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Fragmento do livro do poeta Fourcade traduzido

Dominique Fourcade no livro Citizen Do , edições P.O.L. (2008). Post-Scriptum * Citizen Do não é um livro, digo, mas a reunião de textos, e só percebi que podia haver aí uma razão para reuni-los depois de tê-los escrito. As circunstâncias da vida (ou seria isso os encontros próprios à escrita? um texto chamou por outro?) me fizeram escrever, sucessivamente, sobre um primogênito que me foi muito caro, um primogênito ‘mal morto’ se fosse disso (“a marcha dos mortos mal mortos”) – depois, muito rápido em direção a uma neta, nós a imaginamos, facilmente, adoravel e vulneravelmente viva. Ao final, eu inundava em uma luz mosqueada. Dappled ligth. E não me foi preciso muito tempo para compreender que Char poderia ser lido como uma narrativa para Saskia, enquanto que Chansons et systèmes pour Saskia eram para escutar como canções para René Char. Mas sabemos bem que esta razão é factícia, e mesmo ardilosa, pois não se escreve sobre ninguém, e para ninguém – somente para si. H...
Dominique Fourcade nasceu em Paris em 1938. É poeta e crítico de arte. Escreveu muitos livros de poesia. Com o primeiro deles, Épreuves du Pouvoir (1961), confirmou a certeza de querer viver da escrita, embora também gostasse muito de futebol e rugby. Mas com a publicação de Ciel pas d'angle (1983), considerado um trabalho importante, viu-se lançado no vazio, fora das formas conhecidas. Citizen Do (2008) é seu último livro publicado, e contém o prefácio para o catálogo da exposição do Centenário do poeta René Char, na Biblioteca nacional da França, e um conjunto de canções para Saskia, sua neta. Segundo o autor, algumas páginas do livro trazem o início de sua vida literária que convive com outros momentos de seu caminho.

O poeta Dominique Fourcade

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Carta sem endereço (material inédito)

Escrevo aos mortos da família? Um tio de olhos claros avesso a largar o cigarro. E foi tudo bem rápido no estilo das escapadas que ele costumava dar até a esquina para fumar escondido! Fumava muito. Um soldado foi morto no domingo ao usar um explosivo em um lugar onde muita gente passa todos os dias no sul daquela cidade. Onde mesmo? A minha avó cozinhava em panelas separadas para cada filho (em quatro fogões esquentava o amor). Com biscoitos de nata, de cerveja ou nas broas de milho (pequeninas) suspirava aos netos com os guardados no armário da sala cheios de açúcar-cristal. O jovem negro me olhou nos olhos enquanto passava ao lado do carro. A vida nem sempre é trágica. Mas parece que as pessoas, cada vez mais, gostam de usar armas. Nas linhas desta suposta carta na falta da infância sem lugar ainda tenho fome de escrever cartas. O correio continua chegando regularmente e diferente de outros tempos agora escorrega em baixo da porta da sala (o que nã...

Homenagem a meu avô, Augusto

Dois poemas de Augusto Estellita Lins PEQUENAS COISAS Pequenas coisas que tão pouco falam - um gesto, o calor duma perfídia, um tal perfume, aquele aí sufocado e no que alcança ver, muita estranheza. No vórtice do sonho, de repente um vir à tona, lúcido, retoma o fio da razão, logo mergulha de novo o outro em mim, eu no vapor. Falar de amor, só louco já varrido, pobre coitado no desvão da vida ou eu, manga bichada de quintal. Calçada, a rua do amor tem, sarjeta, redes de esgoto, encanamentos, postes: num deles, uma lâmpada queimada. NO BANCO DO JARDIM No banco do jardim público - existia um jardim. A velha tricotando. Lia o jornal o aposentado. O bebê vagia no carrinho azul. Onde um jardim havia Hoje é garagem, mil carros o ocupam. Tudo é poeira e óleo, nenhum bebê chupa o dedo. O aposentado, olha-se na lupa do tempo: no alazão, a noiva na garupa. Ainda há feiticeiras em cada roca fiando o fio da morte. Dá-me em troca de uma gota d'água, pedalar minha broca que corrói o fígado e u...

Mais um poema inédito

A carta (A carta acompanha a viagem, assim como as palavras passeiam em nossos ouvidos desde há muito definidos a partir das coisas ouvidas em meio aos ruídos.) A carta enviada na ausência de uma pessoa querida tem a proporção da falta? Onde a árvore dorme ao vento as folhas escrevem em verde raro (claro ou escuro) no tronco duro e sólido. Tem a proporção da falta, uma carta? Consegue dizer da ausência? Uma mulher angustiada : a língua escreve a garganta quente e procura dominar rios e chuvas. Mas, a palavra e seus ruídos - e teclas e dedos duros – satisfazem a silhueta de um dia sem memória. Qual a proporção de uma falta? Vestida de pedra ou inundada de águas claras uma mulher caminha seus dias. Uma vez mais... A chuva. A terra escorregadia da ladeira. Algumas nuvens cobrem o céu. E, de lado, voltada um pouco mais para frente ela se mostra encoberta pelo dia que passará. A carta A mulher Uma vez mais... O vestido A lã A linha O sangue A nuvem O papel (dentro do enve...

