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Mostrando postagens de agosto, 2020

Diário

 Rio, 31.08.2020 Nota: quase primavera Não gosto de falar dos homens insanos que nos rodeiam na cidade e no país.  Não gosto de vê-los habitando nossas telas de tv. Não gosto das fabulações de políticas sujas. Mas estou atenta. E vejo. É preciso dizer estes dias tortos e confusos. É preciso nomear artimanhas promíscuas e mentirosas. É preciso desmontar cadeias de desvios e montanhas de dinheiros que se lavam em família e continuam sujos. Em plena pandemia de corona vírus muitos de nossos políticos trabalham a favor da morte  e da corrupção. Estamos de olhos abertos. E estamos vendo!  Nem a mais robusta invenção de maldade consegue nos confundir o dia e a vida. 

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 Rio, 31.08.2020 As manhãs e o vento  O canto do sabiá Nuvens escuras no ar da cidade A mão de fugitiva escrita flutua entre as linhas dobradas na face Os lábios quentes do café sem açúcar a bondade do olhar e as esquinas espionando os homens  nas interrogações que não se esgotam nunca * A página amanhece em branco Cavalo alado de letras  o verso corre em ritmo solto A boca em suave textura não escapa: arde na superfície deste início e se incendeia                                O calor da floresta lambe                                 árvores animais flores casebres                                Tudo vira carvão                                ...

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 Rio, 30.08.2020 Caminhando... Jardim Botânico do Rio em detalhe, foto de José Eduardo Barros

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 Rio, 30.08.2020 Manhã azul sem nuvem.  Temperatura alta. Poesia e fotografia. *  Algo precisa ser dito. Há muito a dizer. Não são só os subterfúgios e os enganos. Há promessas e palavras sem lucidez. O mar recolhe do vento sussurros de medo. Os lábios deixam passar o horror do momento enquanto os homens duelam por muito ou quase nada. * Habitar o planeta terra sem responsabilidade é viver à margem dos compromissos humanos. * A festa deve ser de luz e claridade! * Um olhar suave e a confirmação da vida sem mentiras. * Qualquer dia,  a qualquer hora partiremos...

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 Rio, 29.08.2020 O mar e as nuvens constroem histórias a contar depois. Ainda que as tragédias que se impõem diante de nós surjam  de muitos lugares, suplicamos mais respeito.  A cidade e as esquinas respiram com dificuldade.

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 Rio, 28.08.2020 Caros leitores, o mundo continua atravessado pelo vírus do covid-19. Agora, assistimos a corrida pela vacina tomar os espaços da mídia  televisiva. A pressa é inimiga da perfeição, já sabemos disto. Porém, hoje, ninguém quer aguardar as pesquisas que estão a caminho, e alguns anunciam os desdobramentos da ciência antes da ciência confirmar seus resultados. Assim, que o surrealismo está de novo em cena. Só que na vida e não na arte! Os presidentes de plantão quase não governam e só pensam nas próximas  eleições. A direção do nosso governo vai se fazendo de acordo com a música que  ensaia um populismo em ação. Poema do dia   A casa de paredes brancas assume um corredor verde. Iluminado por molduras e imagens coloridas que vieram de longe, os quadros contam histórias de outros lugares do mundo.   *   Na sombra do anoitecer Um hálito corrige o final do dia Com o canto de um sabiá: o que reza muito (na língua tupi) ...

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 Rio, 27.08.2020 1.. Ás vezes no meio da manhã uma fruta descascada ao acaso abre o perfume enigmático do dia, que socorre a lembrança  que recebe o sorriso  e ajuda a sustentar um instante antes sem imagem alguma: tão longe, agora, revigorado. 2. O diário vai e volta na angústia destes dias sem descanso. Tão distante estamos de um mundo mais sadio!

