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Mostrando postagens de fevereiro, 2018

Devaneio

O vento das montanhas altas sopra. Longe. Talvez na infância. O corpo segue a direção salgada do mar. Um murmúrio  de folhas  soltas. Sobrevoam no descampado verde, bem perto da areia  da  praia. Distintos matizes.  O céu cinzento não esconde a sua força:  nuvens  pesadas. Elas ainda guardam a água a ser derramada em  breve. Alguns raios riscam letras. A lembrança  é antiga.  Parece nunca ter sido alcançada  com  nitidez.  A escrita abre as asas da mão. O corpo gelado da tarde de inverno. Um maiô azul colado à pele. Os lábios quase roxos. Areias douradas:  Guarapari. Areias duras. Uma surra de vento corta as canelas. O branco da página sopra. Bico de lápis.   Um calor acalma o frio da infância. Lívida.  (É possível escrever um devaneio?) Rio, final de verão de 2016. PS. publico novamente um texto-poema que escrevi no final do verão de 2016.

Gradiva verão - parte 1

5. Quando eu me pergunto se o tecido de algodão antigo pesava mais que o véu de uso diário, não encontro dúvida na resposta para um grande sim. As mulheres envoltas em panos, na Itália e na Grécia antiga, man- tinham com o chão uma proximidade tão natural como hoje assistimos na nudez em destaque. E o corpo carregava em dobras o pouco que se expunha nas muitas pontas do algodão. (...) Sobre o azul e o verde das paredes desbotadas pelo vento e pelas águas, na frequência entre espaço e  tempo, percorro minha imaginação lenta com as pupilas abertas nesses arranhões gravados a céu aberto. Há e ainda haverá, por algum tempo, os sulcos com  as marcas dos dedos dos que pintaram as paredes de  Pompéia. Um pequeno retoque aqui, um arranhão mais forte do outro lado, bem perto daquela grande porta em arco. (...) (Naquela Pompéia de quase 80 anos d.C. havia muita festa e muita música. A brisa soprava quente.) Fragmento do livro Gradi...

Sem título

Água e campo cravados de fé. O sonho do menino que descansa no ombro da mãe. Caminhada imigrante: terras de passagem. Ler as palavras distintas de um estranho estrangeiro. Chegar nas terras de hoje de todo lugar. Soldados de olhares e lugares de março-e-abril. Final de um inverno qualquer. Água e tempo nos campos: incertezas permanentes. Os sonhos de hoje de um menino imigrante. As luzes gritam o vento nos céus da Síria.                                                               Hoje, 18.02.2018.                            Para Fabrizio De André (músico-poeta italiano) PS. até quando vamos assistir a esta matança na Síria? A tv francesa hoje, dia 20 de fevereiro, mostrou no seu jornal (TV 5) cenas de um massacre de mais de 2...

Indignação

Indignação é pouco! Abriu-se o leque da cidade e suas mazelas. Seu desmando com a falta de cabeças pensantes dirigindo a cidade. Antes da maré do carnaval começar já dava para ver - no horizonte verde e amarelo - o que seria este carnaval sem organização e nem previsão de nada. E só estou olhando para o Rio de Janeiro. Os jovens em alvoroço na idade das paqueras e das saídas sem hora para voltar já estavam animados com o samba. E enlevados pelo álcool que corre solto para alegria das cervejarias em demasia. Isto sem falar nas demais misturas que fazem também neste tempo das descobertas desmedidas e escondidas do olhar dos pais. Mas, vivemos tempos mais difíceis. A situação é grave em quase todos os sentidos. A cidade é nossa e precisamos cuidar de nossos jovens. Cuidar dos que nunca foram à Escola, dos que não têm dinheiro para comprar nada, sequer comida. Cuidar e cuidar é a palavra de ordem, agora. Quem não recebe educação não aprende a respeitar nada nem ninguém. É preciso...

