Rio, 24.08.2022


Personagens de agora


No campo escuro da língua 

 entre os dedos: 

lágrimas, soluços, mentiras e solfejos.


Ardem as manhãs pouco claras.

Entre ruídos de pássaros soltos 

o vento sopra assanhado.


Os personagens de agora

assombram

e demoram demais a partir.


Não deixem em branco estes dias.

Há muito a comentar. As estrelas 

conturbadas se escondem.


Os senhores devem dizer o que pensam

enquanto de boca aberta ouvimos.

A música do planeta está desafinada.


Em regiões mais prósperas 

apreciam matar.

O problema maior é a vergonha


que nós, pequenos humanos 

sofremos, obrigados por viver

este tempo de tantos desperdícios. 


*


Vida e espetáculo juntos.

Sem ensaio algum.

O corpo corre e envelhece.

E reflete tão pouco.


*


Nas cenas de nossos dias

é difícil não naufragar.


*

Prefiro contar estrelas.

Viver do brilho de sonhos densos

passageiros.


*

Aqui, onde tudo parece possível, 

as árvores precisam florir. 





 

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