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 Rio, 26.08.2020 Corpos Serenamente construídos  os corpos permanecem na vida  perdendo a luta contra o tempo Quem rasga o vidro dos espelhos não se encontrará mais no amanhã Nesta tarde fria  as linhas de teu rosto dobradas abrem espaços novos junto ao vento 

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 Rio, 25.08.2020 O dia amanheceu silêncio. Tarefas domésticas não desviam as leituras.  Trabalho e "escuta". Escrita. * Um abandono às margens do sol   O invisível na brancura do ar quase assombro avança sobre a água e as pedras sobre a imagem do Cristo Redentor Fresco é o espaço do inverno em percurso insólito no fundo da praia lisa de intermitente areia Feroz e salgado o mar entre espumas brancas espumas no chão respira seus limites abrindo os braços   

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 Rio, 24.08.2020 Um poema de Brecht: Lendo Horácio Mesmo o dilúvio Não durou eternamente. Veio o momento em que As águas negras baixaram. Sim, mas quão poucos Sobreviveram! (Bertold Brecht  Poemas 1913-1956 , editora 34. Seleção e tradução de Paulo César de Souza p.335) * Lendo Brecht O frio intenso do dia Não apaga o temor de momentos  Ainda a vir.  Sem respostas possíveis A mentira se enraizou no país. Sobreviveremos a tanto horror?

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 Rio, 23.08.2020 Inverno: 1. Uma manhã de domingo com sol depois de dias frios demais na cidade. Chuvas e temperaturas baixas em vários lugares do Brasil. Alguns desabrigados morrem nas calçadas de S.Paulo:  uma cidade rica, cheia de empresários e que não consegue ter um programa que dê conta dos  que vivem nas ruas.  Acontece que a vida corre e o mundo se mostra em sua insensatez, cheio de dificuldades.  Muitos homens não querem ver nas dobras de nossa sociedade aqueles que sofrem porque estão às margens do capitalismo. Respiram miséria e fome!   * Memórias infantis: No entorno do rio a água é quase morna no verão. De cor amarelada parece filtrar o sol.  Quando ele se põe devagar e sempre - avermelhando os arvoredos  no alto do céu -  o véu da noite começa a baixar.  Um calafrio vivo arde na pele... * Anoto: "(...) a verdadeira medida da vida é a lembrança. Olhando para trás, ela atravessa  a vida como um raio." Walter Benjamin...

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 Rio, 22.08.2020 Caro leitor, devo dizer que tomados por uma pressa sem sentido, que nos é imposta por um mundo excessivamente capitalista, vivemos dias de decadência cultural! * Nascer e morrer No círculo da água ao pó o olhar renasce a cada dia. O corpo elástico salta em torno dos espaços que se movem. Solto e desamparado os olhos míopes miram o longe e o perto. Sempre as mãos sonham com a boca respirando nuvens. A sede é quente e árida clama o ar e sopra a vida. Nascer é água e terra vento e silêncio. Nascer é antes de morrer.

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 Rio, 21.08.2020 Escrevo na manhã desta sexta-feira:  1. Cinco meses nos separam do início da pandemia no Brasil. Já aprendemos muito, no entanto ainda persistimos em alguns comportamentos bizarros enquanto moradores da cidade  do Rio  de Janeiro, e habitantes do planeta Terra. Buscamos tomar os espaços de volta rapidamente  como se eles apenas nos pertencessem, e buscamos ainda deixar de lado a sobriedade que,  agora, precisaremos ter para seguir nossa caminhada no mundo.  Estes dias de quarentena, tão delicados quanto difíceis de imaginar há cinco meses atrás, são  reveladores de realidades que já nos rodeavam há algum tempo. O que antes era visto em  pedaços se tornou um cenário de paisagem aberta em várias partes da cidade, e no contexto  atual nos reserva novas realidades inclusive no mundo.  No período da breve vida de cada um de nós - se pensarmos no continuum do tempo - somos  responsáveis por nossos passos, e, se conse...

