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Mostrando postagens de dezembro, 2021

Rio, 31.12.2021

 Diário Nasce o sol Vejo a luz que chega Entra no quarto devagar e mostra esta fatia clara da manhã respingada de passos Desce lenta a nuvem espessa Da janela não antecipo nada Abro bem as pálpebras Estalo os dedos Acordo um pouco mais O silêncio carrega o vento

Diário: 30.12.2021

Escrevo sem me acalmar Há dias em que basta cortar vírgulas e os sentidos giram. Aumenta-se, assim, o campo de visão.  E há momentos de palpitação ligeira quando o corpo todo participa. Há um certo poder nas manhãs. Na claridade azulada que pontua emoções. No final de 2021, nesta cidade estranha, que me acompanha no brilho e nas desordens instaladas, sou um rosto humano em desalinho. Procuro o que já fomos, antes desta "besta" política se instalar. Quando tudo não era permeado de algozes destemidos. Sem me acalmar, procuro o tempo das delicadezas não só em canções mas em gestos e palavras.

Rio de Janeiro, 30.12.2021

 No intervalo do tempo No intervalo da palavra onde a mão não cede todo o vigor da música soa. E a voz escorre estremecida. O lápis e a tinta dizem mais que o riso. E não desviam a foice que corta a letra ou a plantação. Na febre que me cobre o corpo e a escrita digo prossigo repito: é com os braços e a boca neste instante raso que não me deixo abater. Na febre da escrita  canto. A folha não está morta. Nem a língua. A língua perdura. Respira e murmura.                                               (para os poetas de nosso tempo)

Rio de Janeiro, 29.12.2021

 Diário, Estamos em trânsito para 2022 A esperança cresce cresce cresce Relembro os livros lidos ou interrompidos Lives assistidas e vividas Páginas escritas e in progress  Projetos nascem até mesmo em sonhos Filmes antigos são vislumbrados em câmara  lenta E a infância participa recuperada nos Contos de  fadas Molduras antigas caminham distraídas pela casa dentro e fora das pinturas: rostos conversam; o inesperado Personagens de um passado recente posam de lado

Poesia da manhã ou só pensamentos?

Espalhados no planeta E longe de mim. Alguns amigos vivem em Lisboa. Outros estão plantados na França. E o covid continua a se manifestar. Familiares partem para morar em Londres com  Crianças à tiracolo. E há os que habitam a Irlanda ou  Genebra. O mundo redondo e enorme Guarda em seu coração: Idosos e crianças. Poemas.  Pedras. Florestas Amigos vivem em Buenos Aires e há os  Poetas de Rosário, do Peru e do Uruguai.  Nos EUA vive o primo Pedro que me chama de  Tia Madrinha.  E, Mami, uma amiga querida vive no  Japão.  No meu peito guardo todos eles Embrulhados em papel  Permeados de memórias intensas

Diário, 28.12.2021

 O mundo atordoado As variantes do vírus covid.19 colocam o mundo diante de limites inusitados. Países desenvolvidos ou países em desenvolvimento se debatem com as providências necessárias e urgentes que precisam ser tomadas quando mais uma variante se desenvolve assim tão rápido, como é o caso da ômicron neste momento Os países totalmente à margem e muito pobres já estão acostumados a ficar fora dos circuitos e dos cuidados e providências humanísticas, como é o caso de alguns lugares da África, por exemplo. Eu me pergunto quanto tempo ainda vai ser preciso para o mundo perceber que não andará bem das pernas, enquanto não forem tomados todos os cuidados com as populações mais pobres do planeta. Agora, isto representa principalmente vacinas para todos! Mas, não só vacinas. Também, alimentação e educação.  O mundo daqui pra frente precisará ser ecológico, cada vez mais. Água, luz, alimentação saudável são o nosso ouro. Só colheremos o que plantarmos. 

Rio de Janeiro, 27.12.2021

 Neste pedaço de céu  Onde os dias e as noites fogem Entre instantes rápidos  Cada vez mais rápidos  Os olhares tantas vezes lúcidos  Deveriam fazer festa Quando juntos podem somar Ou chorar uma canção antiga Quando o filme traz imagens de  Marcello Mastroianni e Sofia Loren Em longa-metragem: Um surto de prazer  O dia escorre rapidamente E permaneço perto de ti * Neste pedaço de mar A noite das estrelas-do-mar  Costuma se indagar  Se o tempo nos abandonou Este azul todo azul De dezembro e de verão  Sonha por nós e por todos os demais * Neste pedaço de chão  Os pés cavam espaços  Entre borboletas...

