Diário

Rio, 4.05.2020

A manhã começa azul. Céu de maio!
Não posso ver as montanhas ao redor da Lagoa, mas tenho-as na memória 
de muitos meses de maio ao longo da vida, quando ainda morava em Ipanema.
Na rua Redentor, o relógio Oito guardava as horas de todos nós. A família
reunida almoçava e jantava quase sempre na mesma hora. Morei nesta casa por 
mais de uma década até me casar, pela primeira vez, aos 23 anos. 
O relógio Oito voltou a habitar as paredes de minha casa em 2012, depois da morte 
de meu pai. Agora vive silencioso.


*

Morreu, hoje, Aldir Blanc de covid-19.
Muitas palmas pra ele!

"Catavento e Girassol" composta com Guinga é uma das belezas
que a música brasileira produziu!

Salve, Aldir Blanc!

*

A tarde chora mais um de nossos grandes músicos, que parte nesta hora de tanta dor.
Momento difícil.
O "luto" nem tem tempo de aparecer...
Fazer o quê?

Vamos inventar os ritos sem deixar calar nossos mortos!
Quem são os que partem, agora,
sem sobrenome?

Em breve, na vala covid não caberá mais ninguém!

*

Preciso das lembranças de Veneza, com as imagens das últimas viagens que fizemos caminhando por lá, para recuperar a energia e escrever tranquila. Esta magnífica cidade me dá força para acreditar que se uma cidade pode flutuar carregando palácios, praças, monumentos, bibliotecas, pedras, cristais e obras de arte de valor inigualável, posso, de todo modo, também crer que alcançaremos o fim desta pandemia em alguns meses, e muitos de nós não naufragarão.

Passei roupa pela manhã. Varri a casa na parte da tarde. Cuidei das plantas.
Em seguida, escolhi escrever em vez de voltar a fazer o IR que espera a sua hora.







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