Diário

Rio, 18.07.2020

Ilusões

Este país parece impossível.
Caminha de lado e descarrilhado;
ao lado do vírus balança.

As ondas do mar trazem pinguins no inverno
vestidos em casacas longas. 
E um elefante marinho surfou no Arpoador.

Vôos de gaivotas à beira-mar e água adentro.
Trocamos não mais as cartas 
mas mensagens rápidas e etéreas.

A luz que nos invade os versos 
tem um clamor de vida sofrida.
Os brindes de vinho pertencem ao ontem.

O passado está longe em um lugar mais verdadeiro.
Impossível trazer pra perto os rostos mais amigos. 
O corpo do amado parece cansado de tarefas domésticas.

Neste tempo impossível, imprevisível e louco
no caminho do lado vivem as ilusões remotas.
 

*
 
Notas diversas:

1.
Impressionante e único este momento de pandemia nos EUA.
Colocou à mostra o "calcanhar de aquiles" do governo Trump. 
Só não vê quem não quer.
As palavras vazias caem no escuro da miséria desgovernada e banal. Porém, vou arriscar afirmar que, ao mesmo tempo, assistimos ao desmonte da era Trump. Veremos, em pouco tempo, os efeitos disto no Brasil e no Mundo. Aguardem...

2.
Aqui, continuamos pasmos com o nosso presidente: insano e defensor dos horrores.
Antes de empregar todos os nomes que não dão conta de o nomear, 
respiro...


*


À noite descanso cansada desta cidade
contudo continuo envolta neste país quase irrespirável
Estou aqui a escrever estas letras críticas perto do mar que não mais visito 
Sentada diante da longa mesa de madeira
dentro de um suéter rosa escuro de lã
Hoje é sábado e não tenho mais o mar a meus pés 
A cidade é perversa e estranha 
Os homens circulam de máscaras ou sem
e "quase" acreditam que tudo de pior já passou


Aqui neste país tão estranho
está pesada demais a vida 
Já sabíamos que os homens não queriam saber das árvores
nem dos rios nem dos índios que habitam florestas distantes
O tempo pinga e os minutos respingam no nosso chão
enquanto o mundo não apaga as razões de tanto desamparo
A luta maior e a angústia mais conhecida
circulam bem perto do povo
É inverno e amanhã é domingo de novo


Parece banal e profético 
mas há um mundo dentro de nós
Não tenho mais o mar nem as estrelas 
e no fundo a sensação nem é primeira
A casa onde mora o amor e os abraços
está contida na paisagem 
nesta luz clara e sensível que a praia
abre aos olhos das andorinhas
As mãos guardam do poeta o olhar 




















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