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Mostrando postagens de abril, 2011

"La chèvre" / "A cabra" de Francis Ponge (fragmento)

Ces belles aux longs yeux, poilues comme des bêtes, belles à la fois et butées – ou, pour mieux dire, belzébuthées – quand elles bêlent, de quoi se plaignent-elles ? de quel tourment, quel tracas? Comme les vieux célibataires elles aiment le papier-journal, le tabac. Et sans doute faut-il parler de corde à propos de chèvres, et même – quels tiraillements ! quelle douce obstination saccadée! – de corde usée jusqu’à la corde, et peut-être de mèche de fouet. Cette barbiche, cet accent grave... Elles obsèdent les rochers. Par une inflexion toute naturelle, psalmodiant dès lors quelque peu – et tirant nous aussi un peu trop sur la corde, peut-être, pour saisir l’occasion verbale par les cheveux – donnons, le menton haut, à entendre que chèvre, non loin de cheval, mais féminine à l’accent grave, n’en est qu’une modification modulée, qui ne cavale ni ne dévale mais grimpe plutôt, par sa dernière syllabe, ces roches abruptes, jusqu’à l’aire d’envol, au nid en suspension de la muette...

NA LÍNGUA MATERNA

No dia 10 de julho de 2010 caminhei pelas ruas de minha cidade. Procurei um local para um café. E escrevi em português do Brasil. 1. Imagine a solidão de um estrangeiro. Um árabe. Um chinês. Um norueguês. Qualquer um. Um país. Um lugar. Qualquer. Os olhos. As mãos. Um café. Um canadense. Um alemão. Um. Qualquer lugar. (... e aqui não se fala inglês!) 2. Um árabe procura um café. Está tudo fechado. Um alemão deseja um interlocutor. A francesa se queixa do calor. Palpitação. E o norueguês não encontra o caminho de casa. Miséria. As praias estão poluídas. O diálogo não se faz, embora a mímica ajude. Copa do mundo? Onde? Quando? Começou. Vai começar. Acabou.   Sou obrigada a pensar muitas coisas. Talvez, a hospitalidade possa ser o fruto da resistência! 3. Mês de julho. Final da Copa. Quero crer que o futebol importa para além das vaidades, dos palavrões e da violência. Chutar. Pisar. Vocação sórdida. Mas já será tarde demais...
Na língua materna                                   Em duas vozes: - Eu falo português. Algumas vezes falo francês. Experimento falar espanhol. E gosto do som que sai de minha boca quando falo italiano. Meus avós paternos eram filhos de italianos. Mas sou brasileira e falo português do Brasil. Gosto da palavra solilóquio. E me interesso pelo som das palavras como se fossem notas musicais. A palavra arrivederci me faz sorrir. - O quê? - Sim, e fico confusa com a palavra CIAO , tchau. - Ah! Mas você não pode traduzir isso. Algumas vezes é preciso entrar na língua, entrar na língua do outro. - Para acontecer algo assim é preciso viver o esquecimento. Ou melhor, é preciso tempo. É difícil. É impossível. Para que isso aconteça você deve deixar a língua materna.     Rio, 2 de fevereiro de 2010. Depois de ter ...

Historinha infantil: Formigueiro em festa

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                                                        I lu straçõ es: Ana Devesa                                                                    para                                      ...

Strasbourg, França (2000).

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Museu de Arte Moderna de Strasbourg.

Gradiva

2. Os corpos, sempre os corpos. As camas baixas de madeira deixam ver as marcas do corpo de relance. O branco se amontoa mais para um lado, nas dobras do lençol. As mãos que alisam estas dobras, diariamente, procuram a perfeição. A modelo triste se levanta e quer partir. Nem parece estar cansada. Estátua. Ela permaneceu assim por longas três ou quatro horas. Em que pensava? Os cílios escuros fazem sombra no branco do rosto oval e dizem de uma superfície de onde os segredos parecem guardados sob os lábios de pedra. Amanhã, na mesma hora, a jovem mulher retornará para os olhos do pintor. 3. Quando Matisse descobriu a cadeira prateada, aquela cheia de voltas e encantamentos, comentou com Aragon, o poeta, que encontrara um objeto precioso para o seu trabalho avançar. O objeto, sempre um objeto a cada vez... Aqui, o olhar desvendava a superfície e muito mais. Ainda algo das dobras.

Ainda sobre a Gradiva

4. A Gradiva anda e ondeia os quadris. O corpo ereto passeia com os pés em arco. Gradiva dançarina? Bailarina de seu tempo? Gradiva incorpora os movimentos no andar que dança. Os pés soltos em sandálias rasas. A mulher que dança, segundo o que dizem hoje, move também o olhar que não consegue permanecer parado.

INGEBORG BACHMANN (1926-1973)

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Austrian poet, dramatist, and novelist, a leading voice in post-war German literature. During her lifetime Bachmann, was known first and foremost as a poet, but she ceased to write poetry in the 1960s and focused on prose. In these later works feminist themes came to the fore. Bachmann was a reclusive, but socially engaged writer. Most of the fifties and from 1965 onward, she lived in Rome, where she died in a fire in her apartment.

Tradução de Ingeborg Bachmann: “Un jour viendra”.

Ingeborg Bachmann: “ Un jour viendra ”. Perguntam-me, algumas vezes, porque tenho uma ideia, ou melhor, uma visão de um país utópico, de um mundo utópico onde tudo estaria bem e todos os homens seriam bons. Responder a tal questão pode ser paradoxal, pois devemos todos os dias enfrentar os horrores do cotidiano. O que possuímos não vale nada, somos ricos se possuímos alguma coisa que vale mais que toda espécie de bem material. E de minha parte, não creio neste materialismo, não creio nesta sociedade de massa, neste capitalismo, nesta monstruosidade de hoje, no enriquecimento destas pessoas que não têm o direito de enriquecer sobre nossos ombros. Creio, de verdade, em alguma coisa, e essa alguma coisa, eu a nomeio “um dia chegará”. E quem sabe, talvez nunca chegue porque sempre já a destruímos. Há milhares de anos que continuamos a destruí-la. Não acontecerá e, no entanto, acredito nisso, porque se não acredito nisso, então não posso nem mesmo escrever mais. (Tradução para o...