Postagens

Mostrando postagens de abril, 2022

Rio de Janeiro, 30 de abril de 2022

 Tanto a dizer O movimento dos corpos e o esquecimento. Um pedaço de pão sobre a mesa. O óbvio e o desnecessário evaporam-se. Tempos pandêmicos e convulsivos. E atrás de mim nomes e mais nomes de pessoas que partem de forma rápida demais: relâmpagos.   A roupa no varal varandas e quintal. As mãos dependuradas nas janelas.  Entreaberta a vida o sangue e o sono do poeta riscam instantes da página.

Rio de Janeiro, 29.04.2022

 Mangueiras em perfume Mangueiras douradas em flor São perfumadas E de infinita beleza O coração da fruta nasce lento Na paisagem do jardim Abelhas resistentes e trabalhadoras  Secretam o mel O sabor virá mais tarde Onde o vento volta E desliza qual fantasma  Exilado e lento: Um fragmento de texto 

Diário, 28.04.2022

Um Rio ensolarado sempre A cidade acorda bruscamente Ruídos e providências necessárias Urgentes: vacinas vacinas Bicicleta dentro de casa ornamenta Um outro mundo nos olha E, assim, desconfio de quase tudo * Janelas do mundo Bombardeios desnecessários  Vidas voam  * Cemitérios abertos no chão de qualquer lugar Sapatos, copos de cristal Um bilhete em vão  Vidas voam despedaçadas  * Para onde? Pouco se comenta sobre os mortos E quase não se atende aos pedidos urgentes de  homens mulheres e crianças sem casa A guerra desfigura tudo: Stop War  A loucura se instala nos espelhos Quem conseguirá parar esta ganância de  homens sem afeto nem critérios humanitários?

Rio de Janeiro, 27.04.2022

Enquanto que...    Na frase tudo nasce escorre o verbo verdadeiro sinal do que fulgura e arde a testa ou a boca  da matéria paisagem e luz. Como se eu costurasse um pouco de tudo, o rosto solto e as mãos guardadas sofrem dentro  desta espera estranha. No mundo que nos cerca de beleza ou de horror somos esta massa ofegante, por vezes atordoada, porque a devastação da natureza ou a morte  pulsando compõem o sono que pode ser primeiro. 

Diário fotográfico

Imagem
 Abril de 2022 no Leblon, RJ  O pão e o vinho Um raio azul de luz e mar Calçadas e corpos em movimento Tudo corre rápido demais Manhã de abril blue Aberta diante de todos nós  Meus pés no canto da calçada  Perdem-se na contemplação  (Falo por mim e de muitas maneiras  Mas quem saberá o que ainda pode acontecer?) Um raio de luz e mar Nesta manhã de abril  Onde o pão o vinho e as moradias decentes  Precisam ser partilhados

Rio de Janeiro, 25.04.2022

 De alguma forma                                   "Sei que seria possível construir o mundo justo"                                                                     Sophia de Mello Breyner De alguma forma sempre recomeço: o chão desta cidade podia ser mais ético O mar tão grande e tão azul bem podia ser mais limpo A cada dia o pão e o peixe Se nada houver a beber saciar a sede com um pouco de esperança Em verso ou em prosa prover a vida  livre e responsável ao redor das árvores da floresta Desacreditar nos gestos bárbaros loucos A cada dia um recomeço Flor e fruto de tudo que vejo saboreio e penso Nestes dias de tanto desengano mentiras e desmandos a verdade anda fora de prática Nestes dias onde a visão se embaça as mã...

Escrito de um jardim

Imagem
 

Viva a França!

 Emmanuel Macron é o novo presidente francês.  Aguardamos um Macron mais ecologista! E mais perto dos jovens! Há muito a ser feito. Agradecimentos a Mélenchon.

