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Canção do grito Há mortos por toda parte e ainda esperamos muitos mais Os incêndios são enormes e os feridos também As crianças calam seus gritos dentro de casa Os adultos guardam angústias no peito Dias brancos se aproximam de maio A cidade dorme sua agonia interminável enquanto alguns homens cegos vagam pelas ruas sem trabalho O frio do inverno chega mais perto e leva nos braços algum alento: o fogo acesso das lareiras ou dos fogões A canção do grito anda por perto cavalga nas mãos de homens pouco iluminados carregada de falsidades Do mundo somos parte no perigo que nos atravessa Desconfio dos dias ... Andamos tontos na aquarela que se abre Cores negras nos abraçam qual dias de luto sem medida! No meio deste dia 30.04.2020

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Rio, 30.04.2020 Triste abril Uma manhã pendurada entre os sinos quietos das igrejas. Dores espalhadas pelos quatro cantos. Suspiro: Triste abril! Façamos um pouco de silêncio. Sabemos que ao pó voltaremos mas não todos de uma só vez! (Carregados pelos olhos que nos olham...) Diante dos que não cumprem as promessas nem assumem as missões. Olhos umedecidos lamentam. Triste abril! No canto do livro escrevo a esperança que deposito na sombra desta página.

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Rio, 29.04.2020 Escrevo: O dia se levanta lento. O azul se apresenta em brilho constante. Da janela assisto uma dezena de sanhaços em revoada breve. Livre. Pluma. Leve. * Fragmento da manhã ontem as nuvens sopraram no frio da madrugada alguns homens buscaram em silêncio alcançar o pensamento as horas traçaram a direção do múltiplo e poucos se firmaram no horizonte próximo os passos os alimentos as raízes as vozes os cheiros a natureza sem voz pede clemência no universo distante não há ouvidos suficientes (o que vinga é o supérfluo o banal o excesso) * As suas mãos estavam limpas? O vento não leva os sonhos sonhados. Durante a noite o sonho é um alvo permanente. Sob o céu do mundo sonhamos antigas histórias. No horizonte  um vazio desconhecido interroga os homens de agora sobre o que fizemos dos peixes (em marés cheias ou vazias). Quem chora agora? * Caro leitor, nenhum país parece muito inteiro, a lua e as árvores do caminho sente...

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Rio, 28.04.2020 Escrever com a boca voltada para o Norte Buscar o verde do Amazonas no silêncio desta pagina A tristeza se estende nas areias dos rios e os afluentes choram com a música dos corpos: Içá, Japurá, Negro, Nhamundá e Trompetas A boca sem paladar Mais um corpo que cai? Escrever o dia de hoje neste abril sem cor Nuvens carregadas Brancos dias vividos dentro de casa Escrever o vento acesso e a morte neste deserto daqui ou de lá Respira o dia com o peito livre e a página se ergue em direção aos hospitais Só as palavras de desejo crescem Uma lâmpada se acende. Um corpo se levanta: vai! * À noite, Neblinas soltas no espaço envolvem cigarras e flores da manhã sedentas O latido de um cão atravessa longe e o verso incerto não morre nunca Percorro a rua da memória focada em outro dia Leve mão ligada à letra se faz presente Vogais soam próximo ao dedo indicador Na tecla presa aos tons baixos sussurro algo inaudível (arrasto a folha do poema no ch...

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Rio, 27.04.2020 Manhã morna de outono! Em meio a um enxame de emoções, limpamos e limpamos muito tudo. Alguns lavam com detergente até os alimentos. Sairemos deste momento  mais paranoicos que nunca! "Tememos um grande temor"!* E recupero, aqui, algo do estilo da prosa grega, presente no Evangelho segundo Marcos, para dizer do medo que nos ultrapassa neste momento. Na Espanha, ontem, as crianças pequenas foram autorizadas a sair acompanhadas  de um adulto durante 1 hora, apenas. E na Itália as crianças só retornarão às aulas em  setembro.  Ao que tudo indica os vírus daqui pra frente estarão sempre em nosso retrovisor, ou,  talvez, no nosso visor. Aprenderemos a viver entre eles! *Cito: Marcos, 4,41 Da nota do tradutor Frederico Lourenço, onde afirma: "temeram um grande temor": figura de estilo muito própria da prosa grega, mesmo de épocas anteriores". Bíblia. Novo Testamento. Os quatro Evangelhos, p.174 * Na leveza de c...

