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Mostrando postagens de julho, 2020

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Rio, 31.07.2020 Comentário: Escutei, ontem, no Jornal da Meia-noite de Portugal que os sismógrafos do mundo observam com interesse genuíno - em função de pela primeira vez acontecer em torno da terra - um silêncio nunca ouvido no planeta. São captados ruídos raros: pequenos tremores de terra e barulhos da natureza delicada. * A natureza clama É com a boca colada lá no horizonte mar e a onda vibrando seu ritmo intenso e côncavo É com o dia em chamas nas serras e nas florestas que ardem seu calor: crime e castigo Aspiramos longe este clamor de aves raras curvas asas suaves no céu Árvores de verdes sombras suadas mãos sob o sol  em vertigem na luta com a natureza     

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Rio, 30.07.2020 Uma manhã chuvosa. Cinza e triste. Não tememos a tristeza, mas o desmando e a loucura. Recupero um certo "não saber" sobre as coisas mais dolorosas para dizer da dor de amigos, que vivem situações extremas ou perdas inesperadas. É tudo muito triste! Nada se sabe sobre os dias a acontecer... Não se sabe nada, salvo que vivemos dias de dor! * Poema sem ruído   A ruga da testa muda Os membros do corpo se ligam  à linha da escrita Verde é o tom  de raízes vivas fincadas fundo na terra Saboreamos este momento  O sulco mais ligeiro do rosto respira nas linhas brancas e negras da paisagem sem subterfúgio A mão ainda ligada às letras Os acordes sóbrios e as noites longas não se deixam sufocar em lágrimas que as pálpebras respiram em silêncio (vivo silêncio...) * Temporada americana 1. Recupero pedaços do tempo, fragmentos de meu diário escrito na adolescência em meio a cartas enviadas ao Brasil desde Washington, onde vivi por alguns meses, nesta temporada ame...

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Rio, 29.07.2020 Notícias literárias: Quando esta pandemia acabar, talvez este diário - sofrido de notícias e poemas - venha a se tornar um livro (escuto os pedidos de leitores amigos)! Meu marido voltou a trabalhar em seu texto de Mestrado em Teoria Literária, na UFRJ. (A intenção é a mesma, ou seja, transformá-lo em livro)! Notícias abissais: O número de enfermeiros brasileiros que morreram durante esta pandemia é a metade do número total de enfermeiros mortos no mundo! No mês de maio, enquanto a pandemia tomava conta do Brasil, o interesse do nosso presidente era favorecer por lei a compra de munições sem reservas. Assim que, os compradores e os vendedores de armas foram muito favorecidos. Procurem saber mais sobre o assunto... * Faleceu, ontem, vítima de coronavírus o talentoso jornalista esportivo muito querido no meio Rodrigo Rodrigues. ... enquanto ... "a caravana passa..." (repito outro jornalista carioca!)  Hildegard Angel, ela mesma, a filha da estilista Zuzu Angel e...

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Rio, 28.07.2020 Na cozinha, ontem à tarde, fiz brigadeiro. Uma gulodice! Mas, pela manhã, o feijão azuki ganhara destaque de novo. As sementes pequeninas e quase roxas - originárias da China - são bastante comidas também no Japão. Uma delícia e rico em proteínas, ferro, zinco, potássio, fibras e vitaminas do complexo B. Seguimos equilibrando a vida entre as notícias preocupantes durante esta pandemia mundial, que nos obriga a pensar o mundo e o dia a dia onde estamos mergulhados. No meu caso, nesta cidade que já foi  tão maravilhosa! Em meio às leituras, aos cuidados dados às plantas e à cozinha vou me distraindo. Durante a limpeza da casa, a escrita e a"escuta" persigo os pensamentos densos e, também, os mais delicados.  Não tem sido nada simples. O trabalho se sustenta com as mãos nas extremidades da mente...   * Mãos abertas Seguro os ramos soltos da vida entre as brumas da manhã azul na crônica de mais um dia São os pensamentos os galhos mais fortes na temperatur...

