Resenha: Livro da Rainha

 Resenha

REBUZZI, Solange. Livro da Rainha. Isabel de Portugal. Rio de Janeiro. 1ª ed. Rio de Janeiro: 7Letras, 2024

          O Livro da Rainha da escritora carioca Solange Rebuzzi coloca em cena um tema presente na História e na Literatura Portuguesa desde o século XIV. A Rainha Santa Isabel (1271-1336) teve sua vida e seus feitos narrados pela primeira vez em uma biografia hagiográfica anônima, mas que pela riqueza de detalhes foi atribuída a seu confessor, Frei Salvado Martins, Bispo de Lamego. Esta biografia, manuscrita por longos anos, na biblioteca do Mosteiro de Santa Clara, foi publicada pela primeira vez no século XVII, com o título “Realçam da vida da gloriosa Santa Isabel Rainha de Portugal” e serviu de apoio à elaboração de outros discursos biográficos bem como de crônicas, como por exemplo, a Crônica de D. Dinis, de Rui de Pina. A partir da versão do século XVII, acompanhada de notas explicativas, José Joaquim Nunes edita esta obra em 1921, sob o título “Vida e Milagres de Dona Isabel, Rainha de Portugal”. São estas narrativas, editadas e reeditadas ao longo do tempo, que nos dão notícias sobre esta Rainha cuja trajetória de vida deixou marcas indeléveis na história e na cultura portuguesa e, por isso, continua inspirando obras ficcionais de autores contemporâneos, através de narrativas híbridas entre ficção e História.

         Solange Rebuzzi, do lado de cá do Atlântico, também se sentiu seduzida pela história dessa Rainha Santa e lançou-se nessa aventura de dimensões e proporções incomensuráveis de ler biografias, hagiografias, crônicas medievais, romances e compêndios históricos para escrever o “seu” Livro da Rainha Isabel de Portugal. Ainda que movida por certa nostalgia própria de nossa modernidade, em que nos confrontamos como uma grande demanda do passado e uma renovação de preferências por temas que pareciam superados ou marginais, o interesse de Solange Rebuzzi fixa-se na força do caráter da Rainha Isabel. Caráter marcado pela generosidade e pelo amor, capaz de torná-la, em um tempo em que nem mesmo as Rainhas tinham poder de interferir em questões do Estado, uma mensageira da paz e da concórdia dentro e fora do Reino de Portugal, concorrendo assim para o equilíbrio peninsular medieval. Certamente, por isso, tornou-se uma lenda. Lenda que passou a fazer parte da História com “H” maiúsculo. Uma História que alcança o século XXI pela escrita de uma autora brasileira que enxerga nos passos desse Rainha a firmeza da vontade e das ações de uma mulher, muito mais do que de uma rainha ou de uma santa. Uma mulher inteligente e perspicaz para a época em que viveu.

          Isabel de Aragão, após o casamento com D. Dinis, o Rei lusitano, em 1282, tornou-se Rainha de Portugal. Era uma mulher culta e muito religiosa, por influência da corte aragonesa, um dos principais centros culturais e espirituais do Mediterrâneo, onde nasceu. De inteligência viva e curiosa desde a infância, tinha conhecimentos de línguas, música e até de princípios da arquitetura, da medicina e da enfermagem. De sólida formação moral, não se descuidava das orações por saber que em seu tempo, Deus era o princípio e a meta a alcançar. Dedicava-se, como boa cristã, a aprender e ensinar. Desde muito jovem, ciente do que era possível alcançar para uma mulher de sua condição, preparava-se como se conhecedora fosse de sua nobre missão pedagógica e religiosa. Esposa, mãe, educadora de dois filhos da realeza portuguesa, Constança e Afonso IV -- futuro Rei de Portugal -- irradiava seus talentos femininos entre as aias, camareiras, as damas da corte e entre todos quantos habitavam a Casa Real ou por lá circulavam. Apesar do carisma da Rainha, Solange Rebuzzi não separa a história de Isabel da história de D. Dinis. Ao dirigir seu olhar para o Rei, a autora do Livro da Rainha reconhece nele “um homem culto e dedicado a deixar sua marca neste reino de diversas formas [...] hoje reconhecido como o fundador da Universidade de Coimbra, que abriu os horizontes da cultura em Portugal” (p. 52). D. Dinis também se notabilizou como trovador e uma autoridade política respeitada por todos na Hispânia. A conjunção de sensibilidades do casal real tornou possível várias construções, que reivindicadas por Isabel, tiveram a aprovação de D. Dinis. Entre as quais, são citadas pela autora, o Hospital de Leiria, o Hospício dos Pobres, junto dos paços de Santa Clara e o Hospital de Velhas Inválidas, em Coimbra. Criou várias albergarias como as de Estremoz, Alenquer e Odivelas, além das Gafarias de Óbidos e de Leiria e o Recolhimento para as Desgraçadas de Coimbra. A benemerência da rainha Isabel, caridosa, exemplar e empreendedora, portanto, ultrapassou a intimidade dos muros do Palácio Real e chegou aos pobres e desvalidos de Coimbra, em especial às mulheres, amparando-as em suas dores invisíveis e reabilitando a autoestima feminina tão desprezada na Idade Média. A compaixão de Isabel para com os pobres era fruto de uma educação religiosa, baseada nos princípios franciscanos, que a fazia distribuir “pães ou moedas de ouro com a mesma simplicidade” (p. 83).