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 Rio, 21.08.2020 Troncos de árvores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Fotos de José Eduardo Barros

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 Rio, 20.08.2020 Poesia na floresta A folha verde conserva o sonho de uma árvore Desdobra-se em pequenas gotas a seiva que escorre lenta Para o rio correm ruídos de araras azuis A paisagem é lavada nas águas da chuva Abençoada pelas mãos das índias Rasgada na luz do sol com encantamento No sussurro da primavera renova-se Ante cipós e galhos longos soltos Caídos no esquecimento do rio São dias difíceis os dias de fogo em labaredas tontas tortas A floresta queima indefesa sua flora A vida que os deuses nos deram desaparece Um rito em canto fúnebre se mistura Na vida da floresta  Onde o que era louvado no espaço De praias de águas doces ribeirinhas Vai devastado pelo fogo Morrer de repente em mãos assassinas  

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  Rio de Janeiro, 19.08.2020   Aqui, nesta cidade estranha e exuberante acontece muito de tudo. Acordamos com as manobras de um governo federal desgovernado e ousado. Rodeados de verde e asfalto, vivemos estes dias absurdos engolindo a pandemia entre algumas decisões judiciais e lives musicais que nos salvam do horror. Não conseguimos dar conta de tantas loucuras acontecendo no país, nem deixamos de chorar os que ainda  partem de repente. Somos consumidos pelo fogo que destrói nossas matas virgens e nossos animais selvagens tanto no Pantanal quanto no Amazonas! A alegria e o samba precisarão aguardar... Teremos que reaprender a sorrir, depois. Enquanto respiramos neste jogo feroz de tanto "poder", a nossa luta é travada mesmo para  fazer valer a verdade dos fatos! * Escrevo no anoitecer: Agradeço a Fernando Gabeira pela lucidez e seriedade de seus comentários no jornal da GloboNews. Faz tempo que quero dizer isto em voz alta. Muito obrigada!

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 Rio, 18.08.2020 Em casa (monólogo) A mesa e a cozinha guardam espaços - quase sagrados - habitados de conversas e alimentos.  Não estamos mais vivendo em tempos antigos, quando quase tudo se dava ao redor destes  lugares. E as conversas aconteciam naturalmente. Moramos, agora, em casas com mais abertura ao olhar que se estende por janelas espalhadas,  inclusive, nas telas planas de tvs, computadores e celulares. Porém, ficamos habitados de  gestos e palavras por vezes violentos demais. As palavras amorosas costumam faltar. Sem  medidas voltadas para os cuidados básicos, sem os critérios humanos necessários criamos  uma grande parte de nossas crianças à margem, e assistimos muitos de nossos adolescentes  crescerem meio desgovernados.   Não só aqui, mas ao redor do mundo estes futuros adultos, de uma maneira geral, absorvem  um "tamanho" fora da ética humana, onde passam a se autorizar qualquer coisa e saboreiam  de tudo no grup...

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 Rio, 17.08.2020 Leitor, entre Lives de: filósofos, políticos, músicos, humoristas, lançamentos de livros e psicanalistas sobrevivemos! Livros, muitos livros sempre! * Ponto de exclamação Um ponto no verso depois de um traço e novas perguntas indagam os dias seguintes e - depois. A vírgula não comparece dissolve-se na página aberta. Faz calor na cidade maravilhosa enquanto aguardamos o muro da dúvida se dissolver. Ponto de interrogação sob as negativas que se montam? Nua a exclamação não dá margem à dúvida: fiquem em casa!

