Gradiva
2. Os corpos, sempre os corpos. As camas baixas de madeira deixam ver as marcas do corpo de relance. O branco se amontoa mais para um lado, nas dobras do lençol. As mãos que alisam estas dobras, diariamente, procuram a perfeição. A modelo triste se levanta e quer partir. Nem parece estar cansada. Estátua. Ela permaneceu assim por longas três ou quatro horas. Em que pensava? Os cílios escuros fazem sombra no branco do rosto oval e dizem de uma superfície de onde os segredos parecem guardados sob os lábios de pedra. Amanhã, na mesma hora, a jovem mulher retornará para os olhos do pintor. 3. Quando Matisse descobriu a cadeira prateada, aquela cheia de voltas e encantamentos, comentou com Aragon, o poeta, que encontrara um objeto precioso para o seu trabalho avançar. O objeto, sempre um objeto a cada vez... Aqui, o olhar desvendava a superfície e muito mais. Ainda algo das dobras.