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Mostrando postagens de julho, 2021

Parabéns !

Comento: Jogo lindo da dupla feminina de tênis do Brasil! E o vôlei masculino de nossos jogadores com os franceses, também. Muito impressionante a  'garra' dos dois times até o fim. A emoção de alguns atletas na vitória ou na derrota traduzem  algo humano nestas competições ao logo da história dos Jogos Olímpicos. Apesar do vírus covid-19 e, talvez, até mesmo por isso temos visto mais lágrimas e declarações amorosas surpreendentes. Um novo tempo na história do esporte se abre com a fala de  algumas mulheres que, finalmente, se autorizam dizer o quanto se esforçam para além de seus  limites. E a angústia participa dos discursos.

Diário, 31.07.2021

Corpo na lareira O sol repousa entre nuvens e aquece  galhos de árvores e asas  de passarinhos na haste do tempo Os pés dos homens na lareira  Não há trégua no frio intenso  que nos assombra os dias de inverno No mar cheio do Recife tubarões chegam perto e atacam junto a orla do nordeste Na praia da Piedade faz calor mas o frio em Campos do Jordão chega a 1 grau e arrepia até o silêncio Que o sossego possa ser acalentado depois que as sombras e os gritos digam os desenhos dos desmandos e a luta das geografias a se desenhar  no voo das águias  nas águas costeiras da madrugada Os patos as garças atravessam invernos  antes de regressar e procriar Sabores intensos perfumes O corpo na lareira lê  o fruto do descanso aceso; um livro a cada momento 

Diário, 30.07.2021

Quando Quando algum dia me perguntarem notícias deste tempo triste poderei contar dos amigos que perdi e dos poetas que se foram de repente demais (Nonato, Quiroga, Tamara, Deluy...)  Quando abrirmos as portas para ouvir o riso das crianças porque sirenes de ambulâncias pararam de soar os amigos de novo voltarão a habitar nossas moradas e o ar ao redor de nós será possível Fora deste espaço de luto e perseverança quando o corpo alcançar os abraços nas alvoradas e nas praias da cidade o escuro dia que passou será estrela de um amanhã

Diário, 29.07.2021

 Uma palavra  para Tamara Na memória encontro fotografias. Tantas vezes conversamos e rimos, e contamos histórias antigas de nossas vidas e da vida dos livros.  Tudo passa muito rápido. No Rio de Janeiro nos vimos na última vez que tomamos um café juntas e falamos tanto de tudo, diante daquela paisagem magnífica da praia de Copacabana.  Tudo se passou muito rapidamente.  (Você e Paula corriam para o aeroporto e voltavam para Buenos Aires animadas pelas férias e as praias  partilhadas aqui.)  As linhas do poema seguem soltas e a paisagem carioca permanece assim como seus livros circulam em nossa casa  
  Com lágrimas comunico o falecimento da querida poeta argentina, Tamara Kamenszain

Talvez

Talvez o mundo seja mesmo parte de um sonho que começou bem longe na história dos homens Se tudo se dá mesmo desta forma única e pouco  explicada talvez as formigas sigam suas sinas sabendo algo e as cigarras tão desgarradas de tudo não deem importância alguma às surpresas de seus dias Talvez as águas que caem agora sobre nós ou as neves que se lançam nos campos do sul do país sejam parte desta forma silenciosa de movimento onde nada surge ao acaso E as lâmpadas que se acendem sob o vento do poema talvez façam brilhar nossos olhares na dança das palavras

Diário, 28.07.2021

Chove um pouco na cidade do Rio. Ainda não esfriou. Não consigo ter nenhum interesse nas Olimpíadas de 2021. Assim mesmo, escuto restos de comentários jornalísticos dos que se ocupam com a matéria.  Há coisas demais acontecendo. As preocupações com o covid-19 aqui  e no mundo são parte das questões sérias. A outra parte continua sendo  a insanidade de nosso (des)governo.  E a parte mais fundamental é o que vamos fazer, todos nós, para  buscar conter este desmonte da natureza que acontece todos os dias, ao nosso lado, e muitos não querem sequer ver. *

