Ainda nesta manhã de junho
1.
Junto a este Rio, que escorre cheio de vírus e virulências,
seguimos levando as sombras de um passado recente.
Não eram assim tão febris as nossas manhãs, nem o medo
juntava nossas passadas.
Ao nascer do sol abria-se, também, a esperança de palavras
e gestos, escutas e silêncios, perfumes e beijos.
2.
Os animais de estimação, os mais companheiros sonhavam
por perto. As portas bem gastas de tantos manuseios não
gemiam nem acumulavam tanto pó. As panelas cheiravam
alto com o sabor do riso e das mãos.
3.
A minha vida de junho não acontece na rua.
Olho e espero.
O ouvido conversa com a visão e pede sigilo.
4.
Não me perguntem muito mais.
Ainda nesta manhã de junho
escuto pássaros.
E a dor das perdas não deixa
muito espaço.
Rio de Janeiro, 15.06.2021
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