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 Rio, 16.08.2020 Caro leitor, é lamentável que continuemos assistindo a destruição do Pantanal do Mato  Grosso. A extensão de terra já alcançada pelo fogo corresponde a 10 vezes o  Estado de S.Paulo. Por que não conseguimos cuidar melhor do que é nosso? * No Pantanal A noite é escura e rouca na janela  Deixa ver o pranto que a sombra queima Pálpebras piscam na rapidez do vento e o calor vermelho abre brilhos  Não mergulho minha mão neste chão ao contrário, caminho fora deste jogo A água foi pra longe ou virou pó e os animais não têm mais para onde correr A pressa não tem pernas nem o pranto abre novas estradas Triste é o dia seguinte entre cinzas e ossadas de animais As árvores e os arbustos queimam fora da lucidez dos homens

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 Rio, 16.08.2020 Notas matutinas Relembro que, durante a segunda metade da década de noventa e a primeira década do século  seguinte, os passeios do casal se compunham de caminhadas - três vezes por semana - dentro  do Jardim Botânico de nossa cidade. Alguns de meus poemas nasciam ali, enquanto José  fotografava as árvores e as texturas dos troncos, as flores raras e os pássaros inesperados.  Passamos a compor nossos passeios com poetas, familiares e amigos (estrangeiros ou não)  sempre naquelas alamedas impressionantemente altas ou perfumadas. As capas dos livros  Canto de sombras  (7Letras, 1996) e Outonos (7Letras, 2014) foram feitas de imagens  clicadas ali. Assim como recolhi no chão deste Jardim os restos e a folha que estão na capa  de meu livro Vestes e vestígios  - o pequenino, feito a mão, costurado com agulha grossa  (edições Sol, 2002).                       ...

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  A foto acima foi enviada ao poeta americano Charles Bernstein com quem passeei no Jardim Botânico do Rio, em 2006.

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 Rio, 15.08.2020 Devo dizer que o século XXI está começando. Respiro um pouco diferente.  Uma suavidade rara se coloca. As paredes escutam.  Neste lugar de silêncio e pedra na lisa metáfora do agora não há abrigos. A boca do mundo sopra onde tudo  é fogo ou mentira. O corpo e a língua árvores de grossos galhos no hálito das manhãs se lubrificam. Sou eu mesma diante de ti e o mar enorme que nos cobre. Em dias de tantos sofrimentos as miragens nos confortam. * 

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 Rio, 14.08.2020 Nos ombros das montanhas o verde deixa ver - entre pedras e riachos - alguns sulcos abertos por mãos humanas. Um tronco em movimento sai da sombra (respiração baixa). O pulso trabalha rápido e os olhos acompanham tudo. As folhagens tombam com a música das máquinas em trabalho pesado.   Ninguém pergunta nada. Neste círculo de fogo e horror as pernas autorizam os músculos do corpo a se mover sem pensar:  árvores tombam!   * Nota: O final da tarde cai devagar. Consigo perceber que é sexta-feira. As horas do dia passaram ligeiro. Trabalhei com a "escuta".  Cozinhei um pouco. Arrumei os pensamentos diante deste mundo  desorganizado em demasia. Aqui ou acolá, a Extrema-direita ameaça. Molhei as plantas. Hoje, faz calor de primavera! 

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 Rio, 13.08.2020 Água de rio água de chuva água de cachoeira água do mar Água de fonte água de córrego água de lago  água de lagoa Nascente de água olho d'água água de gruta água-viva Águas puras, águas de Greta!

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Ainda em 12.08.2020 Recanto abrigado   Um canto desenha molduras e credos:  limpo é o viver honesto. Agora carregamos bússolas e máscaras entre os dedos e no momento da navegação abrimos velas ao vento. O espaço atlântico é infinito dentro.  E temos os nomes cravados nos rostos e nos pés. Neste país incerto escolhi a paz. Diante de varandas desavergonhadas o brilho do ouro não se acanha. Na fuga dos caminhos o olhar  de homens insanos sobressai. A cidade cai e se levanta.

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 Rio, 12.08.2020 A pandemia do covid-19 no mundo nos leva para uma corrida temporal-espacial da vacina. Quem a alcançará primeiro, pois "os russos estão chegando"! A loucura dos homens se mistura com a pressa, e a angústia se deixa ver  vestida ou mascarada em várias línguas. * Nos jardins espalhados pela casa begônias ousadas chegam A mão esquerda tem outro calor e conversa com flores Trêmulas cores correm A pele é quase púrpura A letra anda devagar  Ergue-se o dia novamente no vazio contra a onda de fascínio estéril e duro nesse tumulto onde a corda é tensa.