Joelhos, pernas, braços, mapas

 Joelhos à noite chiam. Um roteiro misterioso e belo. As mãos nada dizem. Silenciam. Pernas e braços se acomodam devagar. Roupas dependuradas respiram. Por baixo do lençol tudo fala. Na voz rouca da noite, as letras unidas sempre em lábios entreabertos. Até o dormir aguarda  um perfume ou um som vagabundo que atravessa paredes. Sim, isso - um sopro. Na noite estranha noite geme-se. Mapas de tudo e de todos.                            Para Herberto Helder

Rio de Janeiro, 24.04.2022

 Diário: Daqui desta terra distante, estamos  acompanhando com apreensão as eleições da  França. Coisas estranhas acontecem. Em Israel as pessoas se complicam mais uma  vez. Os céus noturnos interrogam. E na Ucrânia a guerra destrói até a esperança.  Mais e mais mortos. Quase sem sonhos as  crianças permanecem em choque. Retomo a escrita de meus novos livros devagar. Saboreio tudo: os movimentos dos braços  a claridade rápida que respinga luz na janela  entreaberta o silêncio da manhã e o desejo de viajar. Viajar? Um tempo de interrogações.  Prefiro não ouvir os gritos. Sou só espanto. Tudo me parece bem monstruoso neste outono desordenado, * Notas matutinas: Desde a adolescência escrevo nas margens dos livros. Escrevo à lápis.  Adoto a ideia de minhas anotações servirem como um mapa das leituras feitas em tempos distintos.  * Quando escrevo, direto no computador, sigo e persisto em pesquisas paralelas. Às vezes,  copio trechos...

Manhã de 23.04.2022

 Cântico  A cidade respira a cidade sufoca  É Carnaval outra vez depois de ciclos de covid Diante deste abril aberto anuncia-se um outro tempo ao país  Um dia azul espero para a França  Para um amanhã  Que venham ventos maduros Envolvidos pela paz O meu país é aqui Onde nasci e moro  em todos os instantes Os meus amigos estão espalhados pelo mundo Vivem entre as estrelas a terra  e o fardo do pensar * Não sou tão grande assim Permaneci com as mãos sobre os livros E a alma guardei em meio às orações Os meus amigos nascem ligeiro Os mais antigos navegam em sonhos  filmes em pb  e conhecem a sucessão das  estações  * Além muito além dos passos Que vivam muito E possamos todos nós juntos ler no movimento das abelhas as causas da doença e da morte * Pensem pensem em uma fronteira  aberta serena lúcida  Os dias se descobrem  no céu da imaginação 

Diário fotográfico

Imagem
 Dia da Terra          Fotos de José Eduardo Barros 

Rio de Janeiro, 22.04.2022

 Os dias se multiplicam    Mãos somadas simplesmente.  E no verde dos possíveis   as carícias tocam plantas, e a água respira na superfície.  Espaços se abrem na pele. Antes da palavra ou depois. Escrevo lento. Sou breve.   Quase flor. E somo as horas da manhã  deste abril.

Ainda :

 Sobre os homens de nosso tempo que não conseguem viver sem fazer a guerra.  Até quando? E há tanto a construir e a fazer avançar em pesquisas médicas, em trabalhos nos rios e nos mares pra despoluir as águas e há países precisando de ajuda humanitária para quase tudo, e há hospitais necessitando de recursos e medicamentos. E, enquanto isso, há crianças com fome e sem escola e sem nada. E os homens se devoram e se destroem à toa. E a indústria de armamentos cresce. Para quê? E não distribuem sacos plásticos biodegradáveis o suficiente. Nem se pensa que os camarões e os peixes estão cheios de microplásticos em suas vísceras. E que os rios estão lotados de antibióticos.  Há tanto e tanto a fazer pela vida humana. Há muito a fazer pelas mulheres. E pela revolução cidadã, ou seja pensar no homem e na ecologia. E alguns só pensam em armas e em guerras insanas. É preciso criar uma lei que impeça a guerra. Qualquer guerra.  Quanto tempo ainda iremos assistir e participar da...

