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Mostrando postagens com o rótulo 4 de dezembro de 2011.

50 anos depois

Cabelos rabiscados de névoas. Areias da manhã: revejo os pássaros da infância, costumava guardá-los no grande viveiro de arame. Domingo, com as mãos ligeiras, ajudava meu pai a recolher p i p i r a s. Elas beliscavam o mamão doce. Eram dias incomparáveis de calor amazonense. Os cabelos - amarrados em um rabo de cavalo - deixavam ao sol a tarefa do brilho. O verde da grama formigava meus pés. Café da manhã prolongado com suco de cupuaçu ou de maracujá. Realidade feita de gestos. Bico vermelho, penas negras. Pequeninas. Sorriam ao tocar as duas faces do mamão aberto. Recolhíamos os sons e as cores, guardávamos em silêncio os pássaros - eu e meu pai - para soltá-los logo depois. Cabelos rabiscados de névoas. Entre meu pai e eu, dois gestos.