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 Rio, 11.08.2020 Acaso o dia as horas ou um "quando" deixarão passar para o esquecimento este mundo agora tão estranho?   Morrem nas tardes os jovens do país Idosos-e-crianças "voam" nas manhãs Caminham onde o tempo deixa de ser   E o que diremos depois quando tudo respirar fora das lembranças nas miragens entre as flores e as cruzes?   Enquanto os homens não tecem as verdades e galopam nos segundos dos dias plantamos absurdos com as mãos   e nos afastamos mais de nós mesmos. E temo que os monstros nos devorem!  

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 Rio, 11.08.2020 Amanhece Um pássaro na solidão da manhã: - bem-te-vi! No gosto obscuro encontro razões de viver   Aviões circulam ruídos em janelas semiabertas  Procuro os dias que possam dizer algo mais Os espaços claros da casa se escrevem  com a árvore lá de fora onde o vento varre  palavras e letras Dizem a imagem que acorda em mim e mais nada * Notas soltas Escrevo quase sempre pela manhã. Escrevo... Hoje, acomodo cartões com pinturas de Van Gogh que comprei em Vicenza em caixas com  livros que partirão pelo correio, em breve. Modifico alguns quadros de lugar nas paredes que  "respiram" novas paisagens. Respiro... Não são só as crianças que brincam no play. Meus dedos ágeis - aqui dentro de casa - montam  cenas em novas colagens. Com rimas ou não, a gramática também se exercita em conversas  ou com versos. Hoje já é dia onze de agosto, e o segundo semestre se estabelece  estranhamente.  * Canção de dormir Nas alturas ou n...

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 Agradecimento ao blog Entre Livres & Histoires https://entrelivresethistoires.blogspot.com/2020/08/diario-solange-rebuzzi.html que publicou um Dossiê com alguns de meus poemas  do Diário que, todos os dias desta pandemia, escrevo aqui.

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 Rio, 10.08.2020 Neste silêncio de diálogos interrompidos, o sabor dos dias se mostra sem subterfúgios. Eis que o momento é grande e inesquecível entre os perigos e as mortes que se contam  sem abrigo. Mar distante demais fora do exílio desta casa, nas areias sem silêncio. Sem sono respira longe a lucidez do mundo. *

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 Rio, 9.08.2020 Há um perfume de infância espalhado  na memória e nos gestos de despedidas!

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 Rio, 8. 08. 2020 Nota triste Tomei conhecimento ontem, no final do dia, que faleceu o poeta uruguaio Victor Sosa. Tão querido entre os poetas paulistas partiu inesperadamente, mas nos deixa um trabalho enorme e importante. Vivia no México onde era professor na Universidade Iberoamericana.  * E já faleceram quase cem mil pessoas de COVID 19 no Brasil! Enquanto isso, alguns brasileiros não conseguem acreditar na ciência! São tempos duros demais, mas a poesia sopra E soprará sempre nos recantos e nas brechas dos caminhos! * A musa esta dama tão distinta quanto voraz Num momento de silêncio e lágrimas Nos espaços naufragados de dor Saboreia o som da harpa sobre os mares E enquanto os ventos levam os versos breves Deste canto de despedida Um olhar se alonga Descalço e vestido de vazio

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 Rio, 7.08.2020 Poema de antes   Quando tudo e muito se misturavam no horizonte os ventos verdes não sopravam à toa Meus cabelos seguravam o chapéu e as mãos em arco suspiravam palavras roucas Nas folhas dos coqueiros melodias entre nós escorriam goles de água de coco Quando tudo parecia ser tão pouco! * Nota de parabéns Salve Caetano Veloso! Vida longa! Que beleza de show, em família, você está nos ofertando hoje.

