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Diário, 31.03.2022

 O corpo reclama A mente acesa acomoda excessos e  os prejuízos desnecessários  O mundo transborda sofrimentos * Eu caminhei entre as estrelas Entre o frio e as casas antigas Entre os perigos das noites escuras caminhei E na fraqueza do corpo Eu me senti sozinha Mas disse em voz alta e serena (E disse ao mar e ao vento): - Tudo que caminha comigo importa e vamos continuar no caminho * As noites longas ou as ruas de terra e pedras largadas no chão se misturam Ali não vi senão lamentos Ruas tristes e vazias Onde a guerra insana levanta abandonos * Pensei de tudo que vejo agora: "Andei tanto pra encontrar isto? E as crianças que nascem onde a luz parece ter partido?" Mas nos caminhos ainda é dia E os homens moram primeiro dentro de seus próprios corações  * Das cinzas e das brasas um lugar há de vingar na esperança 

Rio de Janeiro, 30.03.2022

 Diário  O mês de março escorre entre as páginas abertas de um tempo sombrio E aos poucos se desfaz 

Diário, 29.03.2022

 Alguns escritores e poetas viveram a Segunda Guerra Mundial. Eles a escreveram de dentro.  Vicente Huidobro relatou os últimos dias desta guerra em Berlin: Berlin ist wirden, escreveu. Virginia Woolf descreveu bombardeios em Londres ao redor de sua casa. Escolhem as noites de lua cheia, ela constatou enquanto permanecia escondida na cozinha, por horas a fio, junto com o marido e alguma empregada da casa.  Quem estará a escrever esta guerra insana entre russos e ucranianos? Daqui, alinhavo estes dias tristes demais. * Mulheres fazem alimentos. Poucos. Quase não há água pura.  Bombardeios apertam espaços antes amplos.  Olhares nublados e o tempo escorre na fumaça.  Fumaça negra Fumaça branca  Tudo vira fumaça 

Diário, 28.03.2022

 Em minhas mãos o livro novo para momentos de revisão.  Diário de um tempo indeterminado II  Em breve.

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  Parc Montsouris, junto à Cité Universitaire. Paris na temporada de pesquisas de 2005. Final de verão. 

Diário, 27 de março de 2022

 Uma alegria genuína  Única e multiplicada  E bem compartilhada  Assim com a mão pousada  sobre os seios e  os pés soltos no sofá  a mulher escreve à lápis  seus poemas companheiros  * Fazer a métrica  Esquecer a métrica  Deixar de lado a matemática das letras e escrever livre com o verde das folhas e a terra pulsando no verso  em ritmo

Diário, 26 de março de 2022

 Empalideço E será que esta palidez  é efeito de uma guerra? Diante do espelho de meu tempo vejo homens que gostam de 'brincar' de guerra. Empalideço. Vejo janelas partidas  e vidros estilhaçados espalhados  pelas ruas da Ucrânia.  Empalideço. E vejo milhares de mulheres em fuga e homens com fome e frio obrigados à luta. E vejo crianças de olhares adultos e bebês que tudo entendem sem nada entender.  Empalideço. 

Rio, 25 de março de 2022

 Das paredes altas da casa  escorrem sons e lamentos. Escuto Bach. Não são os lamentos dele. Mas os meus; antigos de tempos vividos. Passam voando  e se despedem. No ritmo mais lento  o piano solfeja - dedo a dedo - o violino arqueja. Lá fora um helicóptero  tonto circula entre o azul. A respiração amplia sons de passarinhos passageiros.  A música se acende em passos ligeiros: piano e violino  voam juntos nos dedos da manhã. 

Rio de Janeiro, 24 de março de 2022

 Século XXI 1 Árvores frias Árvores nuas E a terra gelada  E os homens de países vizinhos  se desconhecem se estranham  e se matam  Em nome de quê? Fome medo  e  a terra gelada não abraça a vida nem  ninguém. 2 Tanques e bombardeios  Soldados de farda Soldados gelados Olhares alados Soldados com medo Choramos Sonhamos? 3 Mulheres perdem filhos Mulheres perdem pais irmãos amigos Mulheres perdem companheiros. 4 A noite negra e sem nada abafa a dor de mais um dia de guerra. 5 Onde estamos? É este mesmo o nosso século?  

