Postagens

Mostrando postagens de maio, 2020

Diário

Rio, 31.05.2020 Manhã de domingo, silenciosa. Nos EUA a vida escancarou o problema de sempre; a questão gravíssima e urgente desde antes de Martin Luther King, que gritou aos quatro cantos do mundo o problema racial.  Estamos no século XXI e ainda somos levados a ver um assassinato a sangue frio, de forma  medieval, com olhos midiáticos.  Lá como aqui, o povo está sendo obrigado a viver a pandemia do coronavírus junto  com o pandemônio de um governo sem classificação. Quando o presidente de um país apoia o  uso de armas e a violência verbal se espalha com naturalidade fazendo parte do seu léxico no dia a dia, seus cidadãos se apropriam desta norma e fazem usos destes princípios até mesmo inovando formas mais violentas ainda. God bless America! * Viver a "batalha de formigas": guardar os alimentos para tê-los a doar ao grão da terra e à vida. Assegurar a água e o sol no entorno das horas a viver na solidão de nossos dias. Res...

Diário

Imagem
Rio, 30.05.2020 Alguns dos livros que me envolveram em pesquisas nos últimos dois anos, enquanto escrevia fazendo a manutenção poética da história de meus antepassados.

Diário

Imagem
Rio, 29.05.2020 Alguns exemplares do livro novo A bordo do Clementina e depois chegaram, hoje, em minhas mãos.Viva! O livro de 192 páginas contém um pequeno caderno de fotos antigas (arquivo de família). Foi impresso na gráfica da editora Vozes, Petrópolis, neste momento de pandemia no Brasil. Será vendido on line pela 7Letras e pela Amazon. * Mais um dia difícil com as taxas de contaminados e mortos do Rio de Janeiro altíssimas. A literatura nos ajuda a respirar!

Diário

Rio, 28.05.2020 O dia amanhece nublado. O Brasil também! Há ameaças de raios, trovões e palavrões sob os céus de Brasília. Estamos esgotados de tantas notícias que só nos confirmam o "governo fake" onde estamos metidos. Mas, quero falar de flores. Meu Diário de capa dura recebe o ar puro da manhã e me conta algo dos meus dias na década de sessenta. Quisera ser uma rosa. Cativar e ser cativada! Estou lendo O Pequeno Príncipe . (No ano de 1966, quando escrevi estas linhas em meu diário, desconhecia a vida de Antoine de Saint-Exupéry. O escritor, desenhista e piloto francês, filho de um conde e uma condessa, nasceu em Lyon em 1900. Escreveu este clássico da literatura, uma fábula para adultos que foi lida ao redor do mundo, em 1943. Livro traduzido para muitas línguas. Durante a Primeira Guerra estudou na Suiça, e em 1931 ingressou na aviação em Estrasburgo. Escreveu inúmeros livros sobre aviação. Morreu em um acidente de avião em 1944 e seu corpo nunca foi...

Diário

Rio, 27.05.2020 Na caligrafia deixo passar entre os dedos das mãos o mais necessário. Árvores dispersam folhas e o sonho vive no ventre da madrugada. Sonho ou pesadelo? Não costumamos dizer os fragmentos do dia, detalhes de pequenas coisas:                         f ormigas ligeiras trafegam na janela,  o lixeiro passa vozes roucas surdas e ruídos do velho caminhão,                                                                                             pingos soam graves no parapeito  e o chão desta casa está silencioso em demasia. * Hoje resolvi fazer gelatina. O pacotinho aguardava a sua vez de ser consumido. Coloquei frutas secas cortadinhas; a simples sobremesa g...