Diário, 26.12.2021

 Quando janeiro chegar abriremos os braços. E abriremos nuvens de esperança. Plantaremos novos sonhos de norte a sul. Com o canto das cigarras a luz será percebida até o canto mais distante além do visível.  ** Gira o mundo... Faleceu Desmond Tutu. * E um novo naufrágio no mediterrâneo ocorreu na véspera de Natal. Vinham da Líbia.   Vários imigrantes faleceram. Um oceano cemitério! * Gira o mundo: Na Europa milhares de voos foram cancelados hoje. Na França, em 24horas, 100 mil pessoas foram contaminadas pela variante ômicron. Aqui no Rio de Janeiro o prefeito dorme... E só divulga os poucos casos de covid que lhe interessa divulgar... Gira...Gira... A orla da praia do Leblon está habitada de cores e formas de Papais- noéis. Um espanto! Falta pão. Faltam moradias decentes para os mais necessitados. Mas, não falta decoração na orla do mar.

A tarde insistente

 Guarda a tarde ruídos e sonhos Um diário aberto em linhas teci Mostrando ângulos do tempo  E a voz que se mistura com letras Confirma inquietações  Espantos desejos e flores ainda por vir Às dezessete horas a xícara de café  Soprando fumaça caracol Diz adeus a quem não conseguiu chegar Nada diz do fato em si Um diário,  simplesmente  Aberto no final de um sábado  Escreve o quarto O corpo impaciente A luz acesa

Rio de Janeiro, 25.12.2021

 O sábado sempre pertence ao homem Pinturas de cores vivas narram vidas. Paredes e gestos guardam momentos íntimos.  Mensagens de olhares fugazes atravessam bocas abertas. Pobreza intensa. Homens se alimentam  da caridade que lhes alcança. Sóbrios são os dias de humildade quando a humildade não se deixa ver. * Ausência  De uma mulher morta resta a imagem na memória. Palavras e sorrisos vivos restam. A cor de olhos intensos. A pressa no tempo  e os passos duros no chão.                                                Para Viviane 

A fome insistente

 Iêmen Afeganistão Brasil Síria  Etiópia Somália Sudão Moçambique  E Angola... Angola... De mãos formigas andam os famintos Catam tudo Migalhas moedas farrapos No Afeganistão crianças mamam Seios vazios E no Sudão do sul homens descalços padecem Aqui bem perto a fome causa sono Dormem nas calçadas os famintos De tudo  * Cães latem na vizinhança  Gemidos longos atravessam madrugadas curtas ** As noites de dezembro se perdem? *** Somos instantes néons  Entre paredes e portas Olhos limpos guardam o fogo Do poema dentro do poema * Desenha-se o tempo que permanece

Rio de Janeiro: véspera de Natal

 Dia 24 de dezembro Dezembro solto em linhas e lives Verão chuvoso Mulheres sem abrigo Crianças sem vacina E homens na fila de ossos para se alimentar Dezembro solto e desalinhavado Escreve-se no espaço de praias lotadas E bares e cafés sem máscaras  Solto o verbo verso. Vocês verão... Nossas crianças em risco

Risos e rosas

 Rosas rubras Saia de renda e algodão  Roupas de festa Risos soltos nas alturas Vendaval de vozes * Abraços  Os dedos livres E as mãos ao acaso Saltam por cima dos ombros * Dia de beijos  Dias de sensações  Imensas e longas (Como antigamente) *

Rio, 23.12.2021

 Em torno do olhar Em equilíbrio cai a chuva Música e esperança  Quem escuta? Em torno de mim amanhece Nestas linhas e na folha verde respingada A luz do espaço das estrelas existe Ou não existe? Abro o branco silêncio  Pouco direi. Há só murmúrios  A terra lenta e sonolenta Sustenta árvores troncos pensamentos Palavras a lavrar  Onde o branco se abre estrela Lá o vento brando Levará ramos floridos do mar E almas verdes douradas sorrirão Na boca das folhagens.

