A prática da escrita: uma longa caminhada
Escrever para mim é uma experiência. Escrever é parte do
viver. E é um ato, um ato de escrita. Neste ato experimento um saber fazer/savoir faire que se desdobra a cada
livro e a cada poema ou texto em prosa que nasce no processo de criação.
Escrever conforme gosto de afirmar me ajuda a respirar. O
mundo ao redor silencia no momento desta entrega. A angústia ganha novos
contornos, pois o trabalho é, primordialmente, realizado com a memória em seu
viés mais guardado. Há uma elaboração que se faz aos poucos, portanto, e, que
pode até mesmo me surpreender em um momento a
posteriori, pois nunca o trabalho é feito exatamente com o mais conhecido e
o mais sabido. Sempre me envolvo em camadas desconhecidas. Talvez por isto,
algo ficcional esteja sempre presente no texto. Há entre o sonho e a realidade,
nas camadas que se montam, as partes distintas do viver que vão compondo a vida
onde estamos inseridos. É um espaço de luz e sombra que é recortado a cada vez,
e onde se instalam as dores do mundo também.
Um passo e outro... respiro, e neste passo alcanço uma parte
da história de fato vivida, até mesmo esquecida, que a escrita enlaça com a
memória recente e traz de volta a partir de alguma palavra, alguma
sensibilidade. A poética andarilha-personagem que sigo construindo no ritmo das
letras – a que tudo olha e muito vê com as pupilas abertas -, testemunha em versos,
em prosa ou fragmentos um mundo veloz, violento e em movimento constante. Ela
faz na viagem com a linguagem um trabalho atento à letra, onde o Tempo e a
Memória estão inseridos na cultura. Leio o poema “Na língua materna”: (p.76 do
livro Outonos)
1.
Imagine a solidão de um
estrangeiro.
Um árabe. Um chinês.
Um norueguês. Qualquer um.
Um país. Um lugar. Qualquer.
Os olhos. As mãos. Um café.
Um canadense. Um brasileiro.
Um alemão. Um.
Qualquer lugar.
(...e aqui não se fala inglês!)
2.
Um árabe procura um café. Está
tudo fechado.
Um alemão deseja um interlocutor.
A francesa se queixa do calor.
E o norueguês não encontra o
caminho de casa.
As praias estão poluídas.
O diálogo não se faz, em bora a
mímica ajude.
Copa do mundo? Onde? Quando?
Começou. Vai começar. Acabou.
Talvez, a hospitalidade seja o
fruto da resistência!
3.
Nenhum oceano a ver,
apenas um mar negro de óleo!
Pássaros enlameados:
negro petróleo.
No movimento do tempo
não vejo nada claro.
Em solidão...os homens.
Qualquer um.
Um.
Experimento escrever ‘fora’ de uma norma que nomeia estilos e
mistura experiências. Essa voz escrita guarda um lugar aberto e endereçado ao
leitor, sem se nomear no mais conhecido do meio literário, por exemplo. É mais
perto, talvez, de um trabalho de “colagem” onde, um corpo a corpo com a matéria
e com a língua trazem o mundo ao redor com as sujidades aonde estamos vivendo.
O texto múltiplo se escreve nesta experiência. A escrita vai ficando com um tempero ensaístico
e mesmo com dados históricos e frutos de pesquisas, nos relatos de situações observadas
ou anotadas ou, que, até mesmo foram vividas em uma viagem. Ou seja, os traços mais
autobiográficos surgem em meio a poética e a ficção que se desenvolvem.
O livro Estrangeira, por
exemplo, é fruto de uma experiência de Doutorado sanduíche e abriu este caminho
em 2010. Traduz a luta de grafar a escrita da experiência vivida em Paris mais
especialmente, mas, também, estabelece a dificuldade de escrever a ‘estrangeiridade’;
este ‘fora’ que guarda um lugar pouco nomeado. No caso deste livro, um lugar de
pesquisa mais ensaístico e ficcional de certa forma. Ele é o meu primeiro livro
escrito assim, com uma mélange de
textos: momentos de pesquisa em bibliotecas, notas de estudos ou detalhes da
vida de uma estudante estrangeira, e muito mais (poemas e colaborações à
revista eletrônica paulista Cronópios).
Leio : Estrangeira, p. 14
Dias curtos. Inverno.
A sensação térmica padece. Os agasalhos ajudam a manter o calor corpóreo.
Manhã escura.
Saio a pé. Respiro.
O ar gelado penetra.
Olho o mundo ao redor habitado de estrangeiros.
Jovens e velhos andam para todos os lados.
Noto a pressa que aumentou.
Posso senti-la nos músculos, nos ossos.
Escuto os ruídos e percebo que os barulhos abafam a visão.
