É possível

 Sim, é possível que eu tenha deixado de lado algumas leituras em prosa

para me dedicar mais a ler e escrever poesia, neste momento turbulento do país.


Não nos surpreende

a verdade dos muros

a voz da cidade

as mãos se unindo

(e mais uma vez)


É possível que a voz dos poetas, depois da catástrofe, soe estranhamente.

Na verdade, a longa paciência que nos alimentou as manhãs foi plantada

há muito tempo em colinas altas e geladas de outras partes do mundo. 


É bem possível que lendo poesia nossas feridas sangrem.

Mas, certamente a poesia nos encontrará em recantos guardados, onde

a nossa língua nos aquece.


É preciso falar de poesia: 

Mandelstam, Maiakóvski. 

Até o fim do século

uma e outra vez [e eu]

não sabia de que modo, juro,

 expulsar o possesso... 

Anna Akhmátova, talvez soubesse.


*


                                                                            Rio, de um (a)gosto estranho,

                                                                                                                    2022









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Em 11.09.2025