Diário, 21.04.2022

 Um feriado nasce na manhã silenciosa  E avança lento Entre janelas abertas  Diário, hoje escrevo e leio: Na porta de meu armário  Está a chave do silêncio  Onde penduro desejos  Assim nasce a lenda De um escritor Entre vidros transparentes os dedos da manhã  passam rápido  Nem chuva nem sol. Só claridade E tudo que carrego é um pouco de tudo que vejo  Ao redor * A rapidez da luz É branca

Rio de Janeiro, 20.04.2022

Nota:  Ainda que os dias se pareçam, não são iguais. Há as tardes de dúvidas confirmadas. E os caminhos matutinos cheios de respostas. Os gestos se modificam e reaprendem a língua   estrangeira; a língua estranha que exige movimentos distintos aos lábios. Je peux dire juste le nécessaire Alors, où sommes-nous ici? * Em qualquer dia de abril  Há momentos em que comemoro os minutos, no caminhar observo tudo e sorvo o hálito de calçadas vagabundas com o tênis cansado. Alguém podia tocar-me e sentir que estou viva, e que sou pura  onde pesadelos acontecem. E as imagens correm muito rápido enquanto os dias e as noites atravessam o escuro.   

Rio de Janeiro, 18.04.2022

 Nossa casa Nossa casa não é uma casa de poucos  Há janelas que olham para fora  e portas abertas para dentro de nós Nossa casa é cheia de livros e flores e pode ser apalpada no gesto de cuidar É tanto e muito pouco no universo que nos cerca onde o riso tem lugar e a noite acontece lenta somando luz com as estrelas  Os passos rápidos também acontecem uma vez ou outra quando as ruas nos chamam em voz baixa e não sabemos bem o porquê Há lugar para muitos nesta casa Aqui atravessei invernos e verões Amei e sofri dentro destas paredes altas Voltei a amar e muito  no espaço de uma só vida Aprendi a perdoar                                                                para Ruy Belo * Cotidiano nada exato A chaleira queima os dedos desavisados Uma jarra de flores brancas atrai A lua cheia de abril já deu seus p...
                                  P                                   A                                    Z                      E S P E R A N Ç A                                    C                                    A                                    R                                    I         ...

Rio de Janeiro, 16.04.2022

 Diário,  Hoje é sábado.  Sábado de aleluia! Na infância em Manaus esperávamos este dia e comemorávamos a data de forma especial; a malhação de Judas. E sempre me pareceu estranho que alguns colegas ou vizinhos gostassem tanto de bater em Judas. O boneco de pano recheado de papel ganhava no final desta comemoração o fogo da fogueira. A cena estranha ainda deve ser comemorada em algumas regiões do Brasil.  * Enquanto a guerra insana queima corpos vivos. *

Rio de Janeiro, 15.04.2022

  Ando delicadamente Preciso reaprender a  voar * Tarde fria  Estico os dedos de minhas asas * Quando a noite abrir os braços  morenos e longos o vento já cansado descansará perto Bem perto  dos meus pés  onde a chama da vela acesa  corre junto à sombra que projeta a vida 

Rio de Janeiro, 14.04.2022

 Poesia brava (A mão pequena procura escrever neste  retângulo iluminado. No espaço vazio da  manhã que começa.) Na certeza do corte a palavra resiste  Alimentada de letras flui Horizonte perdido O corpo arde O texto se acende:  rumor de letras A página respira devagarinho  E na sombra das mangueiras sobram pingos d'água Caminhos novos falam outras línguas no interior do corpo  A voz é grave E os traçados se revigoram

Rio, 13.04.2022

 Diário  Hoje, faz um mês que fiz aniversário. Fiz setenta  e um anos. Custo a crer que já tenha esta idade.  Alguns amigos morreram mais idosos. E outros  bem mais jovens. Não há idade certa pra partir. E já tive tantos rostos. Ao longo de décadas  distintas viajei faceira. * O enigma deste dia me interroga: "Quem nos envolve sempre mais e mais em  guerras tão insanas?" * Pois se a vida corre ligeira e trabalhosa,  quem imaginaria a invenção de mais uma  guerra se já temos tantas? * Aqui deste país triangular e solar invoco: Sejamos homens e mulheres que  nascem sempre com os pés voltados  para a luz e a alegria. Enquanto a harpa soa ressoa com canções de  deuses zangados, sejamos lúcidos e debruçados sobre nuvens altas  - com rostos calmos ou em preces - cantemos por novos tempos. * E neste mundo onde nascemos  celebremos a vida e a Páscoa  uma outra vez! *

Rio de Janeiro, 12.04.2022

 A casa  Uma toalha colorida sobre a mesa da sala. Objetos de família fixados em ângulos oblíquos.  Livros e mais livros que você arruma e eu saboreio todos os dias, com leituras em voz alta. Enquanto o frio não chega. Enquanto homens se matam na Europa tão desenvolvida. Enquanto a vida parecia calma. Parecia saudável e eterna. A casa de paredes brancas respira.  A casa sempre construída com gestos mansos: matéria e espírito. Paredes altas. Sete portas.