Rio de Janeiro, 22.12.2021

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e os livros guardam nossas histórias... Sólo un nombre alejandra alejandra    debajo estou yo        alejandra

Arrumações

 Guardo em gavetas camisolas amarrotadas do passado. Talheres de prata em uso não esperam mais dias de festa. Gestos rápidos ao passar roupa deixam a casa mais leve. Planamos junto ao mar em dia de sudoeste (um veleiro de outro tempo me acompanha). Gavetas abertas aguardam.  * Aprendi com Walter Benjamin a importância  das gavetas na memória  sensível. Desde então minhas mãos fabricam  histórias. * Os anjos dependurados nas paredes de meu quarto são pacientes. Sabem olhar e ouvir.  * Quando posso arrumo a casa Calmamente Arrumo aqui dentro tudo que parecia estar do lado de fora * E o tempo não se detém em imagens

Verão de 2021

 Diário, 21 de dezembro  Rabiscando: E quando abrimos o olho já é verão outra vez. Final de pandemia? Ainda não.  Os cientistas nos ensinam que o vírus veio pra  ficar. Quem não quer ver está com sérios  problemas. Assim corre o mundo de nossos  dias: vacinas, vacinas... para todos! E, máscaras na face! No meu tempo de menina, os mascarados  surgiam nos blocos de Carnaval. E nos  assustavam! Hoje, os mascarados somos nós.  E não   assustamos ninguém.  O susto aparece quando  um indecoroso presidente se põe a cuspir  asneiras para todo lado. Ou se seus impróprios  seguidores ainda ousam blasfemar. Os tempos mudam, felizmente. Os dias se alternam. As janelas mudam de hábitos.  O pensamento circula. *

E Viva o Chile!

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Diário, 19.12.2021

Domingo A casa sem sombra acorda lentamente.  Portas permanecem abertas ou quase.  Periquitos insistentes surgem entre vãos  vazios. Acalorados e verdes piam. Recolho sons que sobram ao largo: um telefone toca à moda antiga. Ninguém atende. Fantasmas circulam. E as vozes dos tios repercutem na memória.  * São mais de dez horas da manhã.  E as sombras crescem do lado de fora.  Este rosto manso de hoje faz perguntas e guarda dúvidas.  * Muitas folhas desfiguradas no silêncio  das florestas.  Restam cada vez menos. A água vaza sem os manguezais. Caranguejos desaparecem secos. * E o vento? E a terra? Árida  Nua Ferida viva em todos nós 

Diário, 17.12.2021

 SINFONIAS FEMININAS     Anna, Cecília, Henriqueta, Marina. De turbantes ou nuas são lindas! Cenas tristes e ousadias vivas. Algumas viúvas. Sempre-vivas: Alda, Tamara e Silvina (da Itália à Argentina). Wislawa e Florbela se estendem em belos prados. Adélia e Joana entre peixes e santos trabalham. Assim como as mulheres e  os pássaros de Dora Elas circulam em versos campos de trigos e de letras. E Martine e Anne-Marie sobrevoam bem mais que o território francês. Emily guardada por seu pai nas mil janelas de paredes brancas voa. O impossível de Rosmarie, aquela que cortou uma letra do nome próprio. Armas de guerra. Tiros. Fome e medo. Lírios e castanhas. Rosas rios marés e jasmins. Sophia evocando Pessoa. Um buquê! Sylvia, Gabriela, Nadezhda. Muitos lados de um só mundo. Plath. Mistral. Mandelstam. Memórias espalhadas... Ladeiras e inundações. Depressões. Vendavais e vulcões. Escrevo nomes próprios muito próprios: Escrevem-...

Diário, 15.12.2021

 Sagitário e Peixes O teu olhar não era virgem quando nos encontramos. Mas teus pés tinham asas. Em cada detalhe soletrado havia uma porta. E a pintura do céu cada vez mais azul se fez ligeira. Desde sempre areias do mar nos decifraram. Fomos estrela e lua.  Algumas vezes peixes espalhados nos receberam entre cabelos de algas verdes que giravam. Nas palavras habitamos os gestos na casa branca que transformamos a cada momento. Como se fosse um desenho em tecido de algodão tecemos noites madrugadas e amanhãs.                                              (Evoco Sophia de Mello Breyner)

Diário, 14.12.2021

 Repetições ritmadas Ando de cima para baixo entre as paredes da casa. Não encontro o portal que possa abrir  passagens. Qual bailarina sobrevoo vivas vias e arrumo copos violetas. A tarde cai escura e o gole de café guarda na boca o silêncio de antigas esquinas. A garganta arde e aperta.

