Diário

Rio, 8.06.2020

O nosso grande poeta simbolista Cruz e Souza escreveu este belíssimo soneto,
que transcrevo agora:

Acrobata da Dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervosos, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não te despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.


Publicado no livro Broquéis, 1893.


*

Escrevo simplesmente
  :

Manhãs longínquas despertam.
Nossos dias abrem nebulosas esfinges.
Gestos impensados, palavras roucas.
Aguardamos.
Talvez seja possível, talvez!

Um homem morre sem ar no canto
da calçada. Sufoca.
Não grita.
Gritamos nós por ele,
por eles nada mais se ignora.

Por entre sombras
abro minha boca
e quase sem esperança -
mas ainda na ternura -
observo o dia no deserto da manhã.

Talvez seja possível,
e persisto!










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