À noite:

 Nota: Estou triste e apreensiva com o futuro da França.  Teremos dias difíceis pela frente.  Enquanto a guerra não esfria, alguns franceses se mostram preocupados com "le pouvoir d'achat". Lastimável! - Nunca Marine Le Pen! * Mariupol " caiu"? Alguns civis sem condições nenhuma permanecem e resistem... no leste da Ucrânia.  *

Poesia sem sossego

 Aqui, onde arrisco ligeiras palavras, nascem pés e mãos sem sossego. E onde brotam, perto de mim, o verde e um botão de rosa rosa  mãos somadas  sobre a tela - água  respiram. * E eis que a sombra sai da sombra. * Palavras recuperam o sopro. * A terra geme em destempero  e tudo ao redor clama algum alento. * Sapatos no chão  entre bombas. Olhos abertos. * Cobertores. Corredores invisíveis. Linhas de fuga.

Rio, 11.04.2022

 Diário, A semana passada correu entre flores que chegaram. Cores vivas de frescor e pétalas.  Ando dentro de casa e mudo objetos de lugar em  gestos novos? Começo a leitura do Diário de Virginia.  Duras e Annie Ernaux aguardam embora  tenham chegado primeiro. As palavras brotam ligeiro. Digo o pouco de um botão de rosa. * Braços-pássaro Cada um deles em leve e seguro pouso O poema em voo raso  envolvendo a erva que cresce na cerca Um calafrio repentino E o branco vestido dependurado no varal * Uma palavra apenas Um sinal Ou serão as noites sempre punidas com os surdos ruídos de bombas? * Sombras e gestos loucos? A caligrafia destes dias alcança algum alento? * Braços-pássaro em asas abertas voam...

À tarde escrevo,

 Partiu o nosso querido Juva Batella. E partiu cedo demais! Tanto talento em boa alma não é uma mistura  comum. Sentiremos falta de seu jeito de chegar sorridente. Olhar fixo. Palavras exatas. " A vida é curta a vida"/" Somos uma grande  estrela" Querido Juva, O céu o acolherá!

Diário fotográfico

Imagem
  Anotações feitas na Cité Universitaire - Paris 

Diario de um domingo apreensivo

 Fora das molduras Fileiras de tanques entram devagar. Árvores secas.  Árvores nuas fora das molduras. Donbass aguarda.  Russos × Ucranianos Civis escondidos. Civis armados. Tropas russas treinadas para matar e a língua é ferida de morte. Na França escolhem o novo presidente. Algo está para acontecer. Repetição? Crianças ucranianas são bem recebidas nas  escolas do mundo. Mas nem sempre foi assim. Com outros imigrantes as cores eram outras. E os princípios também.  Assistimos tudo. Vimos até Boris Johnson  caminhar nas ruas de Kiev. Não é um passeio. Qual a cor do muro? Ou o princípio do futuro? Enquanto na cidade do Rio as festas retornam. Enquanto meu coração bate lento. As folhagens verdes mudam. Enquanto o frio não chega por aqui. E a janela do quarto na penumbra segreda a vida, e as índias do Brasil dançam outra  vez em Brasília.  Diário,  o mês de abril já anuncia a lua cheia. E dias de Carnaval fora do lugar. A guerra medíocre não mede...

