Postagens

Mostrando postagens de maio, 2022

Hoje

 Caros amigos e leitores amigos, A escrita, por aqui, entra em outro ritmo. Um ritmo mais alargado em uma frequência que não será mais diária.  Vou me deter especialmente nos livros que estão em andamento. Os livros que me chamam e pedem dedicação.  Vocês poderão ler e comentar, se desejarem, os textos e poemas escritos durante a pandemia. Estes que agora estão e estarão, também, publicados dos livros Diário de um tempo indeterminado e Caligrafias. Ou traduzidos na Revue des Ressources por Márcia Rambourg.  Agradeço imensamente a presença de todos durante estes anos, desde que comecei a escrever, aqui, neste blog. E nos veremos em breve, certamente. Rio de Janeiro, outono de 2022

Rio de Janeiro, 24.05.2022

 Estranhamento E corre o Rio neste maio maior meio sem jeito e com ousadias Corre escorre sufoca Morremos poucos ou muitos e todos os dias morremos um pouco E a cidade infernal invernal  não se pergunta sequer se pode ser  descrita de forma mais humana Por aqui corre um Rio indiferente  * Lamentos. Delírios  Entre nós corre de tudo E longe daqui onde cortavam trigos bombas explodem * Há um rumor  de fim de tudo * Há homens estranhos que regressam entre os rostos de cidades destruídas  * E bombas explodem  na desordem longínqua  Na desordem da terra *

Segunda-feira, 23.05.2022

 Recomeço: Leio, anoto. Dialogo. O frio na cidade rodeada de mar traz a bruma das manhãs geladas de vento. Meu livro Caligrafias está a caminho. * Nem antes nem depois  No intervalo do mar onde a maré aguarda e guarda  restos de tudo e cada vez é mais uma a onda sai de seu eixo e se desloca lenta a murmurar baixinho: junto à boca do mundo com os lábios úmidos  a areia contorna pernas e pés  * Pedaços de papel  Palavras molhadas de sal Na boca do mar o silêncio indiferente Flutua

Rio de Janeiro, 22.05.2022

 Cabeças, mãos e pensamentos A cabeça, os olhos e o pensar saboreiam o enorme livro do mundo.  E tudo corre por janelas abertas circulando entre pés nus  mãos e memórias que permeiam cada gota de suor de nosso corpo. * Nos suspiros do amor ou no fôlego desmedido do sofrer; o corpo desvenda mais um pouco. A alma sempre mais contemplativa aguardando respira com os braços alongados. * Diário  De um jeito ou de outro, devo reconhecer, neste diário, que os dias pré-eleições presidenciais trazem emoções diversas. É quente o clima, inclusive entre não candidatos. A conversa entre um inteligente humorista e um presidenciável deixou muito visível o que já sabíamos:  O 'calcanhar de Aquiles' de um candidato surge quando menos se espera. 

Diário, 20 de maio de 2022

 Hoje é o dia mundial das abelhas! Zum-zum-zum... *  Zumbidos  Abelhinhas e rainhas Um oceano de mel Todos os dias em asas Perfumes e flores. Presenças aladas  E florestas ramos e raminhos Abelhas douradas ou negras Abelhas resistentes  Zumbidos no ar consistente Dentro de casas arrumadas Em camadas meladas Ah, abelha rainha Faz zumzum Faz zumzum E faz mel         Para Caetano Veloso,  e Waly Salomão, claro

Diário, 19.05.2022

 Faz frio. Os homens se encolhem com as mãos no bolso ao caminhar. Até os ruídos se reduzem. Não escuto os latidos dos cães dos vizinhos. Recebi mais uma prova de meu livro Caligrafias, ainda com algumas correções a fazer. Poucas. Na memória, o caderno de caligrafia da infância com as letras desenhadas a lápis no capricho.  Faz frio. As meias têm seu lugar. E saem,  rapidamente, das gavetas. Pés aquecidos guardam o calor corpóreo.  Nas calçadas os moradores de rua gemem de frio. Ontem, vi um homem alto e magro arrastando seu colchão no final do Leblon. Um outro, já conhecido, olhava os buracos no chão como se examinasse os espaços por onde circula. Na beira da estrada todos os homens se parecem. Mas, não, não são iguais.