Boletim da SLFP

Recebi o BULLETIN n.6 de JUIN 2017 da Sociedade de Leitores de Francis Ponge há alguns meses São fotos, manuscritos, documentos e crítica principalmente. Traduzo hoje um pequenino fragmento (p. 10) O Novo Peixe Muito mais que os pássaros, os peixes são flechas, rodeados de carne.   Mas seu alvo (o alvo que corresponde a estas flechas) não está no exterior delas. Ele está incluído nelas; elas o transportam inexoravelmente, comicamente (...) Surpreendida pelo desejo, quase imediato, da tradução penso em meus outros projetos de escrita já em andamento. E, me recolho deste momento espontâneo com o desejo antigo de voltar a traduzir Ponge em sua Correspondência. A tarde corre para o escuro deste último dia de Carnaval! Voilà!                                                Lyon,               ...

Carnaval de 2018

                                                             “Foi um rio que passou em minha vida”                                                                                                Paulinho da Viola Sem sair de casa. Carnaval nas vias do Rio. Passa na vida com um furor de exc...

Inverno em Paris

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Parc Montsouris, 2011                                           Perto da rue Monge, 2005  Perto da Sorbonne, 2005 Centre G. Pompidou, 2009

A história do céu

Estamos no céu e flutuamos fixados na Terra. O Sol nasce cedo todos os dias. E dorme no final da tarde descendo no mar. Participa do luminoso vermelho no horizonte. A prateada claridade da Lua ilumina a noite e beija a face dos amantes com o sopro da brisa. As estrelas brilhantes ousam: Ursa Maior vive no hemisfério norte. Vega da constelação de Lira surge da palavra que, em árabe, significa "caindo". Capella é a ninfa que cuidou de Júpter na mitologia grego-romana. Um dia de chuva e frio no céu. Diante de nossos olhos as flores do campo umedecem. Lágrimas descem aos campos sob cabeças humanas. Do oriente ao ocidente sopram as ondas do mar. Segredos são ditos às pedras: "A terra é uma esfera suspensa no vazio"! E o céu? Na história do céu fixados somos no imenso universo. O céu e a terra - juntos - se montam e não são estranhos um ao outro. Devemos observar tudo diante de nós: o movimento e as paisagens.  

Poema

Pitangueira em flor Do quintal um cheiro quase perfumado se espalha Ela – aos sete anos – rabo de cavalo e descalça pisa na grama Pássaros beliscam frutinhas vermelhas Gestos distintos e inesperados movimentos Chuvas de verão. O calor avança A sede aumenta no corpo quente As crianças não descansam de brincar Entre os pássaros e as árvores do quintal Pontos avermelhados brotam nos pés descalços Marcam um som abafado no pisar Ela é de outro lugar. Ela veio de longe O ponteiro do relógio da cozinha bate cinco horas A chuva refrigera os cabelos e a pele A mãe recolhe pitangas respingadas Rio de Janeiro, 6 de setembro de 2017  OBS. revisto hoje

Passeio na orla do mar

                                                              para Oliverio Girondo De manhã um passeio na praia povoada. Superpovoada. Pernas e mais pernas nas areias. E braços e cabeças em tumultos. Muito azul e alguma coisa cinza. Não há sombra. No ritmo da caminhada de algumas mulheres o horizonte do corpo e o algodão da estação se incorporam. Por quase nada um gole de água de coco pode acender o desejo. Os homens em bando jogam vôlei ou futebol. O céu cinza finca o tempo e as horas. O mar essa água metade sal e metade vento afoba e abafa os vícios de verão. Muito azul! Alguma coisa gris ? O mar grita. Na voz do mar uma tortura um sonido distante : muito azul e muito cinza.                            do livro Outonos , p.84

Entardecer no Leblon

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Rio de Janeiro, 1 de fevereiro de 2018

A paz acima de todas as nuvens Um sopro a se fazer ouvir Cantemos a paz! Uma esperança aos que sobrevivem Uma fé quase infantil. Sábia E a literatura em sua veste de letras Afirma: a lua é um poema Cantemos a claridade E seu movimento no mar! Na sombra ilimitada deste dia Cantemos a paz tão desejada no asfalto Acima das montanhas e das tristezas!