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Neste quase-diário  ainda assim fruto de meus dias guardo as impressões bizarras destes momentos que me obrigam a viver e a partilhar o luto de outras famílias de grupos indígenas eliminados das florestas queimadas à toa da fome dos homens desempregados da luta das mulheres sem água em casa das crianças que não entendem quase nada Aqui nesta escrita que brota natural e não se queixa  registro o poema repentino imaturo e louco A relação do ser com a palavra pouca  com as cores graves do sangue e o ritmo rouco dicção de pedra e de perda com o vocábulo sem nome  de um dia que se faz registro Nota triste do final do dia: Já temos quase 88 mil mortes por covid no país. E o nosso governo não toma as providências necessárias para enfrentar a pandemia . * Nota de esperança: Finalmente, chegou em Haia um pedido de punição ao nosso presidente por não agir a favor da saúde nem cuidar do povo de seu país, conforme seria necessário. Aguardamos as providências internacionais já qu...

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Rio, 27.07.2020 Molduras O tempo guardado dentro de casa O espesso e o límpido o vigor do dia Vibram ondas claras na janela de alumínio  o brilho do sol intenso o poema em nuvens dentro de casa sutilezas detalhes da manhã molduras redondas ovais   Quadrados retratos do tempo guardados * Orações da manhã Em tempo e no tempo uma atmosfera estranha na terra sonora; coração e fruto Um canto acontece agora: os pássaros de sempre sussurram  o ritmo cai no esquecimento

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Rio, 26.07.2020 Em 1970, Marguerite Yourcenar escreveu no livro  O tempo, esse grande escultor  anunciando que o mundo participava de uma guerra instalada "em meio a uma paz que não é paz" e que tendia a se tornar um ambiente para o homem cada vez mais destrutivo. O capítulo do livro nomeado "Essa facilidade infausta de morrer" contribui, agora, para nos ajudar a pensar um pouco mais esta "poluição" que nos encobre, e que de todas as muitas formas está instalada no mundo.  Neste tempo onde Marguerite anotou que já se lia "um mundo em que os anúncios de restaurantes gastronômicos aparecem nos jornais na mesma página onde se leem reportagens sobre povos inteiros que morrem de fome; em que cada mulher num casaco de pele contribui para a extinção de alguma espécie viva; em que nossa volúpia de velocidade agrava cada dia a poluição do ar de que dependemos para viver" e muito mais.  As facilidades de um viver estranhamente debochado e pleno de excessos...

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Rio, 25.07.2020 No caminho de títulos de livros que espalho sobre a mesa de jantar saboreio desde Marguerite  Yourcenar "O Tempo, esse grande escultor" à "História da Beleza" de Umberto Eco. Um pouco ao lado está a portuguesa Agostina Bessa-Luís e Manoel de Oliveira em "Um concerto em tom  de conversa".  Três mensagens me chamam no WhatsApp mas não respondo agora. Os livros -  alguns deles - chegaram aqui em nossa casa, depois de serem comprados on line. Um prazer recebê-los com sorrisos, mesmo que não tenham sido escolhidos com o toque das mãos. Misterioso sempre é o encontro com os livros! Ainda enchemos a casa de livros e os saboreamos em leituras em voz alta, muitas vezes lendo um para o outro no final do dia; prática adquirida desde o início de nossa vida em comum! *

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Rio, 24.07.2020 Nota dramática do dia: As máscaras que, agora, fazem parte do vestiário da população tanto aqui como do outro lado do oceano só não são usadas pelos russos. No entanto, o nosso presidente continua insistindo em negar o uso das máscaras. Mas, a questão que me leva a escrever nesta tarde de sexta-feira diz respeito ao que, ontem, vi na tv francesa, no encerramento do jornal noturno. Vimos imagens de uma matéria chocante. Mostraram cenas recém acontecidas no Amazonas, com algumas tribos Ianomâmis recebendo equipes do exército representando o nosso governo, e que chegavam de helicópteros na região para entregar a cloroquina em mãos. As cenas com as caixas da medicação entregues aos índios me deixaram perplexa. O que estamos vivendo durante esta pandemia, com os desmandos e as atitudes bizarras tomadas por este governo são cenas tão indecorosas que se aproximam da barbárie. Por que não tomamos uma posição séria diante de tudo isso? 