Diário

Rio, 26.05.2020 Caro leitor, É assustador saber que a nossa cidade está em uma curva ascendente e sem ponto de ancoragem! Perdemos o "tempo", o momento onde podíamos ter conseguido tomar providências mais sérias e, assim, alcançar o pretendido. Ou seja, conseguir conter o avanço do vírus covid-19 nas comunidades mais carentes. Ao que parece, alguns governantes agiram primeiro colocando o dinheiro dos investimentos dos hospitais no bolso! Ao mesmo tempo, enquanto cidadãos estamos nos sentindo meio perdidos no tempo. Quantos dias ou meses ainda teremos que permanecer recolhidos? Pois, só nos resta esta alternativa. Mas, ainda nos cabe agir com solidariedade. Dar as mãos e resistir com bons pensamentos, harmonia, e força! Ainda e sempre persistir na direção de apoio às nossas Instituições Democráticas! : Sim, precisamos ter "a educação, a cultura e a ciência" como norte! (repito as prioridades da fala do novo presidente do TSE no momento de sua ...

Diário

Rio, 25.05.2020 Escrevi em algum lugar este verso que ressoa agora: o silêncio faz sombra por perto Hoje vou varrer a sala e passar pano úmido; uma tarefa que me faz alongar as costas e os braços. Depois, pretendo passar alguma roupa e é quase como se fizesse "peso", pois vou mudando a posição do ferro e aproveito o momento, também, para pensar. Os nossos vizinhos estão quase bons do coronavírus. Ele é um médico. Os médicos estão a frente da luta, mesmo os que são cirurgiões pois frequentam os hospitais. Temos visto imagens dolorosas tanto dos médicos como do serviço de enfermagem nos hospitais do mundo. * Folheio devagar o meu Diário da adolescência - papel antigo e amarelado -, e o deixo sobre a cadeira de palhinha a respirar na área. Encontro canetas de cores distintas dentro dele. E o tamanho da letra também sofre variações de acordo com o dia. As surpresas se misturam com os fatos. Estudar Ciência até mesmo já tendo passado direto!

Diário

Rio, 24.05.2020 Domingo chuvoso. Final de semana triste e atordoado pela política insana de um presidente despudorado e medíocre. Arrumo as prateleiras do armário no quarto e encontro meu antigo Diário. Surpresa com o fato, resolvo ler algum pedaço. Encontro minha letra de 15 anos afirmando que, naquele dia 21 de junho eu chegara do colégio: "exausta com a cabeça girando com nomes em francês, números e Ramsés II." Pensara poder mudar a roupa e ficar à vontade. Mas, "vamos ter visita para o jantar" e "é preciso mudar a roupa toda de novo." (...) Já se passaram muitos anos desde este dia de 1966. As preocupações e o cansaço participam do meu dia com outras nuances. Os fatos são bem mais graves e ainda acontecem num piscar de olhos! * Atravessar os minutos da tarde e escrever os movimentos soltos Lá fora o dia nubla o dia de pingos d´água Ruídos balançam ao vento dos galhos de árvores * Atenção: ficamos discutindo cloroquin...

Diário

Rio, 23.05.2020                                                             S                                                             I                                                             L                                                       SILÊNCIO                                         ...

Diário

Rio, 22.05.2020 Caro leitor, o silêncio se acomoda por perto. Alguns vizinhos adoecem... Crianças brincam com as palavras. Pulam sons pela janela. A claridade alimenta o dia ainda sem caminho certo. * Quando desenhei minhas primeiras letras no papel, acompanhava-me uma alegria genuína. A mão forçava a delicadeza. Os traços subiam e desciam obedecendo algum  ideal procurado  fora da margem do papel.  A letra do outro? Ou a letra imaginada perfeita?  Pouco importa. A vontade e o entusiasmo  carregavam a marca da repetição. Cadernos de  caligrafia. Frases prontas e ligeiras. Entre as primeiras: Vivi viu a uva . Vogais e consoantes repetidas (a consoante...

Diário

Rio, 21.05.2020 Harmoniosas e sérias as plantas sob o banco na janela observam ares belicosos. Não são nada semelhantes estes dias. O dia de hoje se traduz nutrido de tristeza e o regador respinga água da torneira cheia de cloro. A seiva da terra é preta. Mergulha o brilho apagado das vidas entre fendas que abrem até os muros de cimento ou pedra. Um infinito azul azula ao redor o cenário de janelas vazias; restos de vozes – quase nada.

