Domingo
Traduzo, livremente, um pequeno fragmento do livro de Jean-Marie Gleize, 2022.
Dans le style de l'attente
Les presses du réel
collection Al Dante
1. Na claridade da tinta
Escrevo estas linhas em Tarnac. Cinza sobre cinza, atrás do muro.
Sabia que isto não seria meu nome. Mas o nome de muitos.
Sobre muitas pedras. No final do declive, à direita da aleia, aqui.
E em muitos outros pontos do espaço que não conheço.
Não há pois nome próprio.
Vejo o que ele significa ou mesmo o que o nome recopia. Letra por letra, a palavra igreja. Estou pois contido nesta palavra. É aí que habito! Permaneço, eu fico aí.
(pg.11)
Partir da beira do bosque.
Seguir este antigo leito de riacho. Quase visível.
Passar sob os baixos galhos dos amieiros.
Caminhar sobre a grande via de erva verde que corre entre as folhas.
Pisar as urtigas e as valerianas.
(ele recita e recopia quatro vezes esta infância)
"eu recopio várias vezes minha infância da qual não sei nada"
A tinta está mais e mais clara.
(pg.12)
Este cujo nome se apaga tinha comprado este livro em 31 de maio de 1928.
Era a última chuva da primavera.
Todos os dias na primeira hora do angelus, ele abria seu caderno de estudante,
anotava a data e o nome do santo do calendário.
Escrevia uma ou duas páginas de sua vida, breve meditação
quotidiana em tinta azul. Era como uma prece.
Então começava a leitura de seu livro.
Sobre seu caderno negro ele tinha escrito estas palavras:
"não estamos (nunca) habituados"
Ele via agora sua morte na cor das coisas.
(pg.13)
Para meu amigo, Jean-Marie

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