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Rio, 24.07.2020 Reconhecemos as mentiras Se desejarmos sempre poderemos vê-las Diante dos sonhos na noite ou no dia  que nos afasta de perigos iminentes Nos gestos e nos olhares mais sombrios  veremos os portos sem cordas nem amarração; os barcos sem âncora Não se sustenta o que não tem verdade Ardem no tempo as mentiras descabeladas e até mesmo as mais arrumadinhas  facilmente se desmontam De qualquer lugar ergueremos a voz Os espaços procuram os rostos em límpido mar e longe do nojo  

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Em 23.07.2020            Foto de 2005 em Paris, Maison do Canadá. À noite, Faleceu hoje o querido músico e compositor Sérgio Ricardo. Merece uma salva de palmas! E, na contramão do mundo a insanidade de nosso presidente. Anda de moto ainda doente de forma insolente!

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Flor-de-maio (roseiras de junho e julho) Não só na sombra das flores-de-maio, mas nas roseiras de junho e julho  vermelhas de rosas   e vergadas no peso da antiguidade,  sim, porque o peso não é brando e é rude demais este momento. Sim, e sempre porque no instante em que escrevo nascem crianças ao redor do mundo e a grande força da natureza em torno de mim - por sobre as copas verdes das árvores - sobressai e clama aos lábios abertos do mundo!     

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Rio, 22.07.2020 Caro diário, Já são mais de cento e vinte e cinco dias dentro de casa direto. Os olhos ardem ao vento e a boca rasgada de silêncio na manhã de inverno sonha sonhos claros e míopes. Janelas abertas em caminhos que não se desfazem. Um pouco de tudo e muito de quase nada. Itinerários novos demais. O sol esquenta as lentes televisivas ou não. Um bocado de gente quer partir para outros países um outro bocado quer apenas viver... *

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Rio, 21.07.2020 Fronteira ausente Noite água, terra aberta. Não se mostram as nuances do dia. As fronteiras estão ausentes.   Nas mãos insistem as letras em relatos mágicos. O corpo coberto de hera deixa-se levar - a trança da rede balança - minutos de vento diante do mar verde maré. É verão em outro lugar! * Apaga-se a luz sem conversas e não se leem as sombras. * Nos intervalos  a água fura a pedra na montanha e ninguém vê.

Parabéns, Greta Thunberg!

Com enorme emoção, recebi a notícia do prêmio recebido por Greta na Fundação Gulbenkian. E agora fico sabendo da linda novidade.  Cito: Uma das duas primeiras doações de Thunberg, de 100.000 euros (R$ 600  mil), será destinada à SOS Amazônia, uma campanha de financiamento coletivo lançada em junho para comprar suprimentos médicos e fornecer serviços de telemedicina contra o coronavírus para residentes da floresta amazônica brasileira. Muito, muito obrigada!

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Rio, 20.07.2020 Inverno sem rima Os mortos em excesso. Tantos que nem se fala mais. Todos os dias batemos a ordem de mais de mil. O país continental não deixa passar o inverno e no sul os mortos se compadecem dos vivos. Há gente demais por aqui. Esta terra imperfeita é festeira.  Tem gente que precisa partir?  Na correria do vírus alguns esquecem os cuidados e "o problema da eternidade" quase desaparece.  No "céu" chegam inúmeros e no "inferno" muitos mais. A Barca parte cheia e para muitas direções. Os jovens não querem saltar... Pensam viajar ao infinito azul. Dizem entre si, decididamente:  tens alguma dúvida de onde começa a festa?

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Rio, ainda domingo: Delicadezas em fotos de: José Eduardo Barros no Jardim Botânico do Rio  (tempos diversos)

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Rio, 19.07.2020 Ironias Nas praias do Rio as coisas se complicam. Corpos pousados juntos nas areias  e o sol a apertar. O vírus vira de lado não desvira nem sai ... * A morte dos grande ou dos pequenos ao que parece pouco importa.  Uma grande nação ficou pequena demais na cabeça de um presidente  que subestima os avanços da ciência. Bem-me-quer...mal-me-quer... brincadeira de criança, no meu país o valor da vida parece estar vinculado ao uso da cloroquina!  

