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Mostrando postagens de abril, 2020

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Canção do grito Há mortos por toda parte e ainda esperamos muitos mais Os incêndios são enormes e os feridos também As crianças calam seus gritos dentro de casa Os adultos guardam angústias no peito Dias brancos se aproximam de maio A cidade dorme sua agonia interminável enquanto alguns homens cegos vagam pelas ruas sem trabalho O frio do inverno chega mais perto e leva nos braços algum alento: o fogo acesso das lareiras ou dos fogões A canção do grito anda por perto cavalga nas mãos de homens pouco iluminados carregada de falsidades Do mundo somos parte no perigo que nos atravessa Desconfio dos dias ... Andamos tontos na aquarela que se abre Cores negras nos abraçam qual dias de luto sem medida! No meio deste dia 30.04.2020

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Rio, 30.04.2020 Triste abril Uma manhã pendurada entre os sinos quietos das igrejas. Dores espalhadas pelos quatro cantos. Suspiro: Triste abril! Façamos um pouco de silêncio. Sabemos que ao pó voltaremos mas não todos de uma só vez! (Carregados pelos olhos que nos olham...) Diante dos que não cumprem as promessas nem assumem as missões. Olhos umedecidos lamentam. Triste abril! No canto do livro escrevo a esperança que deposito na sombra desta página.

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Rio, 29.04.2020 Escrevo: O dia se levanta lento. O azul se apresenta em brilho constante. Da janela assisto uma dezena de sanhaços em revoada breve. Livre. Pluma. Leve. * Fragmento da manhã ontem as nuvens sopraram no frio da madrugada alguns homens buscaram em silêncio alcançar o pensamento as horas traçaram a direção do múltiplo e poucos se firmaram no horizonte próximo os passos os alimentos as raízes as vozes os cheiros a natureza sem voz pede clemência no universo distante não há ouvidos suficientes (o que vinga é o supérfluo o banal o excesso) * As suas mãos estavam limpas? O vento não leva os sonhos sonhados. Durante a noite o sonho é um alvo permanente. Sob o céu do mundo sonhamos antigas histórias. No horizonte  um vazio desconhecido interroga os homens de agora sobre o que fizemos dos peixes (em marés cheias ou vazias). Quem chora agora? * Caro leitor, nenhum país parece muito inteiro, a lua e as árvores do caminho sente...

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Rio, 28.04.2020 Escrever com a boca voltada para o Norte Buscar o verde do Amazonas no silêncio desta pagina A tristeza se estende nas areias dos rios e os afluentes choram com a música dos corpos: Içá, Japurá, Negro, Nhamundá e Trompetas A boca sem paladar Mais um corpo que cai? Escrever o dia de hoje neste abril sem cor Nuvens carregadas Brancos dias vividos dentro de casa Escrever o vento acesso e a morte neste deserto daqui ou de lá Respira o dia com o peito livre e a página se ergue em direção aos hospitais Só as palavras de desejo crescem Uma lâmpada se acende. Um corpo se levanta: vai! * À noite, Neblinas soltas no espaço envolvem cigarras e flores da manhã sedentas O latido de um cão atravessa longe e o verso incerto não morre nunca Percorro a rua da memória focada em outro dia Leve mão ligada à letra se faz presente Vogais soam próximo ao dedo indicador Na tecla presa aos tons baixos sussurro algo inaudível (arrasto a folha do poema no ch...

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Rio, 27.04.2020 Manhã morna de outono! Em meio a um enxame de emoções, limpamos e limpamos muito tudo. Alguns lavam com detergente até os alimentos. Sairemos deste momento  mais paranoicos que nunca! "Tememos um grande temor"!* E recupero, aqui, algo do estilo da prosa grega, presente no Evangelho segundo Marcos, para dizer do medo que nos ultrapassa neste momento. Na Espanha, ontem, as crianças pequenas foram autorizadas a sair acompanhadas  de um adulto durante 1 hora, apenas. E na Itália as crianças só retornarão às aulas em  setembro.  Ao que tudo indica os vírus daqui pra frente estarão sempre em nosso retrovisor, ou,  talvez, no nosso visor. Aprenderemos a viver entre eles! *Cito: Marcos, 4,41 Da nota do tradutor Frederico Lourenço, onde afirma: "temeram um grande temor": figura de estilo muito própria da prosa grega, mesmo de épocas anteriores". Bíblia. Novo Testamento. Os quatro Evangelhos, p.174 * Na leveza de c...