Rio de Janeiro, 18.05.2022

 Murmúrios  Um tempo estranho de terrível sordidez A cidade coberta de frio e desalento Murmúrios e lamentos O mal se estende pelo país  * A escrita recomeça  Frente à nossa gente Mentiras descabeladas  E cai a lua no horizonte perdido * Eu canto e procuro um recomeço  Na noite de luar procuro o meu país

Rio de Janeiro, 16.05.2022

 Nota: Faço revisões de meu próximo livro, Caligrafias. Revisões demoradas e  trabalhosas. E me alegro com isto. Aprovamos a capa e a foto de orelha. Uma foto atual feita no Jardim Botânico de nossa cidade.

Rio de Janeiro, 15.05.2022

 As heras de outono A rara beleza do real Bem junto ao chão  Onde a terra se envolve com as heras Os ramos verdes descobrem-se de repente: Tecidos de folhas e bobinas            Para Sophia de Mello Breyner 

Pergunta do dia

 "Todo exercício intelectual habilmente conduzido não será, à sua maneira, uma obra de arte?"                        Marc Bloch

Diário, 14.05.2022

 O mundo em desarmonia! São tempos densos embora flores florestas e cores ainda existam em pé.  São tristes dias de clarões  entre bombas mortíferas que tudo destroem. E espaços aéreos marcados por impossíveis sinalizações.  São troncos queimados.   Abandono e fumaças.  Crianças indígenas  carregam a herança de tudo transmitir: língua e  hábitos. Artesanatos dança e cantos da floresta. Em desarmonia o mundo conturbado.  (Nunca aprendemos).

Rio de Janeiro, 13.05.2022

 Diário, Tenho pressa e não me importo com as críticas.  Depois dos setenta anos e alguns sustos, a vida se torna mais densa. * Os movimentos dos braços  Na água os dedos correm em linhas leves Um movimento puro mel Desliza leveza Na areia o gosto do sal permanece Raios brancos secam Na luz de força e graça  São límpidos os gestos  Traçam os braços  Abraços e beijos

Rio de Janeiro, 11.05.2022

 Diário,   Hoje vou cozinhar um pouco. Ontem, depois do trabalho da escuta, li VW.  Virginia em seus longos passeios e repentinas observações literárias.  Havíamos caminhado pelas alamedas do Jardim Botânico, logo cedo. As flores brotaram agudas nas fotografias. Muitas borboletas saltitaram ao redor. Na cozinha os labirintos são outros. Assim como as cores e os cortes. Gosto de tomar chá enquanto cozinho. Pequenos goles. Distraída. 

Rio de Janeiro, 9.05.2022

Nas veredas samambaias De um tom distinto de muitos  verdes folhas repolhudas  samambaias se distinguem.  Quase sempre presas em beiradas de troncos ásperos  ou na terra escura crescem   e abrem cabelos floresta. Ao olhar que olha dentro abrem  espaço na natureza  enigmática.  Passantes observam tudo  verde escuro com impacto. O vento sopra. E a chuva em repouso  se arredonda solitária e pinga mais delicada. Até chegar perto do chão  em passos lentos tardios. Verdes samambaias suplicam por instantes de paciência. 

Rio de Janeiro, 8.05.2022

 Nossa casa Flores nos vasos espalhados Perto da janela coloco flores  em vasos de vidro alados A luz solar se expande pela cortina Você e eu ouvimos música  Graham Nash está na vitrola "Our house" além da física  Ainda acreditamos  Podemos mudar o mundo? "We can chance the world" "Rearrange the world" Amanhece "Yes, we can" "Yes, we can"

Rio, 7.05.2022

 "O Brasil quer ser feliz de novo!" *** "GOVERNAR DEVE SER UM ATO DE AMOR"                                                     LULA

Diário,

 Volto à cozinha com alegria E as lembranças da infância  aprendendo a fazer suspiros  Aí... Suspiro  Ai ai ai!

Diário, 6.05.2022

 A xícara e o barco Na maré de maio  a estrela branca beija a areia A palavra anda e resiste Esquinas cheias de cegueira E o barco no mar alto plana com a vela grande atraente Enquanto as letras flutuando  no calor da xícara ardente beijam muito mais que o dia O rosto e a beleza da boca púrpura e oca sonham flores e florestas Nas páginas acesas sem destinatários  princípios humanitários 

Nota noturna

 Que agonia me dá ver alguns jornalistas, no plural, "alisando" Bolsonaro, depois de toda tragédia que vivemos no país desde que ele assumiu a presidência.  É mesmo muito triste ver isso!

