Diário

 Rio, 27.09.2020


Escrevo:


A primavera geme na surpresa do olhar

Ruídos de motos ao redor fora dos limites suportáveis 

A cidade sem graça deixa passar os vírus que a população carrega ao acaso

Cortada no chão a árvore do Amazonas torna-se tronco de veios vazios

Sem pássaros sem nada a madeira passeia no rio que reúne peixes e barcas

Naquele lugar da árvore centenária o fogo come tudo até as cobras que rolam 

no chão Sem água os jacarés viram carvão

As lagartixas e os ninhos de passarinhos desaparecem

As árvores cortadas fora dos limites aceitáveis - lá no Pantanal - continuam quietas

O carvão negro das fumaças sobe alto e espanta a esperança de todos nós


*

Nota matutina:


Cuidei das plantas e recuperei nos poros - principalmente dos braços - a esperança.

Me envolvi no sol da janela como se fosse um manto precioso. Dourado. Inventei cores

arbustos, flores de terras estranhas e longínquas.No gesto da mão habitei a pedra. E o 

calor chegou rápido. Amanhã e depois de amanhã inventarei estrelas.


*


Nas praias cheias


As marés desenham o tumulto das areias:

cadeiras e barracas de sol misturadas


Não há vento nesta tarde e o poema

quase não respira

(a morte e a dor saltam nas estatísticas)


- Um canto e uma ousadia

Próxima ao mar tão ameaçado

sinto as pernas e as mãos tão frias


O instante de agora revigora

o silêncio interrompido por ruídos

 

 

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