Anoitecer neste diário que se escreve:

Espero ter nesta semana alguns encontros. E ao menos uma ou duas alegrias. Inesperadas alegrias, e bem-vindas! Este não é o nosso inverno mais feliz! Morreu um amigo e, agora, parte um primo aos sessenta e sete anos. Abracei jovens e idosos da família na Missa de Sétimo dia, ontem.

Observo a vida passando muito rapidamente. Apesar de tudo, eu me permito escrever o próximo livro bem lentamente. Tudo me parece sem cor neste agosto sem graça! Não suporto nem o vaivém das calçadas do bairro.

Sob o olhar circunspecto do abajur, a semana está só começando. As ideias se multiplicam e escrevo os minutos do dia dentro de casa. Uma conversa qualquer e o gesto rápido de José podem ser assuntos que tocam à escrita.

Encontrei outro dia, na sombra da gaveta, a rosácea de prata que comprei em Assis. Em 2016 ela andou pendurada em um fio de couro no meu pescoço. Uma joia simples que comprei das mãos do artesão naqueles dias impressionantes, quando perambulamos pelas ladeiras deste lugar mágico demais. O tempo estava frio e cinzento. Os sinos tocavam muitas vezes por dia, e embalados pelas ladeiras caminhamos sem nos cansar. Todo o resto de nossa viagem pela Itália aconteceu dentro desta magia que Assis nos trouxe. 

Hoje a noite começa agora, aqui no bairro do Leblon. A maré alta soprou ventos frios na hora do almoço. Tomou devagar toda a areia da praia, e empurrou quem por lá chegava para as calçadas. A vida empurra a vida e a morte chega para alguns, rapidamente demais. Régis ou Haroldinho não esperavam partir tão cedo!


Rio de inverno estendido, 2025 


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