Diário, 27.07.2021

 Em 27.07.2020 escrevi: Molduras O tempo guardado dentro de casa O espesso e o límpido o vigor do dia Vibram ondas claras na janela de alumínio o brilho do sol intenso o poema em nuvens dentro de casa sutilezas detalhes da manhã molduras redondas ovais Quadrados retratos do tempo guardados * Continuo a viver aqui  e na outra casa; a de meus sonhos

Diário, 26.07.2021

Ouço o dia que começa o frio que se anuncia e a mão que desliza em letras Convicção e pensamento às vezes derrapam em incertezas * Envelheço.  Na testa livre rugas participam de mais um dia. Lábios finos sem cor guardam o mais precioso: tempo e memória. * Os passos dados no jardim ao sol À noite,  mãos preparam sopas quentes Na solidão do olhar a dor de muitos Nós, não desistiremos

Diário, 25.07.2021

 Domingo: Há um frio ameaçando chegar de forma bizarra. Dizem que vai nevar nas serras de Itatiaia. (Vai ter nevasca!) Hum... sem palavras respiro a manhã ensolarada... * Manifestações contra políticas governamentais contra desmatamentos contra atos insanos  e perversos nos rodeiam. * Alguns querem vacinas outros não. * Mais adiante, talvez, possamos ver  alguns homens enfileirados reclamando do horror da vida que construíram. Por ora, precisamos cuidar muito de tudo. O mundo não nos pertence nem as árvores nem os rios.

Diário

 Não podemos esquecer de dizer: FORA BOLSONARO!

Passeando

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Um poema de inverno

Pés gelados ao vento Joelhos ardem sem saber a razão O frio corta pensamentos anula movimentos Tenho sede de primavera verão Punhos soltos na cama numa camisola longa de manga longa sobrevivem no escuro quarto * Poucas palavras O corpo manso denso e soletrado Duas sílabas Adormecida mais pareço sem corpo  A mão abre o dia A boca inunda tudo e fala palavras pausadas na língua  de todos nós

Diário, 23.07.2021

Trabalhar cozinhar coser Mulher é desdobrável ... A casa branca de janelas altas escancara as horas de meu dia Um anjo ou mais de um costuma vir me visitar Distraída guardo roupas em gavetas rasas Asas grandes passam  perto  e sopram versos                                           para Adélia Prado

Diário, 22.07.2021

 Amigos: Sendo fiel às mudanças climáticas, percorro os dias de  agora com sustos e melancolia. Para alguns as mentiras  importam mais que a vida.  As janelas de meus sonhos cobrem outros recortes:  Pássaros passam borboletas azuis amarelas. Nuvens com cara pontiaguda e barba grande no vento do jardim branco ressecado pelo frio. Os caminhos a vencer sobram  entre letras na geometria da caminhada. Enquanto os hipócritas mastigam saliva salgada enquanto a dor e a comiseração ... 

Homenagem ao poeta Henri Deluy

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                                           Os poetas Henri Deluy e Régis Bonvicino em 2007                                            (foto realizada alguns instantes depois do encontro)                                            Foto de Rafael Viegas O "Café Letrado" na Mediateca da Maison de France, no Rio de Janeiro, deixou em alguns de  nós um registro denso e poético. Foi vivido na dificuldade de duas línguas que, ali, buscavam  dizer a poesia de nosso tempo. Leituras, depoimentos e até mesmo os contratempos, depois  dos eventos, firmaram algum registro do que é possível viver neste impossível do dizer e  traduzir poesia. O poeta francês ...

Partiu o poeta Henri Deluy

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  Os exemplares, inúmeros, de sua revista Action poétique participam de nossa vida. Merci, Cher Deluy!

