Diário
Rio, 13.05.2020
Era uma vez...
Não há ruídos. O escuro pertence ao lado de fora.
*
(Repito esta postagem, agora, ainda em viagem com Virginia Woolf)
Era uma vez...
Hoje é o Dia da Abolição da Escravatura e, também, o da aparição de
Nossa Senhora
aos três irmãos; os pastores da pequena aldeia nas
proximidades de Fátima.
(Não ignoro as narrativas do Evangelho nem a história da vida
dos Santos!)
*
Em diálogo com Virginia
Woolf
Uma manhã dentro de casa. Estou ainda debruçada na leitura do
livro de Virginia Woolf. Palmo a palmo desvendo detalhes desta voz que ressoa e
se estende sobre si mesma. Seguro as delicadezas que nascem no texto.
A escritora ainda jovem, aos 27 anos, enquanto viajava pela
Itália pela primeira vez escreveu rostos distintos inesquecíveis e atmosferas impostas
pelos hábitos da vida nas pensões simples, em almoços ou chás aos quais se
entregou com intenso interesse, além das cidades de Perúgia, Siena e Florença de
telhados “manchados de castanho” e “persianas verdes”, com primaveras e outonos
se deixando desenhar pelo olhar.
Não escondo o meu sorriso. Algumas vezes faço anotações
discretas a lápis na margem do texto de Virginia. Longas frases correm no papel
fixando a mão da escritora por um tempo longo, cumprindo um desejo que, também,
conheço e que me agrada como estilo.
Já estive nestas mesmas cidades italianas quando tinha 34
anos na década de oitenta, e lembro bem que carregava uma máquina fotográfica
recém comprada. Na feira de Perúgia, pensei clicar o rosto de uma senhora idosa,
mas não o fiz. Ali estavam as marcas do tempo mais definidas que havia visto
até então. Os vincos dobravam-se uns sobre os outros em ângulos retos. Os ruídos
das vozes multiplicavam as cores italianas dos vestuários em muitas gamas felizes.
Penso que era a primavera de 1984.
As lembranças revolvem a mente de forma rápida.
Meu pai subia e descia as pequenas ruas desvendando tudo, e
nos esquecia no caminho.
Caminhei lenta como faço até hoje em viagem pela Itália.
Sinto que passo a fazer parte da paisagem muito rapidamente. Já voltei a estas
cidades duas outras vezes. As cenas não são tão diferentes assim. As cores
continuam lá. As mulheres idosas mostram seus vincos sem pudor algum. As cores
dos vestidos são festivas. E os homens não usam mais seus trajes escuros nem
portam chapéus.
Rio, 23 de janeiro de 2019.
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