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Rio, 26.04.2020 Fragmento: A boca escreve sílabas palavras e pedras mas a mão no espaço aberto bem deserto encontra o rosto de um relógio * Inundados por este tempo de coronavírus, só nos resta aguardar.  Sairemos mais fortes, com certeza. No entanto, confesso que as tvs  europeias  me alimentam  com notícias e programas ricos de arte e cultura.  Grazie mille, Merci beaucoup, Muchas gracias! Não suporto mais ouvir em nossas tvs, aqui no Brasil, explicações e suposições sobre a devastadora crise do governo brasileiro em meio a tanto sofrimento! * Na miragem da manhã vi entre as brumas a casa Ainda tenho pressa na caminhada E a matéria dos dias pode ser escrita ou cantada Através dos espíritos na música dos sabiás O que mais importa é a prece que se possa dizer ao mar A nossa casa ainda tem o idioma conhecido Nos dias e noites que nos seguem o inverno traduz A vida construída nos livros em leituras e nas paredes a...

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Rio, 25.04.2020 Mais um sábado dentro de casa. Hoje fiz feijão preto. Cozinhei o feijão depois de colocá-lo de molho na água filtrada durante 30 minutos. E, desta vez, resolvi fazê-lo com o gosto da infância, ou seja, coloquei no feijão, depois de alguns bons minutos de cozimento, alguns pedaços de batata doce. Percebo que cozinhar me retira desta insanidade onde estamos todos inseridos. * De tarde: A casa se mostra igual no entorno das horas que sopram minutos quase nada. Portas grandes acomodam gestos e dão margem aos caminhos de pés diversos. * Morreram, hoje, 446 pessoas de covid-19 no Brasil. E o "superministro" Moro não é mais ministro da Justiça deste governo, desde ontem.

Leitura do poema Vestes e vestígios

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Publico, hoje, dia 25 de abril pela Revolução dos cravos. Dedico aos escritores portugueses este poema que escrevi em 2002. É uma homenagem a Maria Gabriela Llansol. Foi lido pela primeira vez, no "I colóquio Internacional Maria Gabriela Llansol" realizado em Sabará - MG   

Francesco De Gregori – La storia (Pelo dia 25 de abril!

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Nós somos a história!

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Canção do amanhã Há fagulhas e fumaças sob a terra do Amazonas Há muitos índios morrendo no fluxo da devastação Há homens que cantam e comem em mesas fartas Há corações tranquilos. Doce é o mel presenteado às crianças em alguns lares Há jardins secos e permeados de serpentes As mentiras testemunham as janelas de nossos dias Quando alguém me perguntar depois, o que penso deste tempo assim bizarro,                     conseguirei as palavras que me sustentam? Agora, não há leitos suficientes nos hospitais nem alimentos suficientes distribuídos aos famintos Depois levaremos flores aos túmulos? Nas praias lágrimas secarão ao sol Amanhã, só saberemos depois Há santos espalhados nas orações de nossas madrugadas Os sonos interrompidos no frio destes dias cinzas O mar testemunha junto à lua que a sombra é demasiada (Eu te estenderei a mão mesmo que a pedra e a terra venham um dia a nos cobrir!)

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Rio, 24.04.2020 Nesta manhã, escuto o canto alto de um tucano que visita a mangueira grande e repolhuda, perto da janela do quarto de trás. Costuma vir todos os dias há algumas semanas. Observo que, agora, apareceu mais um beija-flor ao redor do arbusto de flores pequeninas. O dia segue intenso de notícias tristes e difíceis de absorver. Não vou comentar as decisões da política avassaladora que nos invade! * Na tragédia dos dias a poesia procura abrigo e apreço. Os gostos os gestos e os milagres somam aos corpos dos milhares de mortos   a infâmia de nossos dias. * Há algo de muito podre no governo brasileiro!