Rio de Janeiro, 5.05.2022

 Poesia no mar  No meio das ondas O olhar molhado de sal O corpo leve flutua Embebido de amor Olhando areias e céu  Colunas de águas limpas Respiro e sopro lentamente Sempre respiro de olhos abertos Entre os dedos dos pés  Espumas sobem em desarmonia E me lanço no meio de um movimento Louco e manso ao mesmo tempo No meio das ondas do mar Nas espumas de Guarapari ou Ipanema  Recolhendo a beirada do biquini Que se enche de areia No meio das ondas do mar Respiro mansa e os braços  Lançando-se adiante sustentam O corpo que voa em poesia

De tudo muito

 Na ponta dos dedos Na ponta da língua  No bico do peito Ecos  sons e versos 

Rio de Janeiro, 4.05.2022

Chuva de um outono ímpar   Braços pássaros soltos Dedos delicados inertes A escrita andando em volta Voltas andorinhas * Corpo coberto de rios  inundado na tarde coberta de vento * Sombra e luz  no meio da chuva de outono Lua de um tempo sem sem luz alguma * E nas ruas caminhei ligeiro e tropecei nos pensamentos * Dando passos interrompidos pelas poças d'água  com os cabelos molhados * A água escorreu pela janela do carro descendo rapidamente entre meus versos

Diário, 3.05.2022

 Cá entre nós: Os russos enlouqueceram? Estão bombardeando Uma  certa usina em Mariupol. * Alguns dias azuis são difíceis nas páginas abertas dos dias a viver. * Com a guerra dando os tons  Inesperados  somos as paredes desmoronadas da vida impossível  Sem árvores sem mulheres nem crianças  Onde está o mar?

Cortes e suturas

 Na pele cortes bordados E joelhos modificados Seios delicadezas Cada pedaço do corpo  Sussurra:  Criação contínua  Um antes e um depois? Mulheres plenas Dançarinas  Em danças da vida Voltas e vias Nascendo desde o osso A pele respira Gestos de agora Pés no solo  Caminhando hoje ao sol Sobre páginas vazias Pálpebras bem abertas A sede sobe  ... Garganta rouca Passos e passos Entre costuras (A pele respira Em arabescos)

Rio de Janeiro, 2.04.2022

 Envelheço  O pensamento, pai de quase tudo Abre o dia delicado Enquanto braços mãos e dedos alvoroçados  Não se confundem Distraída  Comemoro atentos cuidados E passeios pela casa de paredes altas Não são estes dias muito suaves Mas os passos dados lentos Aprendendo e satisfeitos Saem em muitas direções  Diante de um mundo em movimento complicado Sou a mansidão que construí  Em cadernos nascidos de cada viagem Sofrimentos surpresas estranhas acontecem  Nas letras do mundo  Um bombardeio em Odessa  Ou náufragos de qualquer lugar  Sapatos mofados presos nos armários Vestidos soltos  E os dias quentes que morrem no pôr do sol

À tarde defendo:

 Al lavoro per la pace E chega de blá-blá-blá! * Liberdade com palavras e livros Sem armas  Sem tiros

Em outras décadas

 As saias de algodão coloridas Longas farfalhavam nas calçadas  Quentes verões e primaveras Pedaços de pernas  Enrolados em panos  Corpos de jovens mulheres Vestiam e despiam Nas areias de praias limpas lindas Pensamentos vagos rápidos  Bebiam água de coco Em outras décadas sonhávamos  * Os pés estendidos suplicavam às areias quentes em demasia uma corrida curta * Do outro lado o mar  espumando Ondas brilhantes * Pequenos traços riscos  l e t r a s

Hoje é 1.05.2022

 Números e letras Na lua nua nova  O céu acordou ardente No dia todo blue  Aberto e quente Meus pés descalços desenham Um chão de letras Primo maggio Trabalho trabalho Escrevo lento escrevo rápido  O vento leve sopra Um hálito de esperança  As mãos saboreiam José lê  Enquanto o sol no vidro da janela Respira o verde dos cuidados Minhas mãos restam por perto E fabrico sons  De olhos abertos