Ficção carioca?

Ficção carioca
                                                   (Rio, outubro de 2008)


(1)
Novembro de 1995.

Um jovem, 17 anos, morador de uma favela carioca, levou alguns tiros. Não só nas pernas. Naquele dia, namorava no muro.  
Sua mãe enlouqueceu.



(2)
Setembro de 1996.

Um jovem, 20 anos, da classe média, levou um tiro na cabeça. Descia a ladeira de uma favela do Rio.
Dizem que fora comprar maconha antes de ir a um show.



(3)
Julho de 2005.

Um outro jovem, 19 anos, irmão daquele primeiro jovem baleado e morto, foi atingido nas pernas.
Demasiada polícia demasiada.
Demasiada miséria.



(4)
Janeiro de 2006.

A mãe destes dois jovens entrou para uma igreja. Agora, ela é nomeada “irmã”.



(5)
Agosto de 1998.

A mãe do jovem de classe média, vencida, perdeu mais um filho.



(6)
Quando foi?
Uma menina de 16 anos foi atingida
na cabeça por uma bala perdida,
ao sair do metrô.
Demasiada polícia.
Demasiada miséria demasiada.
Acontece que perdemos algo sem saber onde nem quando.
Os olhos dobrados desconhecem os fatos.
Por quê?



(7)
Um homem e uma mulher assinaram um pacto
de resistência sem data.
Pouco tempo depois, adotaram uma criança de 2 anos. Origem desconhecida.

Alguns jovens criam suas próprias lendas.
Assim, eles pensam que movem as camadas das circunstâncias que impedem o caminho.  


(*)
Algumas mulheres carregam na face a burka que a sociedade lhes exige.
Outras experimentam fazer apenas a vontade do “mestre”.
As mártires adotam uma posição de mártir.
As que vestem a burka desaprendem o sorriso.


(**)
O essencial, ela disse, depois de alguns instantes,
é suportar.
O caminho aponta a lógica possível?
Na cena carioca névoa.


(***)
Com os primeiros sinais da primavera, alguns vasos de flores despontam sua energia na forma vertical.
As mãos não mais fechadas transportam algo. O corpo na paisa-
gem carrega as pregas e os espasmos musculares.

Não parar! Repito.
A caminhada fixa o ritmo. As coisas chegam e partem. As coisas em excesso.
A xícara de café transborda.
A marcha no ritmo dos versos não pode parar.

Procuro as raízes das palavras.
Alimento algumas ilusões.

O tempo e a repetição
o mais doloroso.                                                                                  




PS: publicado pela primeira vez no Portal Cronópios: www.cronopios.com.br




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