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Rio, 23.04.2020 O sol aquece as plantas na janela e a cena de ontem espalhada nas telas da tv permanece. Na infância em Manaus, vi passar na rua onde morávamos alguns enterros de crianças. Poucos, talvez dois. No bairro de Adrianópolis onde vivíamos estava localizado também um cemitério. Naquela época senti uma emoção tão forte que nunca mais foi apagada: Cantavam e o pequenino era carregado por anjos (crianças com asas carregavam o pequenino caixão de cor azul)! Ontem, as covas de barro em Manaus eram feitas por escavadeiras e os inúmeros ataúdes eram colocados um ao lado do outro, lá no fundo da terra. Ninguém cantava. A solidão da morte em dias de coronavírus se espalha no fundo da terra. * Morreram 407 pessoas no Brasil nas últimas 24 hs. Fiquem em casa!

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Rio, 22.04.2020 Jacques Lacan no Seminário 11, apresentado em 1964 em Paris, falou sobre a "alienação- separação"; conceito caro à teoria da Psicanálise. Construiu neste momento uma encruzilhada: "a bolsa ou a vida", e visava esclarecer a questão da alienação onde estamos inseridos. Hoje, neste momento de pandemia mundial, estamos lançados na questão que toma um tom dramático tanto quanto vital. Repito: "a bolsa ou a vida?" e a questão é desde sempre a "escolha forçada!". Qualquer que seja a escolha, o sujeito perde. Homens alienados no mundo financeiro não querem perder nada, nunca. Estamos participando desta loucura do Mercado! * Quando a Segunda Guerra acabou, um impasse se impôs aos homens daquele tempo. Continuar a vida e esquecer o horror que haviam vivido e, assim, pensar que os dias terríveis se apagariam naturalmente, ou tornar a vida distinta dando uma direção humanista às decisões mais duras e necessárias? Alguns hom...

Leitura do poema "Movimentos" - Coleção Megamíni

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Memórias de uma escritora

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Alguns flashes montados pelo google, que decido publicar de novo nestes tempos de quarentena. Fotos com escritores, amigos e parentes queridos nos últimos 26 anos de vida. Voilà!

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Rio, 21.04.2020 Escrevi: Vou até a noite buscar o escuro Na claridade blanche Olhos amparam sombras e ruídos Sobram devaneios e medos Na distância passos cruzam espaços Ruas de pedras gastas provocam os pés Mulheres idosas circulam pouco   Crianças ruidosas se balançam na infância Sonhos saltam e andam por perto * Comento: Agora que sabemos que temos um "Presidente à moda do Império", após palavras  ditas por  um Ministro do Supremo, p odemos pensar as loucuras presidenciais! * 4 Não há ruídos. O escuro pertence ao lado de fora. Faz calor e a ameaça de  chuva  se  torna presente. Caminho mais atenta aos fatos históricos e às  histórias dos dias.  (Fragmento do livro em andamento) * Hoje é Dia de Tiradentes: o Mártir da "Inconfidência Mineira". Fico daqui pensando que a linda cidade de Tiradentes deve estar vazia. Não é possível fazer a comemoração que há tantos anos é realizada po...

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Rio, 20.04.2020 Acordamos ainda incrédulos com os fatos ocorridos ontem! Escuto longe ruídos de máquinas que trabalham na obra da esquina. Parece que os homens não conseguem aguardar. A morte ronda, e a barca da morte parte todo dia superlotada. Há homens insanos em toda parte! Crianças brincam inocentes na manhã ainda fria com o sol que nasce para todos. Palavras bizarras circulam em bocas alimentadas pela morte. Mais um dia de sustos pela frente! * 3 É branca a casa do Leblon neste espaço largo onde escrevo. Nuvens gordas  não assombram. O calor do outono colabora com a noite parada. Escrevo.  Só os dedos se movem nesta base sólida: teclas negras e energia sideral.  O pensamento vaga. Organiza a mente sem habitar o vácuo. (Fragmento do livro em andamento) * No final desta tarde permanecemos incrédulos. O presidente diz e faz algo insano, e, no dia seguinte, desmente tudo que afirmou, como se qualquer coisa fosse a mesma coisa. Que loucu...