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Rio, 18.07.2020 Ilusões Este país parece impossível. Caminha de lado e descarrilhado; ao lado do vírus balança. As ondas do mar trazem pinguins no inverno vestidos em casacas longas.  E um elefante marinho surfou no Arpoador. Vôos de gaivotas à beira-mar e água adentro. Trocamos não mais as cartas  mas mensagens rápidas e etéreas. A luz que nos invade os versos  tem um clamor de vida sofrida. Os brindes de vinho pertencem ao ontem. O passado está longe em um lugar mais verdadeiro. Impossível trazer pra perto os rostos mais amigos.  O corpo do amado parece cansado de tarefas domésticas. Neste tempo impossível, imprevisível e louco no caminho do lado vivem as ilusões remotas.   *   Notas diversas: 1. Impressionante e único este momento de pandemia nos EUA. Colocou à mostra o "calcanhar de aquiles" do governo Trump.  Só não vê quem não quer. As palavras vazias caem no escuro da miséria desgovernada e banal. Porém, vou arriscar afirmar que, ao mesmo tempo,...

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Rio, 17.07.2020 E o Sol e o sol... deu um show, por satélite, nas imagens transmitidas pelas tvs. Luzes e explosões luminosas!

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Rio, 16.07.2020 Dádivas do dia O Papa Francisco de um lado e o fotógrafo Sebastião Salgado de outro, ambos somam força cuidando do nosso Amazonas. Viva! O Papa Francisco doou respiradores artificiais para o hospital de campanha do Pará. Cada um de nós pode fazer a sua parte, seja fazendo doações para as ONGs sérias que já trabalham por lá, ou protegendo os índios das mais diversas formas, até mesmo buscando acompanhar e criticar o que está sendo feito na contramão da vida por este governo brasileiro, tão kamikaze. A discussão do momento parece louca:  Será esta pandemia no Brasil um genocídio? * Poesia Rios e árvores no extremo norte do país e um sopro alto na sombra da sumaúma. Uma linha longe do horizonte largo palpita no coração da floresta. Os índios protegem os corpos  em pequenas embarcações  por onde correm as margens com o barro que escorre fresco. Apenas os murmúrios acontecem sobre o caminho cego. * Nota desta tarde chuvosa Os dias se complicam nos próprios pés....

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Rio, 15.07.2020 Nota matutina: Muita chuva na cidade. Continuamos navegando em mar aberto, e sujeito às intempéries da política. Diante de políticos nos quais não acredito, o prato do dia, sem variação, continua sendo as mentiras que "rolam" para todos os lados.   Felizmente, teremos um documentário sobre o tão querido Frans Krajcberg. Um filme de Regina Jehá no Canal Brasil, hoje às 20.20hs. * Poesia Diante de um cenário prolongado o corpo calmo se estende            em direção ao mar, às nuvens altas sem paredes claras. Nos sonhos de abraços e súplicas as mãos alcançam poucas dádivas Folhagens molhadas conhecem gestos de cuidados. Os sonhos não se desmontam a casa é a mesma de sempre - entre paredes brancas - portas abertas                por onde ando deslizo e sorvo um gole de café com a ruga da testa presa no arco das sobrancelhas. * Dura e fria realidade, ho...

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Rio, 14.07.2020 Crônica do dia: Na França, hoje, comemora-se  Le 14 juillet. Mas, não haverá público festivo, claro! Mas muitos fogos na Torre Eiffel! Por aqui, não há nada a comemorar. O número de mortes continua altíssimo. São mais de mil mortes por dia, oficialmente, há mais de um mês. E, entre os muitos Estados do Brasil, há um sobe e desce na taxa de infectados pelo covid ainda precisando de estudos, que esclareçam a razão desta oscilação sem precedentes.  No governo federal os desmandos também são sem precedentes. Tiram e botam ministros e técnicos de funções chaves de forma aparentemente aleatória, e parecem pensar que a população não pensa. O Ministério da Saúde continua sem pé nem cabeça, e alguns outros Ministérios funcionam em desordem proposital. É cruel e desrespeitoso com a Nação e o Mundo.  Os adjetivos para nomear o nosso atual presidente ficam a cargo dos comediantes. Porém, até eles não dão conta inteiramente da tarefa, porque temos à frente ...