Há africanos envoltos em panos de algodão colorido.
Calçam sandálias grossas com meias.
(...)
A sensação térmica padece. Os agasalhos ajudam a manter o calor corpóreo.
Manhã escura.
Saio a pé. Respiro.
O ar gelado penetra.
Olho o mundo ao redor habitado de estrangeiros.
Jovens e velhos andam para todos os lados.
Noto a pressa que aumentou.
Posso senti-la nos músculos, nos ossos.
Escuto os ruídos e percebo que os barulhos abafam a visão.
Há africanos envoltos em panos de algodão colorido.
Calçam sandálias grossas com meias.
(...)
e p. 31
... o céu ainda é cinza
neste Printemps des poètes que começa
Não sei bem em que língua
écrire
Na minha? Lingua-mãe
que se mostra lenta e
firme, ou na língua
que força
passagem?
... o céu ainda é cinza
neste Printemps des poètes que começa
Não sei bem em que língua
écrire
Na minha? Lingua-mãe
que se mostra lenta e
firme, ou na língua
que força
passagem?
espaço de ligeiro silêncio
p. 67-68
Notas tomadas em 25.07.05
na Bibliotheque Saint-Geneviève
A porta diante de mim possui o número 13 bem no meio do portal
(...)
O capítulo é denso: "La situation d'un langage poétique"
Anoto traduzindo:
A poesia escapa ao verbo ser, ela é a própria figura da linguagem.
Leio com vagar.
O capítulo é denso: "La situation d'un langage poétique"
Anoto traduzindo:
A poesia escapa ao verbo ser, ela é a própria figura da linguagem.
Leio com vagar.
O Livro das areias publicado em 2012, uma narrativa/un récit, nasceu com um pouco da história vivida na infância em Manaus em uma gama de fatos e leituras que se somam ao texto que trabalha inclusive com sonhos (sonhados ou ficcionados).
Quatro partes compõem o livro:
“os ruídos”, “o gosto”, “a utopia”, “os corpos” e sustentam conversas com
o leitor. São formas muito diversas as que encontrei para falar fora da
cronologia habitual e nas brechas da memória de leituras – também
atravessadas pela ficção. Leio, p. 51.
Escrever uma chama negra. Pequena.
Deixá-la descansar.
Mas, o que é essa distância entre um começo
e seu fim?
(o texto me pergunta)
(o texto me pergunta)
– Uma situação dolorosa que não
conseguimos prever. Procuro responder.
De início, é do objeto perdido que estamos
falando também.
O trabalho mistura os Tempos da vida e o Movimento entre
prosa e poesia estabelece-se na narrativa. Há muito trabalho com a língua e há
espaços de silêncios. Este livro veio um pouco depois que o ensaio O idioma pedra de João Cabral, com o meu
estudo de doutorado, foi publicado na coleção Estudos da ed. Perspectiva em
2010.
Leio no Livro das
areias, p. 14:
De muito longe escuto nas leituras que desvendo que o sopro da aridez do estrangeiro não pode ser ignorado.
Mas, o que é o estrangeiro? Alguém ou alguma coisa que nos faz perceber o nosso lar, em movimento, e nos coloca diante da língua materna como se fosse um lugar mais habitável?
E, p.31
Estado de escrita.
Ontem hoje. Lanço palavras e recupero nestas páginas escritas alguma coisa que não sabia que sabia?
(...)
Sem silêncio. O dia vai se repondo com as palavras que voltam à minha mão.
Se eu não as agarrar ao redor dos dedos que firmam esse grafite, nunca saberei o que o voo dessas letras desenharia.
Em “um enodamento de letras” e tempos, logo em seguida,
escrevi Gradiva verão, que saiu em
2013 pela pequenina editora Lumme de S. Paulo, a mesma onde publiquei a minha
tradução de Francis Ponge em Nioque antes
da primavera e o livro Traduzir
testemunhar Francis Ponge. Ambos são trabalhos do meu posdoc com estudos sobre
tradução em língua francesa na UFF.
Gradiva pode ser reconhecida como uma
narrativa mais autobiográfica, ou mesmo como poesia porque, “aquela que
passeia” e que é a personagem que nomeia o livro, anda pelas ruas de Pompéia e
tb as da cidade do Rio de Janeiro e se mistura às minhas próprias vivências;
uma figura feminina em deslocamento. Este livro de fato me ajudou a viver “um
luto” depois de uma doença grave. O real
aqui posso dizer, agora, invadiu o texto de forma delicada. Leio p. 49,50
1.
Um enodamento de letras.
Onde encontrar o texto em meio a uma abundância
Biográfica que coloca a memória em movimento
desordenado?
Como mover os pés para além das margens do texto?
