O fulgor do sonho

Há sonhos sonhados para serem escritos. Transcritos. Merecem ser escrituras. Em 2007 sonhei que conversava com Jacques Derrida. Este sonho participa de um de meus livros, assim como algumas escritoras participam de meus poemas com seus nomes próprios transcritos nos versos.

Alguns sonhos são relatados em família, e fazem sentido só ali (junto aos mais próximos, ou ao amado). Porém os sonhos podem deslocar valores do mais familiar porque eles conversam com o estranho!

Há sonhos sonhados que seguem o caminho discreto e íntimo e são relatos levados à análise. Necessitam de trabalho; associações livres se manifestam, os lampejos e relâmpagos da memória os enriquecem e traduzem.

Há sonhos que são esquecidos e quase totalmente deixados de lado. Há os recorrentes e repetitivos da infância, que podem chegar à superfície de forma serena ou não. Todos eles podem participar da gramática de nossa autobiografia mais íntima. Daquela intimidade desenhada também fora do corpo: a intimidade que pede palavra. A que nos deixa com lágrimas nos olhos ou arrepios no corpo.

As passagens que realizamos através dos sonhos nem sempre são líricas. Às vezes são ousadas e se levantam no tempo de nossas vidas de repente.

Pelos títulos de alguns de meus livros faço um desenho com Contornos, Canto de sombras e Pó de borboleta (primeiros livrosque desdobra versos livres diante de "A rara beleza do real" nas ruas do Rio ou no bairro do Leblon e nas igrejas de Diamantina, etc,. Mais adiante, meus versos ganham novos tons e paisagens em Outonos, montagem incompleta, Gradiva, verão ou, em Livro das areias e O Riso do inverno por onde reverberam histórias vividas e alguns sonhos-poemas desde a escrita de "Vestes e vestígios", dedicada em 2002 a Maria Gabriela Llansol.

Deslocando versos e ecos poéticos transcrevo poemas do Livro das marés, onde "um sonho perambulou pelos lençóis" e o recolhi naturalmente. O fulgor de "Jardim de sonhos" no poema que afirma "Sonhos mancos me visitam de vez em quando:/ bougainvilleas rosas lilás/ rascunham o traço/ rente ao muro verde de ervas" trafega pelo feminino brilho que um sopro de poema pode dizer.

Acendi um outro sopro para lembrar que:


"Vemos véus  negros e fantasmas 

Talvez velas acesas espalhadas nas escadas

Igrejas tocam sinos. Badaladas ligeiras


Ele diz: "Esta vida de vergonhas estranhas!"

No caminhar das saias

Vejo homens de chapéus


A bela Helena de Troia

E Santa Isabel; inteligências femininas divinas

Rodeadas de mulheres (muitas molheres)


Tão despedaçadas em roupas de brumas

Sonhando dias de lírios 

Quais serão os fantasmas do porvir?"

(...)


Prevendo ou quase estes dias tristes de tantas guerras com mulheres e crianças assassinadas em Gaza, e muitos soldados morrendo na guerra da Rússia com a Ucrânia escrevi ainda:

"Século XXI"


1.

Árvores frias

Árvores desnudadas

E a terra gelada

Os homens de paises vizinhos

se desconhecem

se estranham

e se matam 

(...)


2.

Tanques e bombardeios 

Soldados de farda

Soldados gelados

Olhares alados

Soldados com medo

Choramos

Sonhamos?

(...)


Assim, as letras escritas em versos mostram ao leitor estas afinidades misteriosas por onde

"Com graça/ abre-se asa/ a criação"


Na página 172 encontramos uma "Nuvem poesia"


"Uma nuvem poesia; angustia diminuta e rara

persevera na sombra de palavras etéreas.

Toda uma vida sonhada em tons graves

na paz de alguns dias. Não me perguntem quantos.


Do ar entre insetos e árvores altas,

alguns minutos foram de silêncio

nas muitas formas que propagam sonhos. 


Nem sempre se diz a sombra ou o silêncio tão completamente.



Rio de um outono que chega aos poucos, com sonhos a sonhar em 2024.

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