Homenagem, 8.04.2022

Imagem
 E a música de Pink Floyd .... Bum... E a música de Pink Bum... E a música  E a... 44 dias de guerra * Make love, not war! *

Diário:

 Comento, rapidamente, que eu nunca conseguiria ser ou viver do mundo da política.  Gosto de gente mas, também, gosto da verdade dos fatos.  O mundo político me embrulha o estômago.  * Trabalhei em Escolinha de arte, Escolinha de crianças surdas, Creches e Hospital.  Convivi com pessoas muito diversas, antes de começar a estudar psicanálise. E, começar a ter a minha clínica na década de oitenta. Os Personagens de minha vida de menina são tantos e de regiões tão diversas neste nosso Brasil,  que me ajudam a compor a nossa raça rica de sotaques saborosos. Acho que comecei a contar histórias bem cedo, quando inventei os primeiros teatrinhos ensaiados nas férias de verão entre os primos. * Os tempos da vida não se misturam. Bordam um tapete de texturas.  Mergulhos no Tarumã Lua cheia no verão em Guarapari  Praia de Ipanema  Carnaval no Siribeira Teresópolis no inverno Areias de Búzios  * Na sequência dos dias Epifanias e viagens diversas sem...

Rio, 7.04.2022

Imagem
 Diário fotográfico  Em minhas mãos o volume II do Diário  de Virginia Woolf , Ed. NOS

Poesia

 Os pés ficam nas estradas Nas marcas dos caminhos Poeira Chão  Flor floração  Passarada

Rio de Janeiro, 6.04.2022

 Diário,  O prato, os talheres e a xícara pesam. Pela manhã pesam os pensamentos.  * A guerra continua sem definição de paz. Sim,  os homens deixam suas botas nos caminhos... Árvores e pássaros desaparecem  Casas encantadas desaparecem Nas cinzas de nosso tempo Nuvens e fogo  Teatros escolas vozes de crianças  Desaparecem * Meus braços - borboleta firmam-se Em novos horizontes * Eu e ele Andamos olhando o horizonte Em tempos duros de homens selvagens 

Rio de Janeiro, 5 de abril de 2022

 Diário,   Na claridade a vida acontece *

Poesia sem final

 A boca abre a mão e soletra Um murmúrio lamento  A boca toca quase tudo e todos * Pedra sal e vento De onde me chamam há muito tempo  Escuto Bach  * E se a boca abre Um mundo redondo e barulhento  Quero crer no silêncio  E me envolvo em nuvens

Rio de Janeiro, 4.04.2022

 Diário,  Hoje é a primeira segunda-feira de abril. O céu acordou azul. Sem nuvem alguma. Café da manhã envolvido em memórias: Pão torrado Vitamina c E algum sorriso de soslaio A escritora de As meninas partiu ontem. Quase centenária.   Algumas meninas e alguns meninos partem durante a guerra insana na Ucrânia. E partem na primeira infância.  Por aqui, crianças partem por balas perdidas...

Diário, 3.04.2022

 Não consigo mais ver as imagens desta guerra tão devastadora. As últimas que vi na TV francesa, não pude crer no que via. Uma mulher idosa ucraniana gritava diante de corpos de soldados russos carbonizados. Quase  blasfemando, falava com os mortos anunciando que permaneceriam ali. Permaneceriam em solo ucraniano. Não sei dizer o que é mais terrível: O ódio que nasce nestes momentos cruéis ou a dor diante da falta de tudo.  Diário, o poeta italiano Franco Arminio escreveu algo assim: Mesmo em dias de guerra, à noite o beijo acontece. * Escrevo, Um afago, um olhar, um alimento quente. A àgua pura que desce na garganta. Sim,  o beijo acontece. 

Final de tarde

Sem claridade  Pingos duros batem nos vidros embaçados. Ruas alagadas na tarde de ontem em meio a insistentes carros balsas galochas entre as águas no Rio de Janeiro, à margem de meus cadernos.  Nascidas das chuvas rápidas  as nuvens escurecem quase tudo; menos o  verso murmurado agora. Um outro outono desabrocha: mais parece uma flor de cactos. Floresce rápido colorida entre espinhos.

Diário fotográfico

Imagem
 Em Mantova: árvores e sombras  Caminhando...

Rio, 1.04.2022

 As paredes desta casa vibram na luz de um outono costurado entre os dedos da esperança