Rio de Janeiro, 6.08.2022

 Nota triste:

Faleceu, ontem, a importante poeta e tradutora portuguesa Ana Luísa Amaral. 


Um céu e nada mais


Um céu e nada mais - que só um temos,

como neste sistema: só um sol.

Mas luzes a fingir, dependuradas

em abóbada azul - como de tecto.

E o seu número tal, que deslumbrados

eram os teus olhos, se tas mostrasse,

amor, tão de ribalta azul, como de

circo, e dança então comigo no

trapézio, poema em alto risco,

e um levíssimo toque de mistério. 

Pega nas lantejoulas a fingir

de sóis mal descobertos e lança 

agora a âncora maior sobre o meu

coração. Que não te assuste o som

desse trovão que ainda agora ouviste,

era de deus a sua voz, ou mito,

era de um anjo por demais caído. 

Mas, de verdade natural fenômeno 

a invadir-te as veias e o cérebro, 

tão frágil como álcool, tão de

potente e liso como álcool 

implodindo do céu e das estrelas,

imensas a fingir e penduradas

sobre a abóbada azul. Se te mostrasse,

amor, a cor do pesadelo que por

aqui passou agora mesmo, um céu 

e nada mais - que nada temos,

que não seja esta angústia de

mortais (e a maldição da rima,

já agora, a invadir poema em alto

risco), e a dança no trapézio 

proibido, sem rede, deus, ou lei,

nem música de dança, nem sequer

inocência de criança, amor,

nem inocência. Um céu e nada mais.


         Às vezes o paraíso, Quetzal editores. 1998


A poeta traduziu Emily Dickinson em Portugal além de Shakespeare. Recebeu o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Íbero- americana em 2021, onde fez um discurso memorável. 




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