Diário, 20.07.2021

 Não é verão e não estou de férias O que acontece, aqui, neste inverno frio que não nos pertence nem os livros esperavam poder dizer algum dia. Cachos de mentiras escorrem até entre os dedos dos jornais diários.  Antes, ou mesmo muito antes, passaram inúmeros ladrões pelas estradas deste imenso país. Passavam em bandos, exatamente  como estamos vendo agora. Os livros de história trazem os relatos. Por aqui já passaram generais e ladrões e vice-versa. Com verso  ou sem, na rima que agora não interessa, colocamos um ao lado do outro, e  a fila faz fila na História. Quem quiser poderá listá-los. Não é verão por aqui. Faz frio e não estou de férias!

Diário, 19.07.2021

Falavas, falavas e nada Palavras ocas não dizem o dia (eles pensavam) As águas as chamas lamentações e raiva acordam os homens na manhã cheia de  dor e sem aromas Silêncio da passarinhada                                                                              Para Greta

Diário, 18.07.2021

 Na manhã deste domingo A luz a claridade e o fogo somam sabedoria num dia de domingo E as mãos sobram junto às letras que navegam terras molhadas  entre árvores e casas arrastadas  em águas violentas As palavras não foram suficientes Os homens insanos são surdos Um domingo necessita repouso A Alemanha a Bélgica e a Holanda inundadas pelas águas de seus rios  confirmam mudanças climáticas Nos EUA o fogo se alastra em Portugal alguns focos começam a aparecer  assim como na Sibéria As mortes se somam A insanidade também se alastra entre as sílabas soletradas Mentiras não se escondem São irresponsáveis os que cortam árvores de florestas Despudorados os que não compram vacinas

Diário, 17.07.2021

 Ainda não Ainda não disse a palavra mais clara a letra justa sobre a página aberta  diante do mar Ruas de pedras e mulheres constrangidas  no horizonte de cidades vazias  não foram escritas o suficiente Dias de dor  sombras sobre a mesa cílios umedecidos Perdas não esperadas Desesperadas Arrancadas Ainda não desfizemos o circo do planAlto de terra lisa coberta de gado e agrotóxicos Intensidade Apreensão  E tudo respira na miragem Na fascinação do vazio As muitas portas não deixam passar a  transparência  Não disse Ainda não dissemos quase nada Nem as manhãs foram sublinhadas alinhavadas em sílabas no sofrimento das formigas de trabalho incansável: metrô trabalho sono

Na tarde deste inverno

Um diário anda cavalga tropeça...  As nuvens abrem cenas claras Rosas rosas vermelhas amarelas padecem secas no chão. Natureza descompensada. Na Alemanha as chuvas matam. As mentiras, aqui, são assassinas.  Burlam os códigos dos homens. * Eu engasgo de preocupação Tu engasgas de dor Ele (soluça)... *  A ironia socrática pode nos ajudar. 

Diário, 16.07.2021

 O que é uma oração? É uma meditação? Uma prece? Uma contemplação? Um ato de resistência!

Diário, 15.07.2021

 Os minutos de mais um dia  Em camadas finas correm nas páginas expressões estranhas de homens frios. No céu blue as palavras chegam rodando em círculos. O relógio marca: a hora da prece.

Le 14 juillet: Un hommage à ville de Paris

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Em frente ao Louvre, Arc de Triomphe du Carrousel, 2010 Panthéon, 2012 Em 2005 (fugindo da chuva!)                                                           Livraria Gallimard, 2000                                                         Bairro do Marais, na beira do Sena. 2005                                               Museu Bourdelle, 2011  Em tempos diversos: pesquisas, estudos, descobertas.

Diário, 14.07.2021

 Nota da madrugada Um sonho perambulou pelos lençóis. Insistiu trêmulo um pedaço de mar. Olhos fechados em alerta. A parede branca do quarto (mãos guardadas sob o cobertor.)