Leitura do livro "A coruja e o fogo "

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Homenagem ao Dia do Índio

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Rio, 19.04.2020 Manhã de domingo, A casa é o pai É a mãe é a terra É o filho e é a pátria * 2 A casa de paredes brancas abre-se em perfume discreto. Distraída, respiro. A casa insiste em alguns pedidos às mãos. Parece querer cuidados mais lentos para os objetos e as plantas. As plantas pequeninas circulam de um pedaço de janela a outro para alçar mais visão. Os livros também se movem neste universo. Alcançam intensas leituras ou pesquisas repetidas. Ontem, a casa se ocupou de lembranças antigas. Vagamos – eu e a casa – por lugares mais distantes. Neste movimento que surge de qualquer lugar, em associações vividas em outras décadas, a casa de paredes brancas não escurece. Um sonho retorna enevoado. Quase um curta metragem que acaba de repente. (Fragmento do livro em andamento)

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Rio, 18.04.2020 Na manhã deste sábado, abro a boca e repito o Evangelho: "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado".                                                                                                          (Marcos, 2,27) Agradecemos a todos os que trabalham incansavelmente, ontem, hoje e todos os dias nos hospitais, e nas diferentes frentes de trabalho essenciais! * A beleza não acaba! Veneza está linda e limpa. (respiro...) Estou a dois passos do mar e não posso vê-lo! * 1. A casa é o dia onde repouso e respiro em meio aos móveis de madeira e  às paredes brancas.  Janelas grandes recebem as árvores como visitas. A água no pote de barro é fresca, e re...

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Rio,17.04.2020 Os idosos são arquivos vivos. Guardam a memória do mundo! * A tarde acontece com as memórias colorindo a escrita. Recupero a presença de Luiz Alfredo Garcia Roza na Puc-Rio, no curso de Psicologia no início da década de 70. No primeiro semestre de 1971 tivemos aulas de História da Psicologia; belas aulas animadas por um homem jovem e de grande cultura. Na época, ele dava as aulas usando um jaleco branco e gostava de andar entre as cadeiras, em uma turma sempre cheia de alunos. Depois, na década de 90, participei de um Grupo de Estudos de Filosofia no qual líamos os Pré-Socráticos e, posteriormente, Platão e Aristóteles. Aulas inesquecíveis que duravam duas horas ou mais durante a noite. Uma vez por semana voltávamos para casa alimentados pela palavra transmitida por Luiz Alfredo a quem presto homenagem e agradeço: Um grande mestre, e um escritor que soube usar o verbo na medida justa   com sabedoria! * Li alguns livros de Rube...

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Rio, 16.04.2020 Choveu na madrugada de hoje.  O silêncio da manhã umedeceu meus olhos enquanto aguava as plantas da janela.  Ontem, morreu do coração o nosso Rubem Fonseca aos 94 anos e, hoje, morreu de  coronavírus Luis Sepúlveda no norte da Espanha, onde estava internado desde março.   Ambos mestres na escrita! * A barca da morte parte muitas vezes e abarrotada de gente, nos últimos dias. E os passageiros são de todas as idades: bebês, crianças, jovens, adultos e idosos. As muitas línguas se mesclam neste embarque repentino e sem muita explicação. Os italianos estranham tantos ao mesmo tempo. Os chineses permanecem em silêncio. Os espanhóis reclamam. Os franceses pedem ordem no recinto. Os americanos dizem que foram enganados pelo presidente Trump. E nós? Qual será o tom de nossas partidas? * Partiu hoje, também, o querido Luiz Alfredo Garcia-Roza. Que alegria ter escutado aulas tão bonitas de filosofia dadas por ele! * Estou tr...

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Rio, 15.04.2020 Vislumbro, com tranquilidade, que o vírus covid-19 nos revelou a nossa insignificância.  Ao mesmo tempo que nos deixou diante de um novo tempo de mundo, mais lento, mais silencioso e menos poluído.  O ritmo de nossas vidas não será mais igual! Precisaremos ficar em casa,  dentro de casa. Retomaremos a importância da intimidade! Vislumbro que a ciência trabalhará de mãos dadas em todas as línguas, e avançará muito. Os homens mais humildes precisarão ser cuidados assim como os imigrantes ao redor do mundo. E as mulheres e crianças deverão ser mais respeitadas em seus direitos básicos. Os homens lúcidos darão a direção aos cegos (aqueles que estão presos na ganância do mundo financeiro)! A Natureza gritará sua festa em pássaros e peixes, respirando liberdade! * Na tarde nublada escuto as panelas soando nas janelas. O governo vai trocar seu Ministro da Saúde. Lastimamos! Vislumbro dias e tempos difíceis para o nosso país: ...