Poema ligeiro

 Porque eu carrego rios e ventos E sobretudo os horizontes limpos Ainda que os dias de fúrias E de combates ao vírus  Pareçam se eternizar São fortes as mãos e os gestos Os silêncios e as paisagens aonde brilham Perto bem perto Todas as cabeças que somam

Diário, 13.12.2021

 Anjos e aves Dormem no infinito os anjos de asas grandes ou pequenas. Os olhos balançam devagar. Sonham. É dia 13 de dezembro  e Santa Luzia observa tudo. Numa leveza doce não esquece ninguém. Faz a solidão ficar menor. Reconhece os desejos das crianças  e faz crescer pinheiros e florir roseiras.  Nos sonhos o azul do mar se espalha. Esculpido pelo rastro das aves o vento sopra o amor...            Para José Eduardo 

Diário, 12.12. 2021

 Fora do poema    O que se apresenta antes do poema é pouco. Restos de imagens e palavras nulas. O que recupero por ora são impressões ilegíveis vividas outrora. Quando o corpo respirava ligeiro o visível andava habitando lugares fora do poema. O sabiá pousava no arbusto e repetia o canto. Ficção que não alcançava a página. Do espaço que se abre vida soa o sabiá viril.  Língua límpida. Não escrevo o dia.  Deixo soar na boca do poema asas palavras asas qual gavião: fôlego da manhã. ** Altos princípios atravessam o país e fica tudo mais possível.  É preciso buscar conter o vírus. O risco é sempre caro. Digo e repito infinitamente: a insanidade por aqui permanece  quase irredutível. E fora de qualquer poesia.

Diário, hoje é sábado!

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Água das montanhas  É água de rio.  Vendaval de perfumes. Água pura.  É cachoeira. Cai por dentro das pedras brancas. Nasce dos altos espaços de mansidão.  Sai de dentro da terra. Brota em borbulhas soltas.  Quase verdes. É fresca.  Gelada e clara. Faz tremer os lábios roxos. Reverbera nos ossos dos pés.  Passa entre os dedos. Murmura alto.  Quase uma canção.                                                                          Para meu irmão                                             Foto de Henrique Rebuzzi recebida agora.

Rio de Janeiro, 10.12. 2021

Um corpo ao mar  As paredes brancas da casa brincam entre as sombras da mangueira. Os pés pesados no vento do dia  descalços respiram descalços. As sombras do lado de fora: fantasmas do horizonte. Cada vez mais branca a pedra de sal soa. E os ombros tímidos flutuam no mar longe.  Coluna ereta e mãos leves levam o corpo ao sabor das marés. Respiração ritmada suave. Nudez de palavras. A casa aqui é água (e o corpo é lavra). * Nudez O corpo  este estranho que respira e geme aqui no plano onde pulsa o peito e o ventre. * Escrevo: o sim e o não. Talvez, a montanha repouse no olhar. *

Diário, 9.12.2021

Feminina sem subterfúgios Na marcha ou na corrida de bicicleta é possível alinhar o olhar ao redor. As pupilas se abrem rapidamente. A cena pouco palpável diz de nossos dias: sol forte quase verão e o mar batendo na areia que borbulha nuvens raras de espuma. A mulher vestida de verde retira a blusa. Desnudada corre em direção ao mar e ali se mistura. Nada se iguala a um mergulho  em águas frias salgadas. Nada refaz mais que um banho  com os pés fincados no reino do mar.

