outros. Os pintores: Tintoretto, Ticiano, especialmente o músico Vivaldi no caso do livro Veneza, e Francisco de Assis e outros franciscanos que partilharam da vida de Francisco no caso de Assis de Francisco, nos sec XII e XIII.
Leio na p. 59 de Oito noites em Veneza.

Há algo muito especial que permanece, mesmo que só por alguns dias, quando estamos sobre as águas. 
O pensamento corre em fluxos contínuos e ativa a memória. A leitura dos quadros e das cores que se montam sobrepostas.
Não há tempo a perder. Somos seres estranhos em cima de uma superfície móvel.

(...)

Estes livros têm caminhos que incorporam não apenas alguns personagens antigos e conhecidos em nossas vidas, trazendo-os de volta, como sabemos que acontece para uma grande parte dos escritores, mas dão a ver um texto íntimo e ao mesmo tempo ficcional que vai construindo de forma particular o trabalho com este desenho biográfico e autobiográfico. Com isso, além de conseguir apresentar uma escritora, define-se no novo enquanto incorpora o velho, o já conhecido, que é aqui relido e redesenhado.
Nas nuances de um manuseio quase artesanal deste escrever a vida, no trabalho de linguagem reconheço também a influência de Francis Ponge, em seus nomeados proêmes, em trabalho com a língua em ato. Uma forma de escrever poemas - diários- de - viagens; prosa e poema ao mesmo tempo.
Porém, sou brasileira e, além disso, trabalho com a psicanálise. No Brasil os lugares são mais estandardizados. E é delicado fazer misturas. No entanto, sustento o meu desejo e a minha escrita se fazendo obra. Fui leitora surpreendida de textos de diferentes teóricos nos meus estudos literários e de psicanálise. Repito que a leitura e descoberta do texto de Freud “Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen”, no início de minha vida adulta, me marcou muito. Comento que na Puc-Rio, a universidade carioca onde fiz o curso de psicologia no início da década de setenta, lemos Freud em seu estudo psicanalítico sobre o texto literário de Jensen, um dos primeiros estudos psicanalíticos-literários escritos por Freud. E, me lembro que permaneci durante vários dias habitada por este trabalho de tanta beleza. Poético e enigmático!
Mas, voltemos aos últimos dois livros:
Leio em Assis de Francisco:
p. 11 a 13

1. Assis

A piccola Assis está encravada em um vale da Úmbria, rgião central da Itália. Chega-se a esta pequenina cidade de carro, de de ônibus,ou de trem. Alguns experimentam alcançá-la a pé. (...)
Chegamos no dia 2 de outubro de 2016.Quase no meio do dia de um domingo. O ritmo da pequena cidade se impôs de imediato.Há vasos de flores nas janelas da residências de pedra, que aprecem ainda manter um ar etrusco nas fachadas.
 O chão íngreme e cortado pelas grandes ladeiras traça o percurso.
(...)
Hoje, quando a realidade cruel e desesperada apresenta um mundo perverso e violento beirando as atrocidades que foram cometidas na Idade Média, procuro a história da vigilante vida de Francisco, buscando trazê-la para mais perto de nós.
(...)

 p. 27 a 29

(...)
7. Com as oliveiras em toda parte

Os pés seguram pequenos frutos vivos.
De cor quase verde se misturam com as folhas.
O toque nas pontas dos dedos
saboreia e advinha o tom do vale
e dos azeites da região.

          Azeites trufados
          Azeites frutados
          Com pimenta 
                              e fé.

Leio em Oito noites em Veneza:
p. da 11 a 13. 14 (parte) e15

Manhã de 30.03.2015

O mar balança algas negras e o perfume de sal sobe às narinas. Escuto restos de línguas do norte da Europa. O ruído do motor do vaporetto se impõe firmando um espaço de espanto. Um cansaço repentino incha os pés vestidos em meias e botas curtas.
(...)
Veneza é onde os rios se inclinam em direção aos canais, e as nossas pernas caminham em desníveis inesperados. Investida pela fé de cada um, Veneza ainda desfruta de um raro tempo sem automóveis ou veículos barulhentos (exceto pelos ruídos de alguns barcos a motor que passam de vez em quando, e mais intensamente pleo Grande Canal).
(...)
As grandes ou piccolas pontes de Venezia nos dão os degraus do sonho.
Os olhos bem abertos aproveitam. O pensamento acelera na história que volta no tempo.
(...)
Em Veneza as paredes falam! Elas nos dão notícias dos homens de outros tempos e de muitas histórias.
(...)
Henry James, Nietzsche e até mesmo Rousseau escreveram Veneza. Rousseau  chegou em Veneza em setembro de 1743. Era secretário da embaixada da França. Ele escreveu:

Conservami la bella.
Che si m'accende il cuore.

Com as pedras ao redor compondo meus textos desde os estudos com João Cabral de Melo Neto no ensaio O idioma pedra de João Cabral firmou-se a caminhada da minha escrita.
Na p.  17 a personagem, a jovem mulher caminha...
2.
A personagem pode ser uma jovem mulher que
caminha seu passo, qual Gradiva, a jovem
que caminhava em Pompéia em 79 d.C.
Não havia tempo de pensar no corpo. Havia
o corpo. Havia tempo.
Meus pés, agora um pouco distanciados do chão,
procuram outro ângulo.
Deslizo na cadeira com as mãos já mais cansadas
dessas teclas que pedem muito.
Os pés de Gradiva não se cansam.
(...)




                                 Fim

PS. a pedido publico texto apresentado na Universidade da Sorbonne, Paris3, em 21 de março de 2018. Os textos lidos foram amplos, aqui apenas os cito na ordem em que foram apresentados.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Inédito


Fios risos rios fome
Nobres pobres comes e bebes
Pisos pedras paredes
Camas casas casais

Um dia um segundo
Uma vez duas horas
Um ano um rio
Uma árvore um lamaçal

Ali aqui agora
Apito de trem
Navio sirene
Sino de igreja

Tantos e tão pouco
Pouquíssimos
Um instante
Lá longe

Hoje
Ontem
Vida
Além

(Azul
Blue)



1 de setembro de 2017



domingo, 13 de maio de 2018

sábado, 12 de maio de 2018

Registro Raro

Guardo um registro raro de San Benedetto. Não se mistura com nenhum outro.
Envolvida pela chuva fina e fria daquela manhã de abril avancei em direção à porta principal
da Basilica di San Benedetto Po
Na memória alguns relatos vivos de meu pai me acompanhavam, e receberam o ar natural ventilado nesta viagem rumo aos antepassados. Caminhei. Avancei e mirei paredes. Portas, arcos, santos, ou inversamente de baixo para cima: o chão pisado por tantos.
Os coloridos mosaicos, já relatados pelo meu bisavô e rememorados por meu pai tantas vezes, se mostraram. Visitei e vivifiquei estes recantos da memória.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

ESCRITA DO ALENTEJO


                                                        E para além do Tejo
                                                        o que há?

                                                       O vento respira o ar seco
                                                       e deixa passar o deserto

                                                       Não há insetos ao redor
                                                       Há cegonhas

                                                       Dependuradas em ninhos
                                                       estranhos persistem ao longo

                                                       de postes insanos que
                                                       seguram fios tristes

                                                       Cegonhas grandes. Brancas
                                                       Solitários ninhos de flores e galhos

                                                      Guardadas as agruras de vãos longos
                                                      depositam ovos belos, as mansas cegonhas

                                                      de pernas altas e bicos coloridos
                                                      Habitam andares distintos

                                                     de um mesmo poste de luz!
                                                     Costuram no horizonte o tempo