Diário

Rio, 21.05.2020 Escrevo estes dias tristes de outono no Brasil. Enquanto escrevo, penso. As nossas florestas estão sendo destruídas todos os dias. Os homens precisam ser responsabilizados por estes atos bárbaros. Vivemos dias de grandes dificuldades. Enquanto alguns gemem a fome ao redor do mundo, outros só pensam em politicar. Os mais desamparados precisam da luta corporal com o vírus para ganhar o seu pão. Mas, há os que saem de casa sem razão. Não mudam sua rotina por nada nem ninguém. * Posso sentir o dia passar no espaço do silêncio Por uma janela que se abre posso pedir ao sol que me toque com seus dedos quentes Posso abrir mais um espaço na janela e deixar sair os versos que agora escrevo Devagar e com suplício ainda no silêncio deste outono Estou dentro de casa há muito tempo O chão e as paredes da casa deixam passar os gestos O dia é hoje onde posso tanto e tão pouco * Variações São mais de dez horas da manhã Carrego a memória como um p...

Diário

Rio, 20.05-2020 Notas matutinas: "É preciso organizar o pessimismo".                                     Walter Benjamin Mudanças. Precisamos de atitudes! Na segunda-feira, fiquei sabendo que o livro A bordo do Clementina e depois está sendo impresso! * Brancas resistem aos dias de pandemia as paredes da sala. Envolvem os pensamentos tristes. Recupero tarefas necessárias: rearrumar os livros mais queridos nas prateleiras e sentar para ler durante algumas horas.

Diário

Rio, 19.05.2020 Amanhece azul! Nas cenas vividas ontem, em alguns países da Europa, a vida recomeçou. Algumas lojas e restaurantes abriram as portas.  Em Roma, ainda estão bem vazias as ruas e a praça do Vaticano pareceu um cartão postal paralisado no tempo. O mundo continua a respirar bastante abalado pelo vírus.  No Brasil e na América Latina estamos tingidos de vírus, neste momento.  Em algumas de nossas cidades estamos submersos. Há os homens ignorantes, os descuidados, os insanos, os malignos e os assassinos. Principalmente, aqui, há de tudo!    Porém, há os médicos e o serviço de enfermagem em trabalho exaustivo dia e noite. Entre os médicos da rede pública do país, alguns dizem que estão sendo pressionados para que prescrevam o uso da cloroquina. Na rede privada, a indicação para o uso desta droga também aumenta.  O mundo afirma através dos cientistas alinhados em pesquisa de ponta que não há eficácia comprovada da cloroquina ...

Diário

Rio, 18.05.2020 Um novo dia. E o mesmo "real" nos atordoando os minutos. O fio da escrita alinha ideias em muitos planos. Na claridade encontro a beleza possível para estes dias escuros. Ontem troquei a manta da cama, e coloquei uma mais grossa. Verde. Tecido leve e quente. Minhas unhas crescem fortes sem dar a mínima atenção ao vírus. Helicópteros sobrevoam os céus por aqui. Rápidos e estranhos. Qual a razão destes voos em tempos de covid? (jornalísticos ou policialescos?) * Na esfera azul o mundo continua a ser redondo. Muitas línguas me alimentam os passos. A manhã soa sua amplitude de luz. Mergulho nas letras seguindo o movimento do pensar. Não sabemos nada ainda sobre "a luz no fim do túnel". Parece estar sendo anunciada antes da hora. "Se aquietem" dizem os paraenses uns para os outros.  O nosso tempo nos coloca em um dilema curioso. Precisamos regar todos os dias a paciência, e respeitar o próximo como nos ensinam os Evangelhos...