Diário, 13.07.2021

Se há música ao redor... Se há música ao redor que seja a música  da escrita que abre os meus dedos nas teclas negras sombra do dia sobre a página luz em branco Se quero viver e insisto num circuito mais humano, resisto com os pés plantados neste Brasil: solo de índios, rios e mares grandes  Palmeiras, cactos, alecrim, mel de laranjeira Abelhas, jacarés, colibris Se há ainda a flor do mandacaru o olho das estrelas e o que somos em muitas moradas porque persigo este rastro  e sinto o faro de um momento que as janelas nos darão a ver Se sou uma ou muitas mais sei que ainda há de vir um tempo de árvores e ramos de gatos e cães mansos entre as castanheiras da praia na rede embalada pelo vento sul (a sua mão e a minha somarão um outro acordar)     

Diário de Solange Rebuzzi na Revue des Ressources - França

  https://www.larevuedesressources.org/Journal-de-Solange-Rebuzzi.html Cliquem no link acima pra acompanhar meu Journal , agora, traduzido por Márcia Rambourg na França. Merci, chère Márcia!  Et un très grand merci à La Revue des Ressources !

Diário, 12.07.2021

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 Viva a Itália!                                                  Em 1996 chegamos em Lucca de trem, atravessamos os muros                                                   da cidade velha e passamos um dia andando por lá.                                                   Inesquecível!                                                                                           ...

Diário, 11.07.2021

 Sou Itália.  É  gool..

Poesia?

A tarde rege o grito  que não fica preso na garganta. O grito pede muito.  Queremos nosso país de volta.  Queremos respeito. * Uma lágrima escorre  e não se esconde no rosto lívido Lágrima viva (água pura) A dor de um tempo destemperado onde nossas mãos atadas buscam sustentar alguma direção Os pés firmes no chão atravessam blasfêmias  no mês de julho que se abisma Somos os incrédulos  de plantão Fome flor dor cinzas E palavras chulas circulam   

Diário, 10.07.2021

Mês de julho difícil no Brasil. Muitas preocupações com a política desordenada e falida deste governo. Um governo infame! * Jogos de futebol mascaram os nossos graves problemas. Já morreram mais de 530 mil pessoas de covid.19 no país *

Diário, 9.07.2021

 Dia azul A manhã escorrega  nos dedos  o calor não aquece A terra seca   Ardem os olhos: poucas esperanças Mudanças são necessárias  agora agora  Ágora O horizonte linha treme no final  do céu

Diário, 8.07.2021

Dias frios paisagem aberta Gritos atravessam espaços de memória Resíduos de homens misturados nas calçadas O corpo de um pedinte a voz muito baixa não diz quase nada Invisível é a forma primeira do gesto descabido despertado no ato viscoso e torpe   na língua dos malandros de terno & gravata

Nota noturna

 Apoio ao senador Omar Aziz, claro!

Diário, 6.07.2021

 Cidades e praias As cidades carregam algo de nossos corpos. Compõem as geografias do nosso tempo. Costumo olhar os espaços ao redor com curiosidade. Os pés calçados dizem muito  das diferenças entre os homens. Pés sórdidos ou pés ousados também falam. Nas areias da praia os pés se parecem. Pés 'caranguejos' de casca grossa se protegem;  vida dura. Pés muito alvos nunca deixam seus sapatos. Gostam de andar bem vestidos.  Cidades e praias se entendem nas manhãs de verão. No inverno o vento carrega  o arrepio do corpo. Os pés pedem o calor das meias. Os murmúrios saem mais baixo dos lábios finos da manhã. Esta cidade ainda me pertence lá onde o sol  começa. No frio dessa cidade de poucos agasalhos somos a pele que respira pedinte e incrédula. Sou a sandália havaiana que me espera.

Notas leves, mas nem tanto

 Surpresas e suspiros Há dias em que nos alimentamos dos doces. Não só os quitutes. São as palavras doces e mansas que chegam de surpresa, aquelas vindas de bem longe e de forma nova e renovada, palavras com gosto e visual de coisa caseira, conhecida. Nestes dias somos pegos pelo pé. * A casa de janelas entreabertas respira o frio do inverno no Rio.  Um inverno que não dá conta das vacinas e se mistura com mentiras.  Para qualquer lado que se olha as histórias borbulham argumentos de horror e dor. Por enquanto, no Brasil não há vacinas para todos.     