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Rio, 26.04.2020 Fragmento: A boca escreve sílabas palavras e pedras mas a mão no espaço aberto bem deserto encontra o rosto de um relógio * Inundados por este tempo de coronavírus, só nos resta aguardar.  Sairemos mais fortes, com certeza. No entanto, confesso que as tvs  europeias  me alimentam  com notícias e programas ricos de arte e cultura.  Grazie mille, Merci beaucoup, Muchas gracias! Não suporto mais ouvir em nossas tvs, aqui no Brasil, explicações e suposições sobre a devastadora crise do governo brasileiro em meio a tanto sofrimento! * Na miragem da manhã vi entre as brumas a casa Ainda tenho pressa na caminhada E a matéria dos dias pode ser escrita ou cantada Através dos espíritos na música dos sabiás O que mais importa é a prece que se possa dizer ao mar A nossa casa ainda tem o idioma conhecido Nos dias e noites que nos seguem o inverno traduz A vida construída nos livros em leituras e nas paredes a...

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Rio, 25.04.2020 Mais um sábado dentro de casa. Hoje fiz feijão preto. Cozinhei o feijão depois de colocá-lo de molho na água filtrada durante 30 minutos. E, desta vez, resolvi fazê-lo com o gosto da infância, ou seja, coloquei no feijão, depois de alguns bons minutos de cozimento, alguns pedaços de batata doce. Percebo que cozinhar me retira desta insanidade onde estamos todos inseridos. * De tarde: A casa se mostra igual no entorno das horas que sopram minutos quase nada. Portas grandes acomodam gestos e dão margem aos caminhos de pés diversos. * Morreram, hoje, 446 pessoas de covid-19 no Brasil. E o "superministro" Moro não é mais ministro da Justiça deste governo, desde ontem.

Leitura do poema Vestes e vestígios

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Publico, hoje, dia 25 de abril pela Revolução dos cravos. Dedico aos escritores portugueses este poema que escrevi em 2002. É uma homenagem a Maria Gabriela Llansol. Foi lido pela primeira vez, no "I colóquio Internacional Maria Gabriela Llansol" realizado em Sabará - MG   

Francesco De Gregori – La storia (Pelo dia 25 de abril!

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Nós somos a história!

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Canção do amanhã Há fagulhas e fumaças sob a terra do Amazonas Há muitos índios morrendo no fluxo da devastação Há homens que cantam e comem em mesas fartas Há corações tranquilos. Doce é o mel presenteado às crianças em alguns lares Há jardins secos e permeados de serpentes As mentiras testemunham as janelas de nossos dias Quando alguém me perguntar depois, o que penso deste tempo assim bizarro,                     conseguirei as palavras que me sustentam? Agora, não há leitos suficientes nos hospitais nem alimentos suficientes distribuídos aos famintos Depois levaremos flores aos túmulos? Nas praias lágrimas secarão ao sol Amanhã, só saberemos depois Há santos espalhados nas orações de nossas madrugadas Os sonos interrompidos no frio destes dias cinzas O mar testemunha junto à lua que a sombra é demasiada (Eu te estenderei a mão mesmo que a pedra e a terra venham um dia a nos cobrir!)

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Rio, 24.04.2020 Nesta manhã, escuto o canto alto de um tucano que visita a mangueira grande e repolhuda, perto da janela do quarto de trás. Costuma vir todos os dias há algumas semanas. Observo que, agora, apareceu mais um beija-flor ao redor do arbusto de flores pequeninas. O dia segue intenso de notícias tristes e difíceis de absorver. Não vou comentar as decisões da política avassaladora que nos invade! * Na tragédia dos dias a poesia procura abrigo e apreço. Os gostos os gestos e os milagres somam aos corpos dos milhares de mortos   a infâmia de nossos dias. * Há algo de muito podre no governo brasileiro!

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Rio, 23.04.2020 O sol aquece as plantas na janela e a cena de ontem espalhada nas telas da tv permanece. Na infância em Manaus, vi passar na rua onde morávamos alguns enterros de crianças. Poucos, talvez dois. No bairro de Adrianópolis onde vivíamos estava localizado também um cemitério. Naquela época senti uma emoção tão forte que nunca mais foi apagada: Cantavam e o pequenino era carregado por anjos (crianças com asas carregavam o pequenino caixão de cor azul)! Ontem, as covas de barro em Manaus eram feitas por escavadeiras e os inúmeros ataúdes eram colocados um ao lado do outro, lá no fundo da terra. Ninguém cantava. A solidão da morte em dias de coronavírus se espalha no fundo da terra. * Morreram 407 pessoas no Brasil nas últimas 24 hs. Fiquem em casa!