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Rio, 6.08.2020   Morrem índios, mulheres e crianças no Xingu A brisa que lhes afaga a face não é mais igual Algumas mãos contendo sementes não estão mais presentes  e se dispersam na manhã os grãos que já foram jogados Mas os índios ainda lançam promessas entre nós   nestes perdidos dias que não são os mesmos  A luz da floresta ilumina sempre de cima para baixo - entre raios de esperança e sorrisos vagos - no pranto que, por enquanto, não se apaga na tribo  *   Nota matutina: No café da manhã, fizemos algumas tapiocas com banana. Lembro que aprendi a fazê-las ao redor de meus dez anos, quando ainda morava em Manaus. Naqueles dias quentes e sem temores alheios. A única preocupação era estudar História e tabuada de multiplicar! Caminhávamos para a Escola procurando as sombras das mangueiras e dos flamboyants, minha irmã e eu, buscando escapar do calor do sol. E ríamos das colegas que andavam com coloridas sombrinhas...

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Rio, 5.08.2020 A manhã nasce fria falamos baixo nos reconhecemos no brilho azul  Não ocuparemos o tempo com bobagens e cada dia está tecido em solidão Uma lâmpada apagada um beijo lançado no ar as mãos vestidas em conversas sérias Nos reconheceremos, sim, quando tudo isso terminar depois de cada passo dado agora e ainda nos próximos Nesta sala de jantar sem os amigos de sempre aonde a vida era outra vida intimamente Com as paredes nos cobrindo de branco e os risos soltos quando tudo era parte de mim e você partia e voltava sempre às vezes, me trazendo flores nos braços A vida era outra nas manhãs de verão febris e nos outonos mornos Sobre nós o céu e as nuvens consoantes abrigos mesmo sob a chuva forte Quando tudo era e não mais é  pois nem mesmo será                                                                 ...

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Rio, 4.08.2020 A casa é um poema  então caminhe devagar.  Olhe em volta,  abra os braços   e receba as palavras ao sol.  Leia letras soletrando alto  um verso de cada vez. No solo úmido da manhã o vaso da janela recebe luz. Ruídos altos atravessam paredes. Agora mesmo sei que não escrevo em vão... O pensamento na ausência chama teu nome, leitor amado. Longe, estas linhas sem rasuras sublinham a necessária harmonia. O banal é frio e angustia. No peso do dia os pés fixados ao chão com paciência forram a terra nua.  

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Ainda somo anotações ao livro Longos Dias têm Cem Anos  de Agustina nesta tarde invernal do Leblon: Agustina Bessa-Luís descreve atentamente as cores usadas por Vieira da Silva nesta noite quando se conheceram, imaginando-a em Florença: um vestido azul de verão e a fita verde nos cabelos. De fato, no momento da escrita não era verão, pois o mês de abril se abre com dias primaveris e, algumas vezes, até mesmo dias frios. Alors , nas cores desta escrita a cena foi alegremente pensada com a "fase azul' de Picasso e as pinturas azuis de Maria Helena. Relembro 2011, quando estivemos em Lisboa durante apenas 3 dias. Fomos ver uma exposição de Vieira da Silva com obras espalhadas pelas salas iluminadas da Fundação Centro Cultural de Belém. Abrimos nosso olhar de maneira nova e assistimos ainda imagens em pb, que estavam sendo rodadas mostrando a vida desta mulher em sua casa, em uma sala cercada por uma grande parede de pedra. Jamais esqueci. Não tenho certeza se estavam no bairro da...