A sandália havaiana é verde e coloca uma distância
suave com o chão.
O tronco do corpo respira com delicadeza.
Há um fluxo novo que arde na extremidade da virilha
Esquerda sem compreensão. Às vezes incomoda.
(...)
A tela do texto se monta e encontra os arranha-céus.
Desce para a margem do mar.
(...)
A escrita que se enoda ao real estabelece um caminho quase à
margem, onde “respira” nas linhas e nas letras do corpo, neste “mínimo pontual”
que se estabelece no texto poético.
Dois livros nasceram, mais recentemente, na viagem com a
escrita: Oito noites em Veneza (em
2016) e Assis de Francisco/Francisco de
Assis (em 2017).
Ambos são narrativas de viagem, são ensaísticos e são poéticos.
Além de trazerem uma pesquisa pessoal sobre a história das cidades que também
os nomeia: Veneza e Assis, e, ainda sobre o(s) habitante(s) que por estas
cidades circularam em outro tempo da história, os escritores que a escreveram: Philippe
Sollers, Henry James, Joseph Brodsky, George Sand e seu amor na época o poeta
Alfred de Musset, e muitos outros. Os pintores: Tintoretto, Ticiano, especialmente
o músico Vivaldi no caso do livro Veneza,
e Francisco de Assis e outros franciscanos que partilharam da vida de
Francisco no caso de Assis de Francisco, nos
sec XII e XIII.
Leio na p. 59 de Oito noites em Veneza.
Há algo muito especial que permanece, mesmo que só por alguns dias, quando estamos sobre as águas.
O pensamento corre em fluxos contínuos e ativa a memória. A leitura dos quadros e das cores que se montam sobrepostas.
Não há tempo a perder. Somos seres estranhos em cima de uma superfície móvel.
(...)
Há algo muito especial que permanece, mesmo que só por alguns dias, quando estamos sobre as águas.
O pensamento corre em fluxos contínuos e ativa a memória. A leitura dos quadros e das cores que se montam sobrepostas.
Não há tempo a perder. Somos seres estranhos em cima de uma superfície móvel.
(...)
Estes livros têm caminhos que incorporam não apenas alguns personagens
antigos e conhecidos em nossas vidas, trazendo-os de volta, como sabemos que
acontece para uma grande parte dos escritores, mas dão a ver um texto íntimo e
ao mesmo tempo ficcional que vai construindo de forma particular o trabalho com
este desenho biográfico e autobiográfico. Com isso, além de conseguir
apresentar uma escritora, define-se no novo enquanto incorpora o velho, o já
conhecido, que é aqui relido e redesenhado.
Nas nuances de um manuseio quase artesanal deste escrever a
vida, no trabalho de linguagem reconheço também a influência de Francis Ponge, em seus nomeados
proêmes, em trabalho com a língua em
ato. Uma forma de escrever poemas - diários- de - viagens; prosa e poema ao
mesmo tempo.
Porém, sou brasileira e, além disso, trabalho com a psicanálise.
No Brasil os lugares são mais estandardizados. E é delicado fazer misturas. No
entanto, sustento o meu desejo e a minha escrita se fazendo obra. Fui leitora
surpreendida de textos de diferentes teóricos nos meus estudos literários e de
psicanálise. Repito que a leitura e descoberta do texto de Freud “Delírios e
sonhos na Gradiva de Jensen”, no início de minha vida adulta, me marcou muito.
Comento que na Puc-Rio, a universidade carioca onde fiz o curso de psicologia
no início da década de setenta, lemos Freud em seu estudo psicanalítico sobre o
texto literário de Jensen, um dos primeiros estudos psicanalíticos-literários
escritos por Freud. E, me lembro que permaneci durante vários dias habitada por
este trabalho de tanta beleza. Poético e enigmático!
Mas, voltemos aos últimos dois livros:
Leio em Assis de
Francisco:
p. 11 a 13
1. Assis
A piccola Assis está encravada em um vale da Úmbria, rgião central da Itália. Chega-se a esta pequenina cidade de carro, de de ônibus,ou de trem. Alguns experimentam alcançá-la a pé. (...)
Chegamos no dia 2 de outubro de 2016.Quase no meio do dia de um domingo. O ritmo da pequena cidade se impôs de imediato.Há vasos de flores nas janelas da residências de pedra, que aprecem ainda manter um ar etrusco nas fachadas.
O chão íngreme e cortado pelas grandes ladeiras traça o percurso.
(...)
Hoje, quando a realidade cruel e desesperada apresenta um mundo perverso e violento beirando as atrocidades que foram cometidas na Idade Média, procuro a história da vigilante vida de Francisco, buscando trazê-la para mais perto de nós.