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Rio, 14.04.2020 Manhã de sol, mas as horas, os minutos e os segundos de meu dia não são mais dimensionados como antes. Os cuidados com a limpeza tomaram um tamanho grande demais. Os amigos e os momentos bonitos já vividos, em outros tempos na vida, também! A saudade ocupa um lugar enorme e está sendo sentida de forma exponencial! * Ontem, resolvi aparar o cabelo de meu marido. Já o fiz outras vezes mas, agora, é tudo diferente. Aproveitei e cortei o meu um pouco em função da lua cheia (seguindo o que dizem as crenças populares). Daqui desta casa não consigo ver a lua quando nasce no céu do Arpoador. Sei que está ali, nascendo no mesmo lugar e redondamente linda. Os pequenos gestos e olhares também estão sendo perfumados por algumas saudades raras! * À noite, Comemoro, aqui, ter conseguido tomar a vacina da gripe hoje. Os idosos devem tomá-la. Sinto que a crise do coronavírus me fez idosa em poucos dias! Converso por telefone com amigos, inclusive da França. Tod...

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Rio, 13.04.2020 Amanheceu azul. Azul anil. O dia de hoje já se apresenta anunciando o mês de maio na cor do céu de nossa cidade. O anil é um azul diferente que passeia entre a cor violeta e o azul profundo. Na minha infância, vivida no meio do século passado, as mulheres usavam a trouxinha de anil para clarear os lençóis brancos, quando os queriam mais brancos. Só agora fui descobrir que  a origem do nome provém de um objeto natural, a planta  índigo   que é a fonte do corante  anil , pela etimologia, do  árabe   annir  e do  persa   nil  ( índigo ).  Possui como anagramas: lani-,nial,anil Nas letras de  lani encontramos o elemento de formação da palavra lã. E percebo devagar o texto nos carregando para os dias frios e de inverno! * Depois da Páscoa e, ainda, sob efeito do vírus que agora compõe nossos dias, sigamos: Em diálogo com algumas leituras preciosas (hum... a letra do texto mudou...) Mudamos tod...

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Rio, 12.04.2020 A paisagem vazia                     o silêncio um murmúrio de passagem:                             Páscoa A casa sonha junto a mim Um rosto corre pelo espaço da manhã iluminada e anda devagar na beira das águas do mar Um dia e outro nada idênticos transformados em grandes espaços Leituras e escrita no corpo do texto                                                         a boca, as mãos Vagamos juntos no silêncio na escuta necessária e crítica Momentos novos, únicos Bem perto de ti na clara manhã respiro lento                                       a linha, o ventre a letra no intervalo   ...

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Rio, 11.04.2020 Caros leitores, Permaneçam em casa. Salvem vidas! * Passem a Páscoa em casa. É tempo de solidariedade. A solidariedade salva vidas ! * O outono está instalado entre nós, e chegou junto com o Covid-19. As tardes estão mais frias e meus pés sinalizam a estação neste abril assustador. Vivemos os dias ouvindo os conselhos que trazem a necessidade do uso de máscaras, mas as máscaras não são encontradas facilmente. Vivemos dias de penúria! Mas, assim mesmo precisamos plantar a esperança dentro de nós! * À noite: A paisagem do corpo o grito e o sopro a vida e os gigantes obstáculos No espaço de nossos dias a janela abre a visão com o invisível medo A memória e a linguagem correm em vibrações distintas e cheias de esperança

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Rio, 10.04.2020 Amanhece. Não há ruídos ao redor Um único beija-flor verde circula - flores cor de cereja - distraído brilho esperança Do outro lado do mundo: a bota italiana mais ao norte geme a Grécia lamenta o destino solitário Cuba estende a generosa mão a Espanha chora seus mortos New York respinga e respira Covid-19 No Brasil não há máscaras nem insumos suficientes: os hospitais padecem os médicos temem o pior e o povo precisa de tudo e muito mais * Vou seguir plantando poemas, alguns que recebo por e-mail: Árias Pequenas. Para Bandolim  (Hilda Hilst) Antes que o mundo acabe, Túlio, Deita-te e prova Esse milagre do gosto Que se fez na minha boca Enquanto o mundo grita Belicoso. E ao meu lado Te fazes árabe, me faço israelita E nos cobrimos de beijos E de flores Antes que o mundo se acabe Antes que acabe em nós Nosso desejo. *                      Pedro São olhos covardes ...