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Rio, 3.08.2020 Já choramos tanto quanto agora? Possivelmente, sim. Choramos nas despedidas de nossos familiares, de amigos e de amores perdidos. Choramos um desencanto maior e até em momentos de algum desespero. Mas, nunca choramos tanto juntos enquanto o país se arrasta para o fundo. A impotência incomoda ao mesmo tempo e não me importo em dizer: mudam os paradigmas da história.  Mudam os dias de nossas vidas, agora, não mais somados em sorrisos Florestas queimam e homens mentem e matam! * Lamentos Asas abertas e sonhos (entre)abertos frutos da terra e do ventre: o vinho, o trigo e os filhos As lágrimas dos homens murmuram adjetivos * Anotações variadas: Fiz feijão manteiga, mais uma vez. Varri a casa. Depois, a roupa de cama foi para a máquina  de lavar sem dificuldade. Escutei os sons dos vizinhos que estão, de novo, mais barulhentos. Alguns livros ganham espaços mais perto de mim, aqueles que começo a ler imediatamente.  Leio os portugueses com imensa alegria! Agustin...

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Ainda em 2.08.2020 escrevo esta Nota delicada, a partir da leitura do livro que lemos on line nesta tarde de pandemia: Desfrutamos do relato de um primeiro encontro em Lisboa entre a escritora Agustina Bessa-Luís (em 2 de abril de 1962) e a pintora Maria Helena Vieira da Silva. Era uma noite comemorativa e estavam todos na casa da poeta Sophia de Mello Breyner, bem perto do Castelo S. Jorge. O fato em si já bastante instigante traz para a cena estas três mulheres que marcaram tanto o nosso tempo com obras inesquecíveis assim como traduz um pensamento humanista revigorante. Quero comentar que o livro Longos Dias têm Cem Anos  - Presença de Vieira da Silva  escrito por Agustina começa com uma descrição deste encontro artístico-literário. No entanto, a escritora nos revela detalhes de seu próprio pensar diante desta primeira visão encantadora.  A entrada do casal é escrita como uma cena de teatro em suspense comovente. Vieira da Silva chegou com o marido Arpad Szenes, falant...

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Rio, 2.08.2020 Escrevo com os olhos e a boca fixados no horizonte desta manhã blu de luz Encontro relatos de mentiras de muitos  e a verdade sem rosto fincada em alguns Amanhece... A memória não acalma habita a solidão dos dias - sem ponto nem vírgula - (plena de interrogação)! * Oração Dai-me o azul e o verde sem idade Das plantas e das estações febris dai-me a raiz dos dias Com os cabelos ao vento e a chuva molhando a terra fresca dai-nos as sementes da esperança * Nota jornalística e literária: Faleceu de pneumonia aos 97 anos, no dia 31 de julho em Paris, Gilles Lapouge, jornalista, romancista e correspondente do jornal "O Estado de São Paulo" desde 1951, quando aqui chegou um pouco depois da Segunda Guerra. Escreveu muitos livros, entre eles: "Dicionário dos apaixonados pelo Brasil" (2011).   Recolho os dados de um e-mail recebido de uma amiga francesa, com as palavras do escritor-viajante em uma entrevista que o nomeia, também, "um flâneur da outra marg...

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Rio, 1.08.2020 Baile de baleias Baleias dançam nos mares do mundo Oceanos vazios do Brasil, Canadá e Austrália acolhem o baile das baleias em acasalamento Cantam alto as baleias do mundo! Sobem e descem. O corpo solto no ar Respiram borbulhas abundantes em rabanadas de alegria O mar e o rio participam surpreendidos da festa Vivas vias de mamíferos nos dão a ver inclusive os homens, esses seres monstruosos que tanto destroem  A natureza canta em tantas vozes com as portas abertas dos oceanos limpos sem transatlânticos, sem barcos de caça às baleias! * Silêncio-espada agudo de luz Gestos, ângulos, sombras geometrias espaciais Espécies em extinção  na desordem do tempo sem direção * Nota do final do dia O número de mortes no Brasil foi enorme no mês de julho. Enorme em S.Paulo. E no Rio de Janeiro, que se mostra um pouco mais estável, o prefeito é cego ou surdo para o que não lhe interessa. Ou melhor, abre as praias para o banho mar mas não enxerga o número de banhistas nas areia...