Rio de Janeiro 8.12.2021

 Diário, Muita chuva na cidade do Rio. Pingos duros nas janelas.  A chuva molha os pés dos famintos. Faltam calçados. Meu joelho trabalha exercícios coordenados. (E na Etiópia as bombas dilaceram os joelhos das crianças)... * Enquanto na cidade do Rio governantes discutem se haverá festa de réveillon na praia de Copacabana, em Brasília ministros sonham com carreiras políticas e o presidente do País delira cada dia mais... * Palavra por palavra Árvore, folha, planta de rio, manguezal. Rio Madeira de todos nós. Seu corpo grita. Está mergulhado em mercúrio e banha espaços ribeirinhos. Neste pedaço do país alguns homens agem agraciados por insanos.  Desfiguram tudo. E no verde das folhagens se escondem. São cobras famintas em busca de ouro. Mas o jardim do Amazonas coberto de rios e animais nos pertence. A terra entrelaça vidas e perfumes. Nuvens e sombras. No norte do país a palavra vibra e o verbo voa: Lindeza de água Por ela e por todos lutaremos em nome de peixes e jacaré...

Rio, 5.12.2021

 Navegantes  O corpo banhado de sal Mãos calejadas O mar largo e verde ilumina Espumas e continentes Estrelas claras são próximas  Olhos míopes  O veleiro vento voa Peixes saltam pra dentro da proa A pele esticada assiste Bons ventos

Poesia da ausência

 Quando não estás por perto eu te procuro. Nenhum movimento é tão rápido  quanto o olhar do amado. Se eu pudesse, ah se eu pudesse... De onde escrevo lento e sem limite de tempo eu te encontraria em caminhos secretos. * E todavia escrevo na claridade da janela banhada de calor. Aqui parece bem calmo. Enquanto o dia cresce lá fora. * Enquanto escrevo não falo. Através do olhar persisto na sede que não é em vão.  * Aqui é sempre começo.  Caminho ou grito? De algo a se nomear ou a surgir na fenda ferida que fala de algum lugar. * Mulher aberta em letras. Na forma não nomeada. Na língua inabitável do singular. Aqui ou lá. Em qualquer lugar.  No embate travado entre paredes mulheres constrangidas  não estão sós. * Mulheres no plural. Se escrevo  sem mesmo saber por inteiro saio de minha janela. Um cenário natural abre - se claro.  No jogo da ausência onde a presença  é quase ausência ... (Falo na língua feminina) O que existe é a falta. (E o amor....

Diário, 4.12.2021

 Ainda o vento Quando bem quer o vento cobre tudo de areia fina. Homens, mulheres, monumentos. Portais do tempo e cidades inteiras. Na ventania que venda os olhos mais negros que a noite as areias cor de saibro ou avelã  vibram ao sabor do vento. Gira a terra em torno do sol. E a lua fabrica as marés. Tecelã de mãos ágeis a lua brinca com as águas do mar. Somos água e luz entre paredes e portas. Vivemos ao sabor dos dias. Ventanias e vulcões. Chuvaradas. Tecemos as horas e os risos.  Giramos...

Diário, 3.12.2021

 Onde o olhar? Na praia? Não.  Na folha iluminada pedaço de chão  pedaço de tronco. E lâmina quente na palma da mão . Aqui bem perto o vento pede um murmúrio lamento. Um dizer verde escuro. Um olhar no horizonte. Antes que seja muito tarde a ventania avisa. Areias em suspensão.  As pernas sentem... antes. O olhar respira perto. Antes, bem antes, do que se desenha o mar já bateu suas ondas em ramos mansos presos no chão.  O olhar viu e nada disse. O corpo em suspensão.  As mãos unidas em prece. Natureza, peço por ti.                            Para Fernando Gabeira   

Diário, 2.12.2021

 Quase verão  Nasce o sol antes das 5 horas. Meus olhos procuram novas miragens.  Aprendi a pedir não só por mim. Peço descalça. Peço de pé.  É estranho este momento. Estranho mundo em tanto descompasso. Natureza quase um fantasma. Devastação e saque. Medos e arrepios. Ainda me reconheço nos braços do mar. E entre marés me encontro. Marés brumas e maresias. Vestida de algodão ou lã. Espaços sem refúgio. No aberto do pensamento. Um pouco ainda é muito e se renova.

Rio de Janeiro,1.12.2021

 Diário, Procuro a leveza e sonho silêncios  Cada vez mais raros Um ou outro amigo vejo em lives literárias  Cada vez mais grata Do lado de fora, nuvens pesadas assombradas  e sorrisos mascarados *  Pés alinhados na manhã  Equilíbrio denso demais Na escrita flui flor floração passarinhada  * Dedos ágeis brincam  e fabricam mansidão secretamente Diário,  um pouco de todos nós  *