Poema de Natal

Cenas de casa                                                                  

 (Rio, dezembro de 2005)


A delicadeza é da ordem da leveza.
Ítalo Calvino nos esclarece que a palavra relê o traço visível da coisa invisível, a coisa ausente, como algo frágil e jogado no vazio.
A linguagem nos permite chegar perto das coisas (presentes ou ausentes).
É neste movimento com a linguagem que insisto em levá-los...



1
Nas asas do avião ainda duas poltronas disponíveis – as últimas?                                                           
Hoje ou ontem – estado de partida
Partiremos: 23 de dezembro  
Direção: Estado do Espírito Santo.
Localização
:
orla    do   mar



  
Há em alguns homens uma sombra que deixa os olhos longos
- molhados da chuva fosca –.
São sombras escuras de momentos já vividos e congelados.
Se algum evangelho faz soar o vento
com a nudez do pensar
na sala da casa de José
as muitas lâmpadas atestando
o impensável da luz  
(na árvore de Natal antes iluminada por Elza)
proclamam o véu da noite

(silêncio)

Onde as estrelas do mar?
                             e as conchas?

(silêncio)

A pedra se abre em pedra
Há alguma maneira de alcançar uma estrela?

(nas águas do silêncio)

O borbulhante céu de pingos luminosos   
fixa o tempo
não deixa passagens fáceis
Perdi o caminho naquele jardim de urtigas
Não há entre as sombras
nenhum vestígio nas paredes
                                                     entradas e saídas da vida
                                                     - cedo ou tarde –
     
                                              (permaneço prisioneira do texto)



2      
Lá fora o muro continua tingido de
branco

Reencontro ao lado da varanda
as flores primeiras em ninhos de visões ausentes
Sílabas
retornam das cenas
de outras noites 
Natal:





P
I
ii<  >ii
N
H
E
I
iii<<<<.<<<
R

ooo<<<<<<<<.<<<<<<<
O


CHÃO



Hoje, o que a poesia ainda consegue traduzir
talvez
possamos chamar do esforço continuado
de um viver onde a angústia e o trabalho
verbal expõem tais questões

Viver é possível?

(silêncio)


noites de   
Natal
:

leveza e movimento





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