Diário

Na noite de 17.05.2020 É muito grave o que acontece no Brasil! Um presidente que faz atos antidemocráticos! Socorro! (e manifestantes deploráveis!) * Sinto muita vergonha com o que acontece no nosso Brasil. Tenho vontade de me mudar de país. Quem sabe, passar uma temporada fora estudando e escrevendo. Pesquisas literárias me interessam sempre. Quem sabe, depois deste momento tão duro, eu possa sonhar de novo!

Diário

Rio, 17.05.2020 O sol passou rápido pela janela da sala, mas os passarinhos ainda cantam. Escutamos Bach - Orchestral Suites from the  "Goldberg Variations", enquanto limpamos a casa com delicadeza. A boa notícia é o hospital construído em dois meses pela Fiocruz.  Agradecemos! Localizado em Manguinhos, dentro da área que lhes pertence, a unidade está pronta e vai começar a atender pacientes graves com covid-19. E a má notícia é que no Chile a pandemia cresceu. Em 24 hs ocorreu um aumento de 60%  nos casos de contaminação. Nossa! Aqui, ainda querem ficar discutindo economia. Sem "vida humana" não haverá Economia alguma! Acordem os homens insanos deste país! *

Diário

Rio, 16.05.2020 minhas lágrimas lavam meus cabelos respingam nos vidros das janelas e correm soltas nas ruas desta cidade sonhos sofrem dias de naufrágio a vida que não é mais com o descuido das almas minhas lágrimas lavam meu sorriso em desacordo com o momento na devastação das vidas * Tempos bizarros. Dói! Não grito. Corremos na direção contrária da que deveríamos? Escutamos coisas estranhas e vemos a "pobreza" instalada no pensamento. Na devastação de muitas vidas o silêncio se acomoda. Leio e tomo notas. Um novo livro pede espaço. Quase não há. Escrevo nas brechas e rosas aparecem tímidas no vaso da área. Dias mais frios abrem a porta e se aproximam de nós. É cinzenta a tarde antes do pôr do sol. A cortina ondula o vento. Fios de luz. Um galo cantou no whatsApp que recebi de meu irmão, logo cedo. Abro e fecho o livro que quero escrever (as mãos repousam nos objetos que mudo de lugar sem descanso)! * Morreu ontem a escritora Olga Savary...

Diário

Rio, 15.05.2020 Chove, piove, piove! Não livre da tarde silenciosa e chuvosa deslizo os dedos longos que me transcendem Das coisas tenho raízes e nervos (quase sempre sólidos)   Calma nos momentos onde rasquei o peito as horas e os oceanos acenderam o sal; um companheiro que vive, desliza e dorme junto a mim. * Repito: Na tragédia dos dias a poesia procura abrigo e apreço. Os gostos os gestos e os milagres somam aos corpos dos milhares de mortos   a infâmia de nossos dias. * Tragédia e mortes em demasia. Desmando. Sofremos todos nós nestes dias tristes. Emagrecemos de tristeza...

Diário

Rio, 14.05.2020 O dia amanhece sem cor. Ontem, ouvi o Dr. Jean Sibilia reitor da Faculdade de Medicina de Strasbourg. Uma fala cuidadosa e preocupada com o caminho do vírus na França e no mundo. Entre outras dificuldades, o médico apontou o fato de ainda desconhecermos o vírus inteiramente, e de as crianças portarem a mesma carga viral que um adulto. Sinalizou, também, que a vacina deve demorar pois depois de pronta terá que ser testada em seus possíveis efeitos colaterais.  Mostrou-se preocupado com o " déconfinement ", ou melhor a saída do confinamento porque entre outros aspectos há a questão de os que já tiveram o covid-19 ainda estarem portando o vírus por mais tempo do que pensamos. Acredita que nas 4 semanas seguintes, os que estiveram doentes ainda estarão contaminando. Muito preocupante e assustador!  * O índice de mortos no Brasil é altíssimo nas últimas 24 hs.

