Paul Valéry: Degas dança desenho

                                                  Duas bailarinas descansando, 1896.

Eu não o li de uma só vez. Fui sorvendo devagarzinho.
Confirmo a importância da apresentação do texto de Valéry, que pede ao leitor, logo no início do livro, uma leitura vagarosa.
De fato, são as reflexões do poeta em recordações singulares sobre o artista de inteligência rara que me levaram a vagar da dança ao desenho em meio às surpresas que o escrito estabelece.
Com a embriaguês que caminha do langor ao delírio e oscilando entre “uma espécie de abandono hipnótico” e “uma espécie de furor” a dança se mostra nessa escrita. Entre as fotos em p/b distribuídas nas páginas do livro, editado pela CosacNaify (Portátil), encontramos razões para dar ao nosso olhar um espaço desejante.
O desejo é o de desvendar o Universo da Dança e ainda o de apreender os “atos” de movimentos vertiginosos ou paralisados que a pintura de Degas nos faz realizar pela escrita de Valéry.
A bailarina é uma mulher que dança?
Degas a descreve como “cúpula de seda flutuante”, (...) “longas correias vivas percorridas por ondas rápidas, franjas e pregas que dobram; desdobram; ao mesmo tempo que se viram, se deformam, desaparecem.” (p.33)
A imagem bem pode ser pensada como metonímica, pois reconhece a parte (de um corpo) pelo todo. Mas, outro relato descreve também que:
“Não há solo, não há sólidos para essas bailarinas absolutas; não há palcos; (...) Não há sólidos tampouco em seus corpos de cristal elástico, não há ossos, não há articulações, ligações invariáveis, segmentos que se possam contar...” (p.33)

Devo repetir que é o movimento elástico do corpo feminino – aqui visualizado na leveza absoluta da dança das bailarinas da tela de Degas – que se estrutura no texto do poeta. O que o-olho-vê-a-mão-escreve. 
A poesia se encontra aí nesse caminho entre o olho e a mão:
Intervalo vertiginoso e belo tanto quanto intraduzível, pois simplesmente pisca!
(e, algumas vezes, na ponta dos pés de uma bailarina que descansa)!

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