(...)
p. 27 a 29
1. Assis
A piccola Assis está encravada em um vale da Úmbria, rgião central da Itália. Chega-se a esta pequenina cidade de carro, de de ônibus,ou de trem. Alguns experimentam alcançá-la a pé. (...)
Chegamos no dia 2 de outubro de 2016.Quase no meio do dia de um domingo. O ritmo da pequena cidade se impôs de imediato.Há vasos de flores nas janelas da residências de pedra, que aprecem ainda manter um ar etrusco nas fachadas.
O chão íngreme e cortado pelas grandes ladeiras traça o percurso.
(...)
Hoje, quando a realidade cruel e desesperada apresenta um mundo perverso e violento beirando as atrocidades que foram cometidas na Idade Média, procuro a história da vigilante vida de Francisco, buscando trazê-la para mais perto de nós.
(...)
p. 27 a 29
(...)
7. Com as oliveiras em toda parte
Os pés seguram pequenos frutos vivos.
De cor quase verde se misturam com as folhas.
O toque nas pontas dos dedos
saboreia e advinha o tom do vale
e dos azeites da região.
Azeites trufados
Azeites frutados
Com pimenta
e fé.
Leio em Oito noites em Veneza:
p. da 11 a 13. 14 (parte) e15
Manhã de 30.03.2015
O mar balança algas negras e o perfume de sal sobe às narinas. Escuto restos de línguas do norte da Europa. O ruído do motor do vaporetto se impõe firmando um espaço de espanto. Um cansaço repentino incha os pés vestidos em meias e botas curtas.
(...)
Veneza é onde os rios se inclinam em direção aos canais, e as nossas pernas caminham em desníveis inesperados. Investida pela fé de cada um, Veneza ainda desfruta de um raro tempo sem automóveis ou veículos barulhentos (exceto pelos ruídos de alguns barcos a motor que passam de vez em quando, e mais intensamente pleo Grande Canal).
(...)
As grandes ou piccolas pontes de Venezia nos dão os degraus do sonho.
Os olhos bem abertos aproveitam. O pensamento acelera na história que volta no tempo.
(...)
Em Veneza as paredes falam! Elas nos dão notícias dos homens de outros tempos e de muitas histórias.
(...)
Henry James, Nietzsche e até mesmo Rousseau escreveram Veneza. Rousseau chegou em Veneza em setembro de 1743. Era secretário da embaixada da França. Ele escreveu:
Conservami la bella.
Che si m'accende il cuore.
Com as pedras ao redor compondo meus textos desde os estudos com João Cabral de Melo Neto no ensaio O idioma pedra de João Cabral firmou-se a caminhada da minha escrita.
Manhã de 30.03.2015
O mar balança algas negras e o perfume de sal sobe às narinas. Escuto restos de línguas do norte da Europa. O ruído do motor do vaporetto se impõe firmando um espaço de espanto. Um cansaço repentino incha os pés vestidos em meias e botas curtas.
(...)
Veneza é onde os rios se inclinam em direção aos canais, e as nossas pernas caminham em desníveis inesperados. Investida pela fé de cada um, Veneza ainda desfruta de um raro tempo sem automóveis ou veículos barulhentos (exceto pelos ruídos de alguns barcos a motor que passam de vez em quando, e mais intensamente pleo Grande Canal).
(...)
As grandes ou piccolas pontes de Venezia nos dão os degraus do sonho.
Os olhos bem abertos aproveitam. O pensamento acelera na história que volta no tempo.
(...)
Em Veneza as paredes falam! Elas nos dão notícias dos homens de outros tempos e de muitas histórias.
(...)
Henry James, Nietzsche e até mesmo Rousseau escreveram Veneza. Rousseau chegou em Veneza em setembro de 1743. Era secretário da embaixada da França. Ele escreveu:
Conservami la bella.
Che si m'accende il cuore.
Com as pedras ao redor compondo meus textos desde os estudos com João Cabral de Melo Neto no ensaio O idioma pedra de João Cabral firmou-se a caminhada da minha escrita.
Na p. 17 a personagem,
a jovem mulher caminha...
2.
A personagem pode ser uma jovem mulher que
caminha seu passo, qual Gradiva,
a jovem
que caminhava em Pompéia em 79 d.C.
Não havia tempo de pensar no corpo. Havia
o corpo. Havia tempo.
Meus pés, agora um pouco distanciados do chão,
procuram outro ângulo.
Deslizo na cadeira com as mãos já mais cansadas
dessas teclas que pedem muito.
Os pés de Gradiva não se cansam.
(...)
Fim
PS. a pedido publico texto apresentado na Universidade da Sorbonne, Paris3, em 21 de março de 2018. Os textos lidos foram amplos, aqui apenas os cito na ordem em que foram apresentados.
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