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Rio, 9.04.2020 Notas matutinas: Quando estivemos em Lisboa em 2017, compramos um livro precioso: O vol.II da Bíbli a. Novo Testamento. Apóstolos, Epístolas, Apocalipse Tradução do grego, apresentação e notas de Frederico Lourenço. O branco livro de capa dura nos acompanhou a bordo de um voo da  TAP, bem acomodado na mala de mão. A edição da Quetzal se apresenta muito cuidada. Tomei conhecimento   que a ave da América Central - ave sagrada dos maias e astecas, e  símbolo da Guatemala - morre ao ser privada de liberdade.  "Segundo reza a lenda", a alma desta divindade "teria subido  ao céu sob a forma de Estrela da Manhã".  Hoje, a instigante ave de cores brilhantes está sendo ameaçada  em função do desmatamento das florestas tropicais. * As Cartas do apóstolo Paulo com as inúmeras Notas de Lourenço são um presente aos nossos dias! * Morreu em Paris, no dia 6 de abril de coronavírus, o historiador e ...

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Repito uma tradução que realizei em 2011 do poeta Bernard Noël: sábado, 14 de maio de 2011 Um passo em direção ao esquecimento                                                      Bernard Noël O esquecimento do qual falo não é o ato de esquecer. Ele não é um buraco na memória ou na vida, nem mesmo uma falta, nem uma falha do presente diante do passado. Este esquecimento diz respeito ao futuro pois ele é meu esquecimento:  aquele que come até a lembrança do nome. Sabemos que a coisa já esquecida absolutamente como esta que vai ser ou que será são iguais no esquecimento. Às vezes, uma sombra passa no corpo, o atravessa e deixa um frio retornando ao esquecimento. Às vezes, não estou...

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Rio, 8.04.2020 Caro leitor, acorde! Enquanto muitos países do mundo dão as mãos, estamos vendo o presidente americano não se importar com ninguém. Um homem sádico e perigoso. E o nosso presidente se mostra sempre seu fiel seguidor. * Não há muita claridade nos fatos de hoje a janela guarda as sombras com cuidado e o sorriso tem dificuldade de circular entre as paredes desta casa O futuro incerto dentro do armário não tem pressa de dizer mais nada Mostra-se silencioso, discreto, pálido e vacilante Anda pensativo e parece querer gritar aos que conseguem ouvir os cuidados que precisamos ter com as maçanetas, os alimentos, os sapatos e as mãos Nos detalhes e nas ações atenção a todo campo de visão (cuidado! a política pode nos cegar!)

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Rio, 7.04.2020 A escrita me chama no silêncio da manhã. É mais fresca a brisa que entra pela janela. E o ruído da vassoura no chão de cimento - longe - insiste no movimento conhecido: braços em harmonia levantam poeira. No portal do uol lemos que as avenidas das cidades grandes deviam estar fechadas para impedir a movimentação de carros. As medidas ainda não foram apertadas. Sempre há os que não acreditam em nada! * Sem sinais claros os dias se movem de forma mais livre. Comandando nossos gestos nossos pensamentos seguem. O instante também pode ser libertador                                               Uma palavra em murmúrio Um fragmento solto                         O ritmo da respiração                           ...

