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Mostrando postagens de agosto, 2010

Fragmento do livro do poeta Fourcade traduzido

Dominique Fourcade no livro Citizen Do , edições P.O.L. (2008). Post-Scriptum * Citizen Do não é um livro, digo, mas a reunião de textos, e só percebi que podia haver aí uma razão para reuni-los depois de tê-los escrito. As circunstâncias da vida (ou seria isso os encontros próprios à escrita? um texto chamou por outro?) me fizeram escrever, sucessivamente, sobre um primogênito que me foi muito caro, um primogênito ‘mal morto’ se fosse disso (“a marcha dos mortos mal mortos”) – depois, muito rápido em direção a uma neta, nós a imaginamos, facilmente, adoravel e vulneravelmente viva. Ao final, eu inundava em uma luz mosqueada. Dappled ligth. E não me foi preciso muito tempo para compreender que Char poderia ser lido como uma narrativa para Saskia, enquanto que Chansons et systèmes pour Saskia eram para escutar como canções para René Char. Mas sabemos bem que esta razão é factícia, e mesmo ardilosa, pois não se escreve sobre ninguém, e para ninguém – somente para si. H...
Dominique Fourcade nasceu em Paris em 1938. É poeta e crítico de arte. Escreveu muitos livros de poesia. Com o primeiro deles, Épreuves du Pouvoir (1961), confirmou a certeza de querer viver da escrita, embora também gostasse muito de futebol e rugby. Mas com a publicação de Ciel pas d'angle (1983), considerado um trabalho importante, viu-se lançado no vazio, fora das formas conhecidas. Citizen Do (2008) é seu último livro publicado, e contém o prefácio para o catálogo da exposição do Centenário do poeta René Char, na Biblioteca nacional da França, e um conjunto de canções para Saskia, sua neta. Segundo o autor, algumas páginas do livro trazem o início de sua vida literária que convive com outros momentos de seu caminho.

O poeta Dominique Fourcade

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Carta sem endereço (material inédito)

Escrevo aos mortos da família? Um tio de olhos claros avesso a largar o cigarro. E foi tudo bem rápido no estilo das escapadas que ele costumava dar até a esquina para fumar escondido! Fumava muito. Um soldado foi morto no domingo ao usar um explosivo em um lugar onde muita gente passa todos os dias no sul daquela cidade. Onde mesmo? A minha avó cozinhava em panelas separadas para cada filho (em quatro fogões esquentava o amor). Com biscoitos de nata, de cerveja ou nas broas de milho (pequeninas) suspirava aos netos com os guardados no armário da sala cheios de açúcar-cristal. O jovem negro me olhou nos olhos enquanto passava ao lado do carro. A vida nem sempre é trágica. Mas parece que as pessoas, cada vez mais, gostam de usar armas. Nas linhas desta suposta carta na falta da infância sem lugar ainda tenho fome de escrever cartas. O correio continua chegando regularmente e diferente de outros tempos agora escorrega em baixo da porta da sala (o que nã...

Homenagem a meu avô, Augusto

Dois poemas de Augusto Estellita Lins PEQUENAS COISAS Pequenas coisas que tão pouco falam - um gesto, o calor duma perfídia, um tal perfume, aquele aí sufocado e no que alcança ver, muita estranheza. No vórtice do sonho, de repente um vir à tona, lúcido, retoma o fio da razão, logo mergulha de novo o outro em mim, eu no vapor. Falar de amor, só louco já varrido, pobre coitado no desvão da vida ou eu, manga bichada de quintal. Calçada, a rua do amor tem, sarjeta, redes de esgoto, encanamentos, postes: num deles, uma lâmpada queimada. NO BANCO DO JARDIM No banco do jardim público - existia um jardim. A velha tricotando. Lia o jornal o aposentado. O bebê vagia no carrinho azul. Onde um jardim havia Hoje é garagem, mil carros o ocupam. Tudo é poeira e óleo, nenhum bebê chupa o dedo. O aposentado, olha-se na lupa do tempo: no alazão, a noiva na garupa. Ainda há feiticeiras em cada roca fiando o fio da morte. Dá-me em troca de uma gota d'água, pedalar minha broca que corrói o fígado e u...