Diário

Rio, 13.05.2020 Era uma vez... Hoje é o Dia da Abolição da Escravatura e, também, o da aparição de Nossa Senhora aos três irmãos; os pastores da pequena aldeia nas proximidades de Fátima. (Não ignoro as narrativas do Evangelho nem a história da vida dos Santos!) Não há ruídos. O escuro pertence ao lado de fora. * Em diálogo com Virginia Woolf Uma manhã dentro de casa. Estou ainda debruçada na leitura do livro de Virginia Woolf. Palmo a palmo desvendo detalhes desta voz que ressoa e se estende sobre si mesma. Seguro as delicadezas que nascem no texto. A escritora ainda jovem, aos 27 anos, enquanto viajava pela Itália pela primeira vez escreveu rostos distintos inesquecíveis e atmosferas impostas pelos hábitos da vida nas pensões simples, em almoços ou chás aos quais se entregou com intenso interesse, além das cidades de Perúgia, Siena e Florença de telhados “manchados de castanho” e “persianas verdes”, com primaveras e outonos se deixando desenhar pelo olha...

Diário

Rio, 12.05.2020 Manhã de terça-feira, o canto dos pássaros logo cedo, os bons pensamentos e um café com gosto de antigamente. Hoje, vou passar alguma roupa, inclusive a máscara usada logo cedo para descer na portaria e buscar os alimentos que chegaram. Depois, pretendo cozinhar o feijão preto nosso parceiro de quarentena e molhar as plantas, etc, etc. Ontem à noite a tv italiana, Rai1, apresentou um programa longo nomeado"Frontiere" /"Fronteira". Eu me detive, um pouco assustada, a ouvir algumas reflexões sobre o possível mundo que teremos depois. Não cheguei a ficar sem sono, mas me deu mal estar pensar que as cidades europeias vazias continuarão 'quase' vazias por um bom tempo. Atenção: Não há garantia alguma para o retorno das crianças às escolas, nem para a circulação das pessoas nas ruas sem a presença do vírus que mata.  Caro leitor, a recessão anunciada será global, ou seja, não adianta pensar que vai evitá-la aqui ou acolá abrindo a...

Diário

Rio, 11.05.2020 Homenagem: Conheci Sérgio Sant´Anna pessoalmente no "Café Letrado", na bonita livraria ContraCapa da rua Dias Ferreira no Rio de Janeiro, em 2001. Na época, Paloma Vidal, Augusto Sergio Bastos e eu organizávamos estes encontros mensalmente. Ele chegou acompanhado do filho André, que também era nosso convidado naquela noite. Foi um encontro forte e denso com conversas animadas por um pai e um filho que escreviam de forma tão distinta. Depois, o recebemos em nossa casa junto a outros escritores celebrando um final de ano. Desta vez, veio só. Conversamos sobre seus contos e o trabalho com a linguagem. Ele, curioso, queria saber qual era o meu preferido, e o porquê. Escutava calmo, mas não parecia surpreso. Algum tempo depois, em 2005-2006, trocamos algumas mensagens por e-mail. Neste momento, ambos escrevíamos como colunistas no Cronópios, um Portal eletrônico, junto a muitos outros poetas e amigos. Não acompanhei mais de perto a sua caminhada, exceto pel...

Diário

Rio, 10.05.2020 Hoje é o "Dia das Mães" no Brasil, mas em Portugal o "Dia da Mãe" foi no domingo passado. Em tempos de covid fica muito claro o sentido comercial e consumista do termo. Assim mesmo, as saudades apertam misturadas com as faltas. Aguardo o livro novo que está em uma gráfica esperando a vez de ir para o forno. O mais impressionante é que neste livro A bordo do Clementina e depois escrevo a viagem de meus antepassados paternos italianos, que embarcaram para o Brasil no ano de 1877. E esta travessia, única em muitos sentidos, partindo de Gênova os trouxe para uma vida solar com tudo a ser construído aqui. Agora, com a crise do coronavírus e a saudade de tantos familiares, este livro me parece essencial. Tenho pressa em colocá-lo circulando. * O escritor Sérgio Sant´Anna partiu nesta madrugada! Silêncio! * Poema em dois episódios (escrito em 2011) 1. Talvez eu tenha escutado na infância canções tristes de povos d...