Iberê Camargo e seus escritos

Iberê Camargo: mínima nota sobre Gaveta dos guardados Fotos em p/b abrem o livro e mostram o artista em obra. Repentem-se as fotos. Repetem-se os gestos de Iberê: Cigarro na mão esquerda. Palheta na mão direita. (Nunca ao mesmo tempo). Conversa e escrita. Escuta. Transcrevo pedaços do texto: “Entendo que a vida é uma caminhada. Os ciclistas de meus quadros são caminhantes, no fundo, sem meta. São seres desnorteados.” P.31 “Os motivos de meus quadros são visões do cotidiano, que transporto para o mundo das lembranças sob a inspiração da fantasia.” P.81 Um esboço autobiográfico conclui o impressionante livro, editado pela CosacNaify em 2009. “A verdadeira pintura não é uma narrativa de fatos, mas o próprio fato.” P. 136. “ Meus personagens são elementos de linguagem, cujo significado está no contexto da obra.” P. 137

Pintura de Iberê Camargo

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Homenagem

O neto de Sigmund Freud, Lucian Freud, é hoje reconhecido como um importante pintor que retrata "a carne" da vida em sua complexidade. No cenário de seu ateliê, em temas recorrentes, estão um sofá, uma cama de ferro, uma pia, seu cão, paredes manchadas de tinta... e corpos. Lucian nasceu em Berlim em 1922, mas mudou-se para Londres em 1934 buscando, junto com sua família, escapar das perseguições nazistas. Aos 88 anos é um pintor que retrata gordos ou magros, estranhos corpos, como se fossem carne em decomposição.

Lucian Freud, o pintor de nosso século

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Lucien Freud um grande pintor de nosso tempo! Expressou o real do corpo sem pudor, e a força de seu traço radicaliza o sofrimento humano, tanto quanto expõe as dobras da nossa existência.

Livro das areias

14. No Tarumã quase não havia praias. O ‘Banho’ (como se costumava dizer) pertencia aos índios da tribo dos Tucanos, e ficava bastante afastado da cidade. Longe. Era o passeio do final de semana nos dias de sol. Quase sempre encoberto pelas águas cheias, o rio Tarumã dava nome ao local e era escuro como o rio Negro. Na beira, bem na beirinha, as areias brancas deixavam ver o fundo e a cor das águas clareava, deixando um tom amarelo surgir. Eu gostava de olhar os meus pés, ali, dentro das águas mornas desse rio-igarapé. De maiô inteiro, minha mãe passeia de mãos atadas com meu irmão que ainda é muito pequeno. Foto em preto e branco. Minha irmã e eu seguimos nosso pai. Às vezes, era preciso atravessar de canoa, e, outras vezes, resolvíamos nadar. Segurávamos o ombro de meu pai. Eu o segurava de leve, buscando boiar. No outro lado do rio moravam os índios da família Laureano. Ou seja, eram todos da tribo dos Tucanos, e por ali habitavam já há alguns anos. Os homens de uma cor avermelhada ...

Nova colagem

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Acordei limpa da suavidade do sono. Sem personagens na cabeça, as primeiras horas do dia precisam ser respeitadas. Gosto do vocabulário que estou encontrando ao traduzir. Não sei nada da "langue d'oc" (língua falada ao sul da França, língua òc, língua do "sim"), mas sei quantas vezes Molly Bloom disse sim para Leopold, no texto Ulisses de James Joyce.

O escritor irlandês James Joyce

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                                           Joyce, que foi tão estudado por Lacan, está traduzido no Brasil por mais de um tradutor. Bernardina Silveira que o traduziu em Ulisses além de  Um retrato do artista quando jovem , por exemplo, dedica a ele inúmeras homenagens com leituras em voz alta em ocasiões especiais. Declarou: "...  os inventos do Joyce são transparentes e sempre lindamente sonoros, parecem palavras que já deveriam estar na língua há muito tempo"…

Colagem Inverno

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Inverno no Rio de Janeiro Estou quase dormindo? Não. Creio que não. Mas quando você tiver a minha idade, caro(a) leitor(a), verá que o mundo está habitado de coisas estranhas. Felizmente, não só de coisas estranhas. Devo dizer que se construo um monólogo neste dia que anuncia um inverno carioca, não estarei longe do frio que senti em alguns outros momentos de minha vida. Em Mauá, na década de oitenta, eu costumava andar pela casa carregando um saco de água quente, bem próximo ao corpo, para aquecer as minhas faltas. Na década de sessenta, em seu final, eu morava em Washington e vivia perto do sonho americano, no qual confesso nunca ter conseguido entrar. O frio e a neve me acompanharam durante mais de três meses. Costumo dizer que fiquei com o gosto gelado de um pisão que levei em N.Y, em uma avenida qualquer, pois, de fato, o meu dedão direito e a meia de lã ensanguentada refletiram um frio a menos 20 e os pés completamente adormecidos dentro de uma bota de couro negra. O frio no Rio,...

O idioma pedra de João Cabral

O poeta João Cabral de Melo Neto construiu, ao longo de sua obra, uma poética mineral. São versos, metrificados ou não, que contam muito da vida do Nordeste com seu povo e seus hábitos. A sua linguagem – aqui nomeada “idioma pedra”, alimentada na memória de uma infância vivida em meio às canas e às usinas de açúcar, em Recife, com a seca e a fome dando direção à mão que escreve – traduz um Brasil singular. Alguns de seus poemas como “Morte e Vida Severina”, considerado um Auto de Natal pernambucano, e “O Cão Sem Plumas” ou “O Rio”, empreendem uma viagem na escrita que nos levam a querer ler poesia brasileira, pois o aprendizado se dá com as narrativas de costumes e de geografias várias. Tal empreitada avança com as palavras de pedra, caroço, osso, faca, deserto, entre outras, para identificar na língua um “escrever em nordestino”. O poeta...(leia mais na página da editora Perspectiva)

Convite para o lançamento do livro O idioma pedra de João Cabral

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Caderno de viagem

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