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Rio, 13.07.2020 O leitor escreve e lê. Escreve para si próprio. Refaz os passos da caminhada. No movimento do mundo, percebe-se a banalização da morte. De tanto vermos em imagens televisivas os assassinatos de todas as formas acontecendo ao redor, não nos importamos mais? A dor castiga e o leitor escreve. Escreve para aqueles que ainda sabem ler. Será possível que não nos importemos mais com o homem que caminha ao nosso lado? São tantos os que tombam... areias tempestades travessias em mares raivosos olhares pedintes famintos e sedentos os homens trafegam os oceanos bebês no colo envolvidos em trapos temporais chuvas densas mãos calejadas da luta Do outro lado dos oceanos é tudo igual. As portas nem sempre abertas. Muitos homens tombam... * As mãos no leito do rio escrevem e escutam ruídos não sabem os gestos de ontem. Pedras roladas na impaciência descrevem pernas súbitas e versos soltos fora de lugar. Frutos de figuras abstratas os papéis não se...

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Rio, 12.07.2020 Árvores Galhos cansados sobrevivem em meio a um pedido de vento Tantos morrem de doença no desamparo ou na pandemia de mentiras ao extremo Galhos sufocados no calor da mata não garantem oxigênio Quem perde com a febre da ganância que mata mais que o vírus? Árvores da floresta abrem seus segredos e as raízes nos dizem: perdemos a alma da vida verde (Inquietas, espantadas perdem o que pulsa a seiva!)

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Rio, 11.07.2020 Acordo entre as paredes da casa O tempo se desenha do lado de fora E na janela sopra a estranheza Se nenhum acontecimento se perder A fragilidade de meu corpo vencerá Serei - eu e ele - neste momento triste E salva pela flor que nasce na manhã parte do universo renascerá ! 

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Rio, 10.07.2020 Aconteceu hoje o lançamento on line, por zoom, do meu novo livro A bordo do Clementina e depois   pela 7Letras. Agradeço a presença dos amigos, aos comentários e depoimentos emocionados! Em breve, o e-book estará circulando entre nós além da edição em papel já à venda. * Nota triste Faleceu, hoje, de acidente de automóvel o fundador do Partido Verde, o carioca Alfredo Sirkis. Não podemos esquecer a luta deste homem contra o aquecimento global. Foi um dos precursores da causa ambientalista no Brasil. E a ele dei meu voto algumas vezes. Muito obrigada Sirkis!

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Rio, 9.07.2020 Caminhando Sem a certeza do chão na face uma ruga a mais se estabelece * A mão sobre a sombra surge errante e passeia perto da janela * Um punhado de ar nos escapa Levanto-me devagar Junto à porta da casa o tempo sopra os dias Um tempo interminável Um tempo sem eco Um tempo tardio

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Rio, 8.07.2020 Inverno Inverno que passa entre os embaraços dos dias parecendo uma dança de movimentos loucos e sonoros * Não dizer muito no mínimo intervalo da tarde despudorada Entre paredes e portas dizer quase nada O pulso bate violento no verso Desejo ardente de escrita ainda entre portas e paredes Tarde que avança Uma lâmpada embaçada luz de algodão noite que chega Poema entre paredes e portas no bairro carioca  

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Rio, 7.07.2020 Bem perto do mar a água sobe e desce areias e espumas os corpos presos dentro de casa beira das calçadas de olhares estendidos gaivotas planam ao vento na fria manhã solidão imensa de ossos quietos bocas fechadas e respiração curta o verde dos montes se mistura todas as árvores saem do silêncio as pedras e os musgos sopram o sol lança suas chamas nas areias um punhado de gestos e a tua face longe da tempestade

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Rio, 6.07.2020 Mais densos os dias assim caminhamos um passo estreito quase sem espaço uma incerteza estranha meio sem lugar as mãos em prece sobre a mesa as letras do poema quase sem ar um sonho pesadelo os grãos de areia longe e o mar...