Diário

Rio, 9.05.2020 Hoje é sábado! Há quase dois meses não saímos de casa. O tempo voa de forma distinta. Os dias se multiplicam em notícias escandalosas. As pessoas de muitas classes sociais não conseguem ficar quietas, e tudo isto traduz-se em um mistério onde está incluído não só as diferenças de vida como as de pensamento de uma parte da população (talvez, o mesmo grupo que votou em Bolsonaro)! Ficamos sabendo, ao acaso, que na orla do mar do Recreio, de Ipanema e de Copacabana  muitas pessoas passeiam sem temor algum! Acrescento: sem pensar em ninguém, senão em si próprias. Lamentável! * Receita doméstica: Não ligue a tv o dia inteiro para não enlouquecer de notícias! * Da casa escuto os passos curtos cada vez mais curtos. Não são os meus nem os dele. São de fontes vagas. Vagam perto dos ruídos do lado de fora (louca vizinhança cada vez mais audaciosa). Gira o mundo no espaço azul. As árvores somam tons intensos às tempestades ligeiras. Rústicos tronc...

Diário

Rio, 8.05.2020 O andar respira com a força das árvores: pulmão Galhos delicados sopram Fortes seivas circulam entre as veias  O sangue quente desliza * O trabalho doméstico compete com todos os demais afazeres. Trocar os lençóis da cama sem pensar em nada. Mexer os braços em exercício. Lavar os cabelos mais cedo pois os dias começam a esfriar, e os quadros alérgicos não podem chegar por aqui. Lavar as roupas usadas e guardá-las (algumas não sentem falta do ferro), ufa! Algumas horas se foram... mais um dia de quarentena escorre pelas paredes desta casa. * Caro leitor, Agora a pandemia devora centenas de vidas no Brasil a cada dia. Por que é tão difícil ficar em casa?

Diário

Rio, 7.05.2020 Escrevo nesta manhã cinzenta. Vivemos em uma cidade que banalizou a violência e a morte! Faz tempo que sabemos disto. Alguns homens ao nosso redor não se importam com ninguém, nem consigo próprios. Explico: uma parte grande de nossa  população vive alienada na busca de prazer e dinheiro, ou seja, vive em torno do gozo. A tradução disto, que assistimos agora, nesta dimensão que  toca à morte, não impressiona a estas pessoas que já viviam assim, neste limite  inimaginável para alguns de nós. Não faço, caro leitor, nenhum exercício reflexivo. Apenas escrevo o que vejo há um bom tempo, nesta nossa cidade do Rio de Janeiro. As drogas, por exemplo, foram festejadas mesmo nestas madrugadas de quarentena, quando acordamos de repente ouvindo os famosos barulhos de fogos ao redor de nossas montanhas. Com o código, já conhecido, para os que usam drogas e ficam sabendo que ela chegou aos morros cariocas. Devo acrescentar que, sem o fechamento...

Diário

Rio,6.05.2020 Cemitérios sem espaço Covas de barro alimentam os dias de abril e maio Verdadeiras trincheiras se abrem ao infinito A terra lhes será dada sempre, meus amigos O barro de cor viva alimenta o verde ao redor No quintal paisagem de árvores e plantas as covas são trincheiras os dias não tem cor e lágrimas abundantes correm Maria e Severino Antonio ... Naqueles homens e mulheres sem nada igual (o coração parou!) A vida desceu aos cemitérios perto do céu

Diário

Rio, 5.05.2020 O Sabão                Roanne, abril de 1942 Se eu massageio minhas mãos, o sabão espuma, rejubila... Mais as deixa complacentes, flexíveis, afáveis, maleáveis, mais espuma, mais sua raiva torna-se volumosa e nacarada... Pedra mágica! Mais forma com o ar e a água cachos explosivos de uvas perfumadas... A água, o ar e o sabão encavalgam, brincam de pular carniça, formam combinações menos químicas que, físicas, ginásticas, acrobáticas... Retóricas? Há muito a dizer a propósito do sabão. Exatamente tudo que ele conta dele mesmo até a desaparição completa, consumação do sujeito. eis o objeto que me convém.                                                                 Francis Ponge, Le Savon.  Gallimard, p.27 Fragmento do poema traduzido para mi...