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Rio, 06.04.2020 Pela manhã escrevo versos, limpo a casa, escrevo. Escrevo o dia de hoje e o de ontem e anoto no silencioso instante as novas regras da casa: limpar bem não só as mãos e os pés mas os pensamentos Viva o sol e o mar que não desaparecem com os sustos e os temores ao redor Usem máscaras naturais como as mulheres árabes e na vertigem desta verdade única saboreio o ontem como se fosse agora! * Há um vinho a beber sob o olhar do inverno no espaço desta sala vazia com a mesa posta e a toalha branca Na claridade simples da vida passa um rio de letras vivas e na língua - entre os dentes - trago para bem perto versos de Anna Akhmátova quando no desespero da Primeira Guerra na boca de tantas mulheres fez soar "um milhão de gritos"! * À noite, somamos aos conselhos sobre o uso das máscaras os excessos que circulam nas vozes de alguns políticos. Difícil conviver com tantos absurdos! Procuremos ouvir mais a OMS, por favor! E vamos permane...

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Rio, 5.04.2020 Acordei com a sinfonia de alguns pássaros. Não lembrei, de imediato, do vírus que assola o mundo. Desfrutei por alguns segundos daqueles sons conhecidos, e, agradeci mais um dia. Aos poucos recordei que sendo, agora, idosa, estou proibida de sair. O respeito aos idosos está completamente fora da ordem do dia (se observamos as palavras intempestivas do nosso presidente). Insisto no gosto de me ver rodeada de objetos idosos, móveis idosos, louças e copos idosos.  Até mesmo meu cabelo cor de prata dá um tom idoso ao meu rosto. Que prazer realizei  ao deixá-lo assim!  * O Domingo de Ramos está sendo vivido em silêncio. Tanto em Roma como em Jerusalém não há ninguém nas ruas. * O silêncio nos encobre neste momento sem voz Assim também nos damos conta dos bons ruídos: uma salva de palmas, os risos ao redor, os passos da ópera e ruas de pedra. O vento balança os cabelos no ventre do dia silencioso o corpo se deixa levar na ja...

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Rio, 4.04.2020 Enquanto o feijão manteiga borbulhava na caçarola de aço e as bolhas de ar  subiam carregadas de aroma, a fome apertava ao extremo com o relógio  da cozinha marcando 12.45hs. Catar feijão, lavá-lo bem e deixar de molho: tarefas que antecederam ao calor do fogão. Paciência e sal temperaram este momento, além de alho,  cebola e azeite.   Bem quentinho e macio encheu os espaços de um almoço no sábado! * Pensando bem, quando este tempo de quarentena acabar vou encher a casa de flores e convidar os amigos queridos para abraçar bem apertado. Ainda não sabemos quando poderemos sair de casa sem sentir medo. Talvez, o tempo desta quarentena deixe profundas  marcas em todos nós. Talvez, até delimite espaços e tempos nunca antes imaginados. Quando a quarentena acabar quero andar descalça por horas e horas sentindo o perfume  do mar. Olhar as estrelas de perto nas noites de Guarapari e mergulhar, várias vezes,  ...

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Rio, 3.04..2020 No meio do dia, sinto o vento quente que chega atravessando janelas. Escuto um vizinho cantar alto, enquanto caminha dando voltas no play: Besame, Besame mucho Como si fuera ésta noche La última vez (...) Besame, besame mucho Que tengo miedo a perderte... (...) * Sim, todos temos medo. E os beijos estão proibidos, por enquanto!   

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Rio, 2.04.2020 Manhã de Silêncio. Traduzo mais um pequeno fragmento de Francis Ponge no livro Le savon/ O sabão: "  É que ao mesmo tempo, neste momento, os sentimentos de responsabilidade e de   culpabilidade humanos, são encontrados - errado ou certo - muito desenvolvidos   nos espíritos. E que isto seja certo ou errado, considero muito admirável e muito   patético."    ( Ed. Gallimard, 1967, p.61) Bastante pertinente para os nossos dias, as reflexões de Ponge em plena Segunda Guerra Mundial ! Aqui, no Brasil, a pandemia do covid-19 abriu um cenário patético. Políticos lentos e perdidos no jogo político, em um momento onde o que está precisando vingar, rapidamente, são os cuidados com a vida e a saúde do povo dentro desta crise. A responsabilidade e a culpa caminharão juntas, certamente. Porém, há os que mostram, além disso, a insanidade em ação!

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1.04.2020 Manhã de abril. Leitor, o sabão nosso de cada dia não nos custa demais. O custoso e raro é lidar todo o tempo com um  invisível vírus! Diante do invisível o homem vive sua pequenez absoluta...