Na língua materna
Em duas vozes:
- Eu falo português. Algumas vezes falo francês. Experimento falar espanhol. E gosto do som que sai de minha boca quando falo italiano. Meus avós paternos eram filhos de italianos. Mas sou brasileira e falo português do Brasil. Gosto da palavra solilóquio. E me interesso pelo som das palavras como se fossem notas musicais. A palavra arrivederci me faz sorrir.
- O quê?
- Sim, e fico confusa com a palavra CIAO, tchau.
- Ah! Mas você não pode traduzir isso. Algumas vezes é preciso entrar na língua, entrar na língua do outro.
- Para acontecer algo assim é preciso viver o esquecimento. Ou melhor, é preciso tempo. É difícil. É impossível. Para que isso aconteça você deve deixar a língua materna.
Rio, 2 de fevereiro de 2010. Depois de ter lido Olivia Rosenthal. E na experiência de tradução de poemas de Francis Ponge. No intervalo de uma língua a outra. No abismo dos significantes intraduzíveis.
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