Diário, 5.07.2021

 Ao acordar Não posso esquecer nada nem os sonhos nem os pesadelos nem as nostalgias dignas de momentos antigos E foi sempre assim As nostalgias trazem força de mar e de maré alta  com as redes gordas de tudo que o mar nos dá: sonhos signos peixes pérolas Os pesadelos jogamos fora rápido junto com as palavras pesadas  aquelas riscadas do léxico que na infância aprendemos na rua - Na luz de mais um dia: tudo principia

Diário, 4.07.2021

Apenas um rumor    O mar dentro de mim e ondas calmas atravessam longe-perto  com ruídos que se instalam nas ruas avenidas de cimento e pedras Um rumor de mundo ensimesmado apavorado denso  e um projeto voltado para o novo  um amanhã um devir

Repito texto publicado em 2010 e 2011, porque é pertinente hoje!

 Em TEMPOS DIFÍCEIS: sábado, 14 de maio de 2011 Tempos difíceis A “língua das bombas” Hölderlin afirmou o “reviramento” do tempo e, assim, também afirmou “o tempo como reviramento”. Encontro, nesta afirmativa, uma razão para escrever e pensar algumas questões de nossa época. Revirar é virar outra vez ou várias vezes. Remexer, revolver. Alterar, mudar o caminho estabelecido. E o “reviramento” comporta um movimento de mudança. Mudança profunda de uma situação ou de um estado de coisas. De início, podemos constatar que a série de Catástrofes com as quais nos deparamos todos os dias parece se montar como uma estrutura. Diremos ainda que na estrutura de Catástrofe nenhum luto é possível. Se eu for admitir que seja preciso traduzir e ler a catástrofe e não apenas mostrá-la em noticiários televisivos ou em linhas jornalísticas, rapidamente escritas ou filmadas, diria, também, que é preciso buscar dizer este impossível a dizer. E não deixar calá-lo. Retomar a psicanálise com Freud para pen...

Diário, 3.07.2021

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 Estremoz  Na primavera de 2017 estávamos em Portugal. Chegamos na curiosa cidade de Estremoz buscando conhecer um pouco mais a história da Rainha Santa Isabel. Andamos e subimos e descemos ladeiras. Visitamos o ateliê de um artesão que trabalhava o barro, fazendo seu trabalho na casa onde morava. Ali, naquela sala dupla adquirimos uma delicada e charmosa imagem da Rainha, tão querida dos portugueses. Uma história se descortinou aos poucos. Ainda, hoje, desvendo detalhes da impressionante vida desta mulher. Amanhã, haverá comemoração em Coimbra. Há 685 anos morreu a Rainha Isabel.                                                          Fotos feitas por mim. Estremoz, 2017

Diário, 2.07.2021

 Uma tarde sóbria Pensei estar vendo os dias com lucidez pensei poder separar as injustiças as angústias  as trevas. Em terras de agora pensei dizer  o verbo de raiz e sombras. As roupas repousam quietas no varal. A história sem intervalo e mascarada usada nos gestos de homens sádicos quer de volta a alegria da dança e do beijo.  Pensei poder ver e rever os olhos  da menina de antes da moça de ontem e do sossego dos outros dias. O verbo usado no passado  leva os sonhos no vento frio da tarde sóbria sábia mansa.

Diário, 1 de julho de 2021

Alguns poetas movem a minha escrita de forma mágica. Li a pouco em Sophia de Mello Breyner Andresen: "Quando eu era muito nova, ainda estava no Colégio, escrevi em latim,  no meu caderno de latim: (...) É-me necessário fazer versos, é-me vedado saber porquê."* Da mesma forma, e em sintonia com a expressão tão contundente da poeta vivo até mesmo estes dias estranhos e pouco naturais. É preciso escrever: os espantos as maravilhas os horrores e o medo.  * "Nasci no Porto". Espólio Sophia de Mello Breyner Andresen, apud Carlos Mendes de  Souza, "Toda a vida vivida" in Sena & Sophia: centenários,  Bazar do tempo. 2020, p.262.