          O livro de Solange Rebuzzi organiza-se em duas partes, separadas por belas e significativas fotos de José Eduardo Barros. As fotografias apresentam-nos imagens artísticas da Estátua da Rainha Santa Isabel em uma pose de firmeza e altivez, cujo enquadramento nos sugere o silêncio e a solidão da Rainha, em Estremoz. A estátua parece pairar nas nuvens de um céu azul. Há vistas da cidade de Coimbra com destaque para o Rio Mondego, a Universidade e para as ruínas do convento de Santa Clara-a-Velha, mandado erguer pela Rainha Isabel.

         Na primeira parte do livro, a autora coloca em destaque a formação cultural e religiosa de Isabel, no reino de Aragão e a construção da vida de casada e de mãe de Isabel, Rainha de Portugal. Na segunda parte, os capítulos são dedicados aos atos de altruísmo e aos traços de santidade da Rainha, auferidos em suas ações humanitárias de cunho franciscano e em sua leituras canônicas, acompanhadas de orações, acentuadas após a morte de D. Dinis, em 1325, quando “um outro horizonte se abriu para a rainha: obras de caridade, orações e gestos de amor seguidos e incansáveis” (p. 93). Viúva, a Rainha viaja até Santiago de Compostela e despoja-se de inúmeras riquezas. A partir da morte de D. Dinis, Isabel dedicou-se definitivamente aos pobres e às obras religiosas e alcançou traços de santidade descritos por alguns autores que se ocuparam da história de Isabel, a chamada Rainha Santa.

         Solange Rebuzzi não se empenha em decifrar os mistérios dos milagres e até das curas obtidos pela santidade de Isabel, nem mesmo se refere a eles com ironia. Pelo contrário, trata-os com respeitos, mas prefere a via de considerá-la uma “persona caritativa nem só para os mais próximos, porém sempre presente, generosa e construtiva” (p. 100). Constrói o hospital para cuidar dos doentes e o Mosteiro de Santa Clara para acolher as mulheres desamparadas. Também ela, depois da morte de D. Dinis, se recolhe ao Mosteiro onde “vestiu o hábito da Ordem de Santa Clara, envolveu a cabeça nos alvos panos de linho e cingiu a cintura com uma corda nodosa” (p. 93). Ainda que não tenha proferido os votos, para ficar de posse e administrar sua fortuna em favor dos necessitados, o vestuário das clarissas não foi abandonado até o final de sua vida.

          O livro de Solange Rebuzzi não é uma biografia, não é um romance, não é um tratado histórico ou hagiográfico da Rainha Isabel. É um estudo baseado em outros autores que escreveram de diferentes perspectivas sobre a Rainha de Portugal, beatificada em 1516 e canonizada pelo papa Urbano VIII em 1665. Ao recuperar a história de vida e o contexto histórico de que se viu cercada a Rainha Isabel, Solange Rebuzzi, através de questões lançadas aos leitores ao longo do texto, pretende trazer para o nosso tempo, igualmente marcado por guerras, injustiças e desavenças familiares e públicas, tal e qual acontecia na transição dos séculos XIII e XIV da Europa medieval, a força de uma mulher inteligente, empreendedora e pacífica que protege a família e os reinos das discórdias e ampara as mulheres dos abusos e violências do patriarcado. Solange Rebuzzi, autora experiente, já com uma longa lista de livros publicados, acredita na leitura e na escrita como uma espécie de milagre e, assim, tornou a vida desta rainha mais um texto singular com o poder de colocar diante de nossos olhos a memória de Isabel de Aragão, Rainha de Portugal, devotada ao sagrado e ao próximo, mas também habilidosa em solucionar questões político-sociais, convidando-nos a seguir, em nosso cotidiano, o virtuoso caminho da paz e da concórdia, em direção à justiça social.


Fátima Oliveira

Doutora em Estudos Literários pela PUC/Rio

Professora Titular aposentada pelo CEFET- Rio


Comentários

  1. Obrigada, querida Fátima pela sua bonita resenha ao meu livro! Um trabalho de escrita que exigiu muita pesquisa e leituras diversas, de fato!
    Resolvi publicá-la aqui no blog, porque temos sempre leitores de diversos países.

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  2. Eu que agradeço a confiança de resenhar seu livro de pesquisa tão refinada.

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  3. Esta resenha foi um pedido do Régis Bonvicino para ser publicada na Sibila. Infelizmente, ele faleceu antes de publicá-la.

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