Capítulos de uma viagem
(...) Para meu pai
2.
Sim, depois, as cidades surgiam. As cidades corriam pela janela do carro na década de sessenta.
Niterói. Araruama. Iguaba grande e Iguabinha. Barra de São João... e tantas e tão distintas até chegarmos em Macaé e Campos mais à frente.
Em Niterói abastecíamos o tanque de gasolina, e, só em Campos, quase na divisa com o Estado do Esp. Santo outra vez era preciso abastecer. Sempre nos postos conhecidos e mais respeitados.
A memória fica quase branca com as salinas que chegam, rapidamente, pela janela aberta do carro que ainda não tinha ar-condicionado. Naquele tempo, nas primeiras viagens a poeira da estrada era parceira. Entrava por todas as frestas. Mas, as salinas de Araruama, as fazendas de sal eram brancas diamante ao sol. E mesmo em dias de chuva eu me encantava em observar os rodos de madeira nas mãos dos homens descalços a varrer o sal. Usavam um chapéu de palha na cabeça e calças arregaçadas até bem perto dos joelhos: uma pintura em movimento.
Os braços morenos se moviam rápido. Bem rápido.
A paisagem girava gravada nas curvas feitas pelo carro.
E iam desaparecendo devagar deixando comigo a poesia do lugar, e a magia dos gestos entre os grãos mínimos e transparentes no meio daquelas quadras grandes separadas por pequenos espaços de terra.
Janelas
passavam rápido a me mostrar um outro cenário com o verde chegando mais perto.
O cheiro
mudava. E o perfume melado do capim seco ou molhado invadia minha janela,
sempre
atrás do banco do papai. Algumas histórias antigas também surgiam. Memórias e comentários dele com mamãe; algum fato mais remoto da família. As festas no Clube Vitória, os nomeados bailes de formatura etc.
Chegávamos em Macaé e o calor sufocava. A fome ia chegando rápido. Comíamos sanduíche de carne assada!
Muitos buracos na estrada. Interrupções e obras: avisos de homens na pista. Velocidade bem reduzida. Eu conseguia romancear um pouco a vida daquela gente que morava em pequeninas
casas de
madeira. Famílias inteiras trabalhavam e cresciam juntas. Com o café fresco
na mesa e
pão a cada dia. Quem sabe um bolo de milho de vez em quando, ou um fubá quentinho junto com o feijão catado ali perto.
E começávamos a torcer pela chegada em Campos, onde conseguíamos tomar um suco de laranja feito na hora. E, no meu caso, um sanduíche de queijo quente. Até hoje lembro o sabor do queijo fresco ali derretido.
S.R.
Rio, 24.01.2022
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