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                                                      Dona Tartaruga e o sapo sapeca                                                      começando a circular. Lumme editor.                                                                              Rio, 31.12.2020                                                      Que sejamos fortes, meus caros,              ...

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 Verão triste de 2020 Luz entrecortada na manhã Nuvens escondidas A paz atrás da porta Aquelas que se foram deixaram sementes em nosso solo e restam palavras e atos  Entrecortada a luz triste o vento bate na montanha e atrás da porta permaneço * Rio Quando escrevo  "Rio" não o atravesso por inteiro somente escrevo as tempestades do momento E esquecida dos sorrisos de muitas outras horas permaneço quase imersa nas imensas tristezas  deste Rio de um janeiro  que nos assusta tanto   Rio: violento e cruel de mortes anunciadas e acontecidas E de homens sem escrúpulos Rio de Janeiro, 30.12.2020

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 Rio, 29.12.2020 ... ainda caminho pela casa com os pés cansados deste ano interminável, e me envolvo na manta azul para cobrir o frio que passei a sentir desde o assassinato de cinco mulheres na noite de Natal.  Sobre as palavras, o silêncio e a dor enrolo a manta azul e mergulho em nuvens de algodão os sonhos de uma outra vida - depois ... 

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... silêncio ... rio, 28.12.2020

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 Rio, 27.12.2020 O mundo precisa se recriar Audácias calculadas forçam limites humanos Ao longo de escadas íngremes algumas mulheres  tropeçam e homens brutais se cobrem de gestos obscenos Crianças perdem mães diante de machos que traçam um fim  - animal e irreversível - para vítimas femininas Até quando assistiremos duras barbáries  serem vividas e filmadas? (mesmo nas noites de Natal) * Um dia e uma vez  Nestes cemitérios de corpos doentes e almas lavadas onde as mãos entrelaçadas suspiram Nesta terra de tantos homens e de muitas vozes onde podemos recontar os dias já vividos Os suplícios se somam muito rápido e os minutos quase desaparecem    Nas histórias sussurradas nas preces que retraçam a infância e a vida adulta somos nossos contos de Natal com os sinos que batem longe nos campanários! (ouvimos os relatos de um dia nas noites de "Era uma vez...")

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... silêncio ...

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 Rio, 25.12.2020 Nota triste e delicada Todas as mulheres são atingidas e sofrem, quando uma mulher é morta de forma  tão violenta como foi o assassinato, ontem, de Viviane Vieira do Amaral.  Deixo aqui a minha indignação!

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 Nesta noite se cumpre a profecia de Isaías. E o verbo se fez carne! Feliz Natal a todos! Rio de Janeiro, 24.12.2020

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 Rio, 23.12.2020 Ciclos No alto da montanha onde o azul  se mistura com o vento  e a viagem se curva diante da beleza inesperada Acordados se mostram o tempo e a palavra:  começo de um tecido nuvem A água respinga aos pés da árvore errante e diz bem baixo algo da voracidade do mundo Não se entende bem as sílabas  Restam sonoridades quase ocultas traços-letras-intervalos Sombra e luz No oco do tronco carnudo de ervas viva a casca respira sua força Eis a mão e a natureza somadas

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 Rio, 22.12.2020 Natal entre nós O passado recente enterrou o pobre, o rico e o abandonado. A terra de mãos vazias os recebeu. Sob a palha deste Natal um silêncio prolongado passa  bem devagar e espalha sua luz. Sejamos na superfície do planeta  o ritmo que perfura a pedra e o sal. Sejamos o perfume que permanece no murmúrio da língua; um fragmento presente. Sejamos a folha do coqueiro  ou o mar bem verde de nosso nordeste cristalino: a pedra, a cabra, o leite e o pão!  

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 Rio, 21.12.2020 Final de tarde  As paredes do céu mostram sinais  de luz. Aguardamos.  As paredes da casa surpreendem e refletem  - entre sombras e anseios - palavras e ritmos novos. Respiramos. O calor acelera.  Árvores atravessam a urgência da página. Pedem passagem ao verde. Espaço e cor no azul opaco. 

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 Rio, 21.12.2020                                                          Feliz Natal!
 Ainda em 20.12.2020 Amar não se previne de morrer Nem é o amor que tomba  Somos nós             Carlos Nejar

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                                                      Obrigada, Caetano Veloso!

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 Rio, 20.12.2020 Quase verão, e padecemos da insanidade que nos rodeia sem parar. Ontem, as praias da zona sul (Leblon e Ipanema especialmente) estavam lotadas. Uma parte de nossa população  "desconhece" a pandemia, que cada vez chega mais perto de nós: amigos e parentes  adoecem.  Eu me pergunto por que a Mídia não investe em uma campanha de esclarecimento  sério pedindo à nossa população que se movimente o mínimo possível. Nossos  governantes parecem só querer "entender" de economia, sem entender nada de respeito à vida humana. Estamos sob o "Reino do Mercado", segundo Serge Sautreau.  Precisamos de campanhas que ajudem a salvar a vida de nosso povo.  Fiquem em casa. A vida é preciosa! Amanhã começa, oficialmente, o verão. Mas, este ano o Verão será muito diferente. Já temos mais de 186 mil mortes por covid-19 no país. Ajudem a salvar a vida dos brasileiros!

