Amantes de livros



O olhar atravessa estantes múltiplas e multiplicadas. O entusiasmo se faz nítido. Olhar. Tocar. Encontrar o livro procurado. Decidir comprá-lo ou não.
Na livraria Compagnie que fica bem perto da Sorbonne, no final de março deste ano, fui interrompida em minhas pesquisas livreiras pela fuga de um homem que saía correndo com livros na mão sem pagar por eles. Na sequência, assistimos a decisão do jovem da caixa de segui-lo e conseguir, depois de muito correr, ter dois livros de volta. O suposto ladrão-leitor deixou os livros no chão... e, continuou fugindo de seu perseguidor que voltou satisfeito para seu trabalho trazendo os livros consigo.
O assunto não durou muito. Os comentários sobre o fato se restringiram aos dois vendedores. Mas, a cena permaneceu na minha cabeça por ser uma repetição, pois há quase três anos assisti a mesma cena na mesma livraria. Talvez, até vivida pelos mesmos personagens.  Quem sabe até o tal homem seja um frequentador da livraria, e amante de livros que não compra, mas furta quando consegue fazê-lo.
Comentamos ao longo do café que tomamos na sequência do dia, que o homem nem tão jovem procede da mesma maneira sempre. Entra, desce as escadas da livraria, olha revistas, escolhe os livros e sobe como se fosse pagá-los. Mas, ao chegar no andar de cima, olha em torno e corre em direção à porta. Como um raio desaparece nas brumas da esquina próxima.
Montar a cena deste dia não me dá trabalho. Nas duas vezes que a assistimos estávamos em posições estratégicas, ou seja: eu em pé no andar de cima escolhendo livros e José, no andar de baixo, olhando as revistas literárias que ficam por lá. Ambos vimos o tal amante excêntrico de livros nas duas vezes.
O assunto se esgotaria rápido, mas o nosso interesse pelos livros não. Nesta mesma tarde, fomos até a Biblioteca Nacional da França em meio a uma chuva fina e um vento gelado.  Alcançamos as escadas de acesso firmando o guarda-chuva próximo ao corpo, com os braços sustentando também casacos grossos. As escadas nos deram a direção da porta de entrada. Olhamos livros belos na livraria que se encontra neste espaço raro. Comprei um caderno e um livro relembrando o tal amante de livros, que deixara livros no chão ao ser perseguido pelo jovem vendedor da livraria da rue des écoles.
O olhar de um colecionador leitor de livros pode ser acompanhado de movimentos impensados, nada comedidos e até mesmo infratores. Um belo personagem se apresenta neste homem alto e magro que se veste de calça jeans e uma camisa qualquer, e, que coleciona, inclusive, livros roubados escolhidos em gestos rápidos e paixões desmedidas.




Rio de Janeiro, 25 de abril de 2018.


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