Postagens

Mostrando postagens com o rótulo fragmento de texto inédito

Livro das areias

14. No Tarumã quase não havia praias. O ‘Banho’ (como se costumava dizer) pertencia aos índios da tribo dos Tucanos, e ficava bastante afastado da cidade. Longe. Era o passeio do final de semana nos dias de sol. Quase sempre encoberto pelas águas cheias, o rio Tarumã dava nome ao local e era escuro como o rio Negro. Na beira, bem na beirinha, as areias brancas deixavam ver o fundo e a cor das águas clareava, deixando um tom amarelo surgir. Eu gostava de olhar os meus pés, ali, dentro das águas mornas desse rio-igarapé. De maiô inteiro, minha mãe passeia de mãos atadas com meu irmão que ainda é muito pequeno. Foto em preto e branco. Minha irmã e eu seguimos nosso pai. Às vezes, era preciso atravessar de canoa, e, outras vezes, resolvíamos nadar. Segurávamos o ombro de meu pai. Eu o segurava de leve, buscando boiar. No outro lado do rio moravam os índios da família Laureano. Ou seja, eram todos da tribo dos Tucanos, e por ali habitavam já há alguns anos. Os homens de uma cor avermelhada ...

A escrita de Virgínia Woolf e o universo da pintura

Apenas um murmúrio. O murmúrio das ondas. O mar diante dos olhos abrindo brancas espumas: ondas azuis, ondas verdes. A vida soprada. A escrita anunciando-se em largas ondas. Em movimentos onde a autora comunica viver “agarrada às franjas das palavras”. Relendo o sexto romance de Woolf, publicado em 1931, descobri que não são os diferentes personagens que nos contam a vida, mas essas vozes, quase indiferenciadas, que marcam o tempo do relato, entre dias e noites, chás, jogos, passeios ou caminhadas. Eu diria que as marés, tanto quanto o vento ou os violentos trovões, se inscrevem nos momentos de intimidade e sofrimento ou na angústia e no amor. Ela, a escrita de Virgínia, desnuda esse espaço polifônico.