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    Amanhece na cidade do Rio na orla da praia!

Escrevo:

 Qual o rosto desta guerra? O rosto do agressor? O rosto de uma mente assassina? O rosto da ganância? E o de milhares de mulheres e crianças  que se abraçam em fuga.  Um país está sendo invadido: Assim tão brutalmente, antes da primavera  européia. Antes que as flores brotem do outro  lado do mundo. Antes que os canteiros se mostrem vestidos de cores. O rosto da solidariedade  não desaparece. Enquanto bombas mortíferas  destroem vidas  e cidades inteiras.  Alguns trens trafegam e levam passageiros para a vida.

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Diário

 Poesia  Lançadas as sementes  Brotam rosas entre meus seios.

Diário

 A Virgem peregrina de Fátima chegou a Lviv, na Ucrânia.  Milhares de pessoas rezam pela paz no país. A Igreja de Lviv ficou completamente lotada. As imagens filmadas pela TV portuguesa traduzem a comoção deste povo com a Virgem de Fátima.  REZEMOS! * Poema para todos nós  Na nossa vida os espaços de silêncio  entre sons perdidos são como coisas paradas ou mortas São momentos sem palavras  Algumas mulheres e crianças esperam  gemem e choram Do outro lado do poema ainda pode haver algum sossego Sim, eu vou escrever e ler o que somos nestes dias tristes  nestas noites de lua redonda durante a madrugada fria; o que vemos nos olhos turvos de muitas  mulheres idosas 

À tarde:

 Diário  Temo por Kiev. Temo pelos jornalistas que ainda estão em Kiev. Temo pela vida dos que lutam pela soberania da Ucrânia. Temo pela democracia. Temo pela falta de respeito à vida. Temo por todos nós!

Rio de Janeiro, 20 de março de 2022

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 Outono mais uma vez!                      A Vida é poesia.                      E  nunca destruição!

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         Hoje é sábado!

Na tarde solar

 Antes do outono chegar, matam um país assim, tão derepente. E ficam de costas e não se responsabilizam? A crueldade desta guerra insana continua  sendo um espelho de nossos dias. Quando esta guerra acabar, estaremos fatigados  de violência. Fatigados mais uma vez. Depois da Síria, do Iêmen e da Ucrânia entre  outros. Com os vocábulos ausentes e a boca seca. E sem escrever os ruídos. Diário,  aqui é o espaço que me abriga. É o lugar da letra límpida e sôfrega. Na leveza de um olhar ou na dor destes dias sem claridade. No lugar que lança palavras. Mas quem as  ouvirá?  Quem poderá perceber os ruídos da letra?  Depois da chuva ou depois que as luzes se  apagarem será sempre um espaço de princípio.  Na mansidão do abraço.  Na mansidão  de um devir.

Rio de Janeiro, 16.03.2022

 Diário  Visito a Ucrânia em sonhos. Não quero mais viajar para os EUA  nem para a Inglaterra. Nunca mais. (E não me  perguntem o porquê). Quero viver um pouco na Itália.  Amo as terras por onde circularam meus  antepassados: Clarice e Giuseppe.  E quero continuar a visitar em sonhos  a Ucrânia viva e a Grécia antiga. Além de habitar em terras portuguesas de  Sophia. Sim, a poeta. E de Isabel, a rainha santa.

A noite chega escura

Escrevo:  Olena, a bióloga ucraniana disse: Só nos resta resistir. Em momentos duros Só nos Resta resistir. * (A TV italiana iniciou seu jornal à noite com violinos tocando o hino da Ucrânia ) : Um cenário apocalíptico se abre em cores Novos ataques Uma crise gigantesca. A maior desde a Segunda Guerra? *