Diário

Rio, 5.05.2020

O Sabão

               Roanne, abril de 1942

Se eu massageio minhas mãos, o sabão espuma, rejubila...
Mais as deixa complacentes, flexíveis,
afáveis, maleáveis, mais espuma, mais
sua raiva torna-se volumosa e nacarada...
Pedra mágica!
Mais forma com o ar e a água
cachos explosivos de uvas
perfumadas...
A água, o ar e o sabão
encavalgam, brincam
de pular carniça, formam
combinações menos químicas que,
físicas, ginásticas, acrobáticas...
Retóricas?


Há muito a dizer a propósito do sabão. Exatamente tudo que
ele conta dele mesmo até a desaparição completa, consumação do
sujeito. eis o objeto que me convém.

                                                                Francis Ponge, Le Savon. Gallimard, p.27

Fragmento do poema traduzido para minha Tese de doutorado em 2005, durante
sanduíche em Paris. Publicado no livro O idioma pedra de João Cabral. Perspectiva,
2010, p.97.
   
*

Nota delicada:

Acabei de saber que o nosso talentoso escritor Sérgio Sant'Anna está internado desde domingo,
e aguardando resultado pra covid-19.
Força Sérgio!                                           

*

É lá do lado do mar que a brisa sopra gaivotas
Alto é também o assovio do vento em dias de vento sul
A sílaba sai pelo canto da boca
                                          e avança com força
(dias rudes de esperança frágil)


Lá do outro lado do mar
as montanhas aguardam as nuvens gordas
                                                         a palavra mansa
e as mãos dos ausentes
(muitos partem, agora!)

*

Onde nossas mãos não acordam o desejo facilmente, quando quase tudo já foi dito pelos lábios do entardecer, na rapidez deste silêncio grave ainda assim esperamos o amanhã.







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