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Rio, 19.12.2020 Anotações  O calor se acomoda em meus poros. Naturalmente, o prazer do verão pede passagem mas nada acontece. Do outro lado do mundo, o frio traz a neve ou as temperaturas  bem baixas. Muitos adoecem e morrem de covid-19. As torrentes  de prosa ou poesia baixam o fluxo. Aguardo e nem sei o quê. Atenção, repito em voz baixa e clara: É preciso ficar em casa.  Deixemos as festas para um outro tempo! *

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 Rio, 18.12.2020 Antes eu pensara que minha geração nunca passaria por uma guerra. Meus pais se casaram um pouco depois da Segunda Guerra, e nasci em seguida.  Quando comecei a entender os efeitos de uma guerra e a decadência que ela  envolve já estava na adolescência, e lia Êxodos de Leon Uris. Naquele ano, no curso ginasial, as aulas de sociologia nos apresentaram, também, as manchetes  dos jornais. No Brasil, vivíamos o tempo da Ditatura.  As aulas de Literatura eram habitadas por textos de Graciliano Ramos e  colaboravam com o tom realista da vida. As cores novas divergiam do azul  da praia no verão. Hoje, com a Pandemia sendo vivida desta maneira tão insana em nosso país,  recupero a densidade da vida que acredito rica de cores e texturas. E, durante o café da manhã ensaio os passos do dia. Sei que haverá emoção e tristeza. A empolgação está guardada na memória, assim como os dias de linhas traçadas em torno dos amigos.

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 Rio, 17.12.2020 As manhãs de verão O violão, a cigarra e o perfume dos almoços de Natal sopram a memória que se faz presente  desde agora. É nesta volta do tempo que perambulo com os pés cansados da quietude deste  chão. As areias se acomodam em baixo das folhas dos coqueiros na praia de Meaípe: escrevo  com o dedo cravado no ritmo das ondas - um vai e um vem - constante.  *  Guarapari A visão em destaque no céu pingado de luzes. O dedo da menina aprendia a reconhecer  algumas estrelas. Final de tarde com o voo das andorinhas voltando para as castanheiras da  prainha. Desciam juntas em ângulo oblíquo. Sorríamos! * Nota ligeira O mundo me parece em compasso de espera. Arrisco dizer que estamos vivendo sob efeito  de um choque. Ao nosso lado a miséria de nossas ruas e de nossas crianças. Diante de nós o cansaço físico dos médicos com os hospitais lotados de casos de covid-19.  Simplesmente, os dias saem de seus invólucros não mais colorid...

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 Rio, 16.12.2020 Nota matutina Sinto-me obrigada a escrever!  E à maneira de Manuel Bandeira que falava de "uma necessidade imperiosa de escrever" ou  à maneira de Francis Ponge que declarava "somos obrigados pela necessidade de escrever",  a escrita me convoca, nestes tempos difíceis, a dizer não só o mais profundo e feminino mal-  estar que me rodeia, em um mundo tão machista ainda, mas, a dizer a vida e suas delicadezas  em forma de verso ou em prosa.  Assim, também, e quase da mesma forma sinto-me obrigada a cuidar das plantas e alcançar   alguma suavidade para os pensamentos que, muitas vezes, transbordam com a desilusão vivida  neste nosso século! Felizmente, temos um solo e o sol!   

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 Rio, 15.12.2020 Uma Homenagem Era uma figura curiosa M. Jacques Aubert. Quando estava de pé, em suas apresentações na Escola Letra Freudiana, me parecia um homem enorme. De fato, era um grande homem quando falava sobre James Joyce. Uma maravilha posso acrescentar, hoje, sem  constrangimento! Nós o conhecemos em eventos da Escola, naqueles momentos inesquecíveis quando os convidados estrangeiros chegavam para participar de nossas inúmeras Jornadas.  Em um destes momentos contamos com a presença de Jacques Aubert realizando duas  conferências. E pude conhecê-lo e ouvi-lo por duas vezes. Até mesmo convivi um pouco com ele, em um animado jantar comemorativo, no final desta Jornada de Ulisses. Lembro bem que estava acompanhado de sua segunda esposa. Era o ano de 2000.   O restaurante desapareceu da memória. Mas, a mesa e as palavras do tradutor e estudioso  de James Joyce e Virginia Woolf  ainda "brilham"!  Jacques Aubert faleceu em Lyon aos 88 a...