Diário

Rio, 4.05.2020 A manhã começa azul. Céu de maio! Não posso ver as montanhas ao redor da Lagoa, mas tenho-as na memória  de muitos meses de maio ao longo da vida, quando ainda morava em Ipanema. Na rua Redentor, o relógio Oito guardava as horas de todos nós. A família reunida almoçava e jantava quase sempre na mesma hora. Morei nesta casa por  mais de uma década até me casar, pela primeira vez, aos 23 anos.  O relógio Oito voltou a habitar as paredes de minha casa em 2012, depois da morte  de meu pai. Agora vive silencioso. * Morreu, hoje, Aldir Blanc de covid-19. Muitas palmas pra ele! "Catavento e Girassol" composta com Guinga é uma das belezas que a música brasileira produziu! Salve, Aldir Blanc! * A tarde chora mais um de nossos grandes músicos, que parte nesta hora de tanta dor. Momento difícil. O "luto" nem tem tempo de aparecer... Fazer o quê? Vamos inventar os ritos sem deixar calar nossos mortos! Quem são os que partem...

Diário

Rio, 3.05.2020 Amanheceu. Silêncio! (Com apreço ao silêncio permanece o pensamento em orações no convívio do dia.)  * Escrevi em um de meus primeiros livros: A memória me segue sem perguntas por mais que eu esqueça lembro! * Nota de repúdio: Que lástima a pesquisa do Paraná que está sendo divulgada hoje. (Só aponta o despreparo de nossa população!) O que vemos é um governo sem noção nenhuma da missão que assumiu. O que tinha de bom, acabou: o Ministro da saúde Mandetta e sua equipe pareciam ser a única coisa boa.

Diário

Rio, 2.05.2020 Silêncio (...) hoje é sábado Vivemos um momento de mundo entre parênteses. Aguardamos de forma dramática um dia depois do outro. (...) Agora e depois aprendemos e aprenderemos novos hábitos. * É tempo de solidariedade, caro leitor! Mas o governo brasileiro continua na contramão dos princípios básicos humanitários! É estarrecedor ouvir tanta loucura espalhada pela boca de um presidente. Quando vamos acordar e resolver esta insanidade de forma mais definitiva? Sejamos mais responsáveis! * À tarde, enquanto o dia corre, comento que fiz farofa de banana no almoço. Sim, tendo primeiro torrado um pouco a farinha e, depois, colocado um punhado de manteiga vegana com cebola bem cortadinha pra dourar. A farinha ganhou seu lugar devagar no calor do fogo, com uma pitada de sal e pedacinhos de banana. Ufa! as lembranças também correm lá para o lado do rio no bairro do Tarumã, em Manaus, onde hoje se encontra por perto o tal cemitério que recebe os co...

Diário

Rio, 1.05.2020 O dia amanheceu sombrio. Não corre mais igual o tempo. Somos os mesmos? Ou não? * Fragmento Nem sempre solares são os vasos desta sala. No lugar onde mergulham os caules verdes,  flores vagam no vazio do dia. Vasos brancos, amarelos ou azuis bebem as horas na mesa  retangular de madeira arranhada.   * Escrevo palavras e atos que me seguem... Quando já estivermos longe, bem longe, e o mundo respirar de novo mais tranquilo quero crer que as palavras estarão por perto,                                                                      e os gestos brandos poderão se impor definitivamente. Não posso esperar muito nem falar sobre o que vai reinar depois.                              ...