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Rio, 22.04.2020 Jacques Lacan no Seminário 11, apresentado em 1964 em Paris, falou sobre a "alienação- separação"; conceito caro à teoria da Psicanálise. Construiu neste momento uma encruzilhada: "a bolsa ou a vida", e visava esclarecer a questão da alienação onde estamos inseridos. Hoje, neste momento de pandemia mundial, estamos lançados na questão que toma um tom dramático tanto quanto vital. Repito: "a bolsa ou a vida?" e a questão é desde sempre a "escolha forçada!". Qualquer que seja a escolha, o sujeito perde. Homens alienados no mundo financeiro não querem perder nada, nunca. Estamos participando desta loucura do Mercado! * Quando a Segunda Guerra acabou, um impasse se impôs aos homens daquele tempo. Continuar a vida e esquecer o horror que haviam vivido e, assim, pensar que os dias terríveis se apagariam naturalmente, ou tornar a vida distinta dando uma direção humanista às decisões mais duras e necessárias? Alguns hom...

Leitura do poema "Movimentos" - Coleção Megamíni

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Memórias de uma escritora

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Alguns flashes montados pelo google, que decido publicar de novo nestes tempos de quarentena. Fotos com escritores, amigos e parentes queridos nos últimos 26 anos de vida. Voilà!

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Rio, 21.04.2020 Escrevi: Vou até a noite buscar o escuro Na claridade blanche Olhos amparam sombras e ruídos Sobram devaneios e medos Na distância passos cruzam espaços Ruas de pedras gastas provocam os pés Mulheres idosas circulam pouco   Crianças ruidosas se balançam na infância Sonhos saltam e andam por perto * Comento: Agora que sabemos que temos um "Presidente à moda do Império", após palavras  ditas por  um Ministro do Supremo, p odemos pensar as loucuras presidenciais! * 4 Não há ruídos. O escuro pertence ao lado de fora. Faz calor e a ameaça de  chuva  se  torna presente. Caminho mais atenta aos fatos históricos e às  histórias dos dias.  (Fragmento do livro em andamento) * Hoje é Dia de Tiradentes: o Mártir da "Inconfidência Mineira". Fico daqui pensando que a linda cidade de Tiradentes deve estar vazia. Não é possível fazer a comemoração que há tantos anos é realizada po...

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Rio, 20.04.2020 Acordamos ainda incrédulos com os fatos ocorridos ontem! Escuto longe ruídos de máquinas que trabalham na obra da esquina. Parece que os homens não conseguem aguardar. A morte ronda, e a barca da morte parte todo dia superlotada. Há homens insanos em toda parte! Crianças brincam inocentes na manhã ainda fria com o sol que nasce para todos. Palavras bizarras circulam em bocas alimentadas pela morte. Mais um dia de sustos pela frente! * 3 É branca a casa do Leblon neste espaço largo onde escrevo. Nuvens gordas  não assombram. O calor do outono colabora com a noite parada. Escrevo.  Só os dedos se movem nesta base sólida: teclas negras e energia sideral.  O pensamento vaga. Organiza a mente sem habitar o vácuo. (Fragmento do livro em andamento) * No final desta tarde permanecemos incrédulos. O presidente diz e faz algo insano, e, no dia seguinte, desmente tudo que afirmou, como se qualquer coisa fosse a mesma coisa. Que loucu...

Leitura do livro "A coruja e o fogo "

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Homenagem ao Dia do Índio

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Rio, 19.04.2020 Manhã de domingo, A casa é o pai É a mãe é a terra É o filho e é a pátria * 2 A casa de paredes brancas abre-se em perfume discreto. Distraída, respiro. A casa insiste em alguns pedidos às mãos. Parece querer cuidados mais lentos para os objetos e as plantas. As plantas pequeninas circulam de um pedaço de janela a outro para alçar mais visão. Os livros também se movem neste universo. Alcançam intensas leituras ou pesquisas repetidas. Ontem, a casa se ocupou de lembranças antigas. Vagamos – eu e a casa – por lugares mais distantes. Neste movimento que surge de qualquer lugar, em associações vividas em outras décadas, a casa de paredes brancas não escurece. Um sonho retorna enevoado. Quase um curta metragem que acaba de repente. (Fragmento do livro em andamento)

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Rio, 18.04.2020 Na manhã deste sábado, abro a boca e repito o Evangelho: "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado".                                                                                                          (Marcos, 2,27) Agradecemos a todos os que trabalham incansavelmente, ontem, hoje e todos os dias nos hospitais, e nas diferentes frentes de trabalho essenciais! * A beleza não acaba! Veneza está linda e limpa. (respiro...) Estou a dois passos do mar e não posso vê-lo! * 1. A casa é o dia onde repouso e respiro em meio aos móveis de madeira e  às paredes brancas.  Janelas grandes recebem as árvores como visitas. A água no pote de barro é fresca, e re...