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Rio, 5.07.2020 Aguardo da manhã o canto dos pássaros Nas paredes da casa as sombras sobrevivem A luz não se separa do dia E as cigarras só retornarão no próximo verão Inverno de dias tristes e frios Janelas abertas se sobrepõem Os passos lentos escrevem Versos firmes em teclas negras No ponto mais extremo Alguns irmãos se dão as mãos A calma cai de repente muito de repente Entre o céu azul e o mar distante * Ficamos sabendo, agora, que faleceu o nosso querido Nonato Gurgel (professor talentoso, dedicado, e uma doce pessoa habitada de versos). É muito triste! Meu caro Nonato, Nossas conversas continuarão interrompidas! ... por belos sorrisos, pelos fragmentos que ambos desfrutávamos relembrando (de Leminski e outros poetas aos impressionantes filósofos do romantismo alemão)! Conversas que respiraram a alegria da escrita. Conversas intermináveis à maneira de Blanchot! Quando soube que vc adoecera de covid, falei alto:  - não!  Mas, meu caro, d...

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Rio, 4.07.2020 No verso do mar Transformar a cena e o enquadre provocar o gesto de ternura doar flor aos oceanos  Retirar os sacos plásticos no lixo que se abre entre as algas Provar um mundo mais limpo A viagem pode ser maior e ao encontro da terra que mora perto de nós Nada nos separa de um jardim ou de um bosque se a nossa sombra mostra-se no avesso da luz Nem o cristal do dia nem os lábios da noite onde o silêncio respira e ri da própria sombra dormem no verso antes iluminado pelos braços do mar * A rua de estrelas não longe da luz da lua A sombra dos homens e um tempo habitado na dor Um "monstro" maior se mostra sem temor de nada Só palavras chulas oferece nestes dias de covid Rio 04.07.2020 Muitos mortos pairam ao redor Mais de 6 mil só na nossa cidade A solidão dentro de nós

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Rio, 3.07.2020 Batem panelas nesta manhã à moda argentina! Escutei, logo cedo, que nosso presidente desautorizou o uso de máscaras no país em Igrejas e no comércio. Insanidade é pouco. Ficará para a história como o pior entre os piores. * Atingidos pelo vírus caem. Os filhos da Pátria sob a terra não respiram mais. E são inúmeros os Pedro, João, Maria, sem pão! Assim os filhos de um sonho saem pela porta sem retorno. Morreram agora e antes os anjos de asas ou sem. * Abertas as cortinas das cenas de rua correm na escuridão os homens Os deuses falam entre si e murmuram interrogações Em tudo que já se viu há sempre um muro inapreensível, opaco e mudo Nas cenas de agora a permissão é bárbara e libera o corpo da palavra As asas dos anjos batem em espaços demarcados Lutam com as arestas Íngreme é o dia de ontem, hoje é a festa Sem a permissão da ciência os homens saem à vontade resmungam baixo deixam passar a fúria o descaso, a dança O baile de ...

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Rio, 2.07.2020 Desconforto A luz atrás da cortina recolhe do dia sem trégua as pernas e os braços frágeis neste ângulo de visão Cabeças de índios jovens sonham longe um dia ainda por vir A cada instante partimos mais e mais

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À noite: Pelo canto dos olhos escorrem os dias tristes de raras verdades  Das folhas verdes e úmidas nos muros onde cantam os sabiás Saem as misérias destes dias corridos e escondidos em tantos vírus Nas ruas entre as brechas há sempre um homem que trafega   A pé ou de bicicleta com a perna ousada e naufragada de tarefas Pelo canto dos olhos soam as notícias mais bizarras Na voz que tanto implora e pouco se importa com os demais Há neste momento do país um arranhar de leis e ousadias Um rugido solto de muito poucos que parecem muitos * As mãos dobradas sobre si mesmas A letra contida, plena de espera

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Rio, 1.07.2020 A madrugada guarda a madrugada sonha sonhos-sol * Enquanto a casa acorda sombria e séria o espanto abre os olhos Denso dia Enquanto as portas rangem rápido é o passo imenso é o gesto Abraços dispersados Enquanto ruídos acontecem no elevador vazio espaços-nuvem Braços soltos A casa acomoda os silêncios * As mãos em prece lá no fundo da mata fechada bem perto dos galhos grossos da árvore maior Na floresta de formigueiros unidos o índio pede ao fogo proteção A água da chuva responde calma Cai nos rios ao redor um perfume de flor As mãos respiram o calor do fogo o índio mais velho canta alto a tribo dança em roda Batem os pés no chão... Um lamento corre nos corpos suados Sopram fumaça pra cima Cada dia há a hora da morte