É possível
Sim, é possível que eu tenha deixado de lado algumas leituras em prosa
para me dedicar mais a ler e escrever poesia, neste momento turbulento do país.
Não nos surpreende
a verdade dos muros
a voz da cidade
as mãos se unindo
(e mais uma vez)
É possível que a voz dos poetas, depois da catástrofe, soe estranhamente.
Na verdade, a longa paciência que nos alimentou as manhãs foi plantada
há muito tempo em colinas altas e geladas de outras partes do mundo.
É bem possível que lendo poesia nossas feridas sangrem.
Mas, certamente a poesia nos encontrará em recantos guardados, onde
a nossa língua nos aquece.
É preciso falar de poesia:
Mandelstam, Maiakóvski.
Até o fim do século
uma e outra vez [e eu]
não sabia de que modo, juro,
expulsar o possesso...
Anna Akhmátova, talvez soubesse.
*
Rio, de um (a)gosto estranho,
2022
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