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 Rio, 31.08.2020 Nota: quase primavera Não gosto de falar dos homens insanos que nos rodeiam na cidade e no país.  Não gosto de vê-los habitando nossas telas de tv. Não gosto das fabulações de políticas sujas. Mas estou atenta. E vejo. É preciso dizer estes dias tortos e confusos. É preciso nomear artimanhas promíscuas e mentirosas. É preciso desmontar cadeias de desvios e montanhas de dinheiros que se lavam em família e continuam sujos. Em plena pandemia de corona vírus muitos de nossos políticos trabalham a favor da morte  e da corrupção. Estamos de olhos abertos. E estamos vendo!  Nem a mais robusta invenção de maldade consegue nos confundir o dia e a vida. 

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 Rio, 31.08.2020 As manhãs e o vento  O canto do sabiá Nuvens escuras no ar da cidade A mão de fugitiva escrita flutua entre as linhas dobradas na face Os lábios quentes do café sem açúcar a bondade do olhar e as esquinas espionando os homens  nas interrogações que não se esgotam nunca * A página amanhece em branco Cavalo alado de letras  o verso corre em ritmo solto A boca em suave textura não escapa: arde na superfície deste início e se incendeia                                O calor da floresta lambe                                 árvores animais flores casebres                                Tudo vira carvão                                ...

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 Rio, 30.08.2020 Caminhando... Jardim Botânico do Rio em detalhe, foto de José Eduardo Barros

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 Rio, 30.08.2020 Manhã azul sem nuvem.  Temperatura alta. Poesia e fotografia. *  Algo precisa ser dito. Há muito a dizer. Não são só os subterfúgios e os enganos. Há promessas e palavras sem lucidez. O mar recolhe do vento sussurros de medo. Os lábios deixam passar o horror do momento enquanto os homens duelam por muito ou quase nada. * Habitar o planeta terra sem responsabilidade é viver à margem dos compromissos humanos. * A festa deve ser de luz e claridade! * Um olhar suave e a confirmação da vida sem mentiras. * Qualquer dia,  a qualquer hora partiremos...

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 Rio, 29.08.2020 O mar e as nuvens constroem histórias a contar depois. Ainda que as tragédias que se impõem diante de nós surjam  de muitos lugares, suplicamos mais respeito.  A cidade e as esquinas respiram com dificuldade.

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 Rio, 28.08.2020 Caros leitores, o mundo continua atravessado pelo vírus do covid-19. Agora, assistimos a corrida pela vacina tomar os espaços da mídia  televisiva. A pressa é inimiga da perfeição, já sabemos disto. Porém, hoje, ninguém quer aguardar as pesquisas que estão a caminho, e alguns anunciam os desdobramentos da ciência antes da ciência confirmar seus resultados. Assim, que o surrealismo está de novo em cena. Só que na vida e não na arte! Os presidentes de plantão quase não governam e só pensam nas próximas  eleições. A direção do nosso governo vai se fazendo de acordo com a música que  ensaia um populismo em ação. Poema do dia   A casa de paredes brancas assume um corredor verde. Iluminado por molduras e imagens coloridas que vieram de longe, os quadros contam histórias de outros lugares do mundo.   *   Na sombra do anoitecer Um hálito corrige o final do dia Com o canto de um sabiá: o que reza muito (na língua tupi) ...

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 Rio, 27.08.2020 1.. Ás vezes no meio da manhã uma fruta descascada ao acaso abre o perfume enigmático do dia, que socorre a lembrança  que recebe o sorriso  e ajuda a sustentar um instante antes sem imagem alguma: tão longe, agora, revigorado. 2. O diário vai e volta na angústia destes dias sem descanso. Tão distante estamos de um mundo mais sadio!

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 Rio, 26.08.2020 Corpos Serenamente construídos  os corpos permanecem na vida  perdendo a luta contra o tempo Quem rasga o vidro dos espelhos não se encontrará mais no amanhã Nesta tarde fria  as linhas de teu rosto dobradas abrem espaços novos junto ao vento 

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 Rio, 25.08.2020 O dia amanheceu silêncio. Tarefas domésticas não desviam as leituras.  Trabalho e "escuta". Escrita. * Um abandono às margens do sol   O invisível na brancura do ar quase assombro avança sobre a água e as pedras sobre a imagem do Cristo Redentor Fresco é o espaço do inverno em percurso insólito no fundo da praia lisa de intermitente areia Feroz e salgado o mar entre espumas brancas espumas no chão respira seus limites abrindo os braços   

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 Rio, 24.08.2020 Um poema de Brecht: Lendo Horácio Mesmo o dilúvio Não durou eternamente. Veio o momento em que As águas negras baixaram. Sim, mas quão poucos Sobreviveram! (Bertold Brecht  Poemas 1913-1956 , editora 34. Seleção e tradução de Paulo César de Souza p.335) * Lendo Brecht O frio intenso do dia Não apaga o temor de momentos  Ainda a vir.  Sem respostas possíveis A mentira se enraizou no país. Sobreviveremos a tanto horror?

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 Rio, 23.08.2020 Inverno: 1. Uma manhã de domingo com sol depois de dias frios demais na cidade. Chuvas e temperaturas baixas em vários lugares do Brasil. Alguns desabrigados morrem nas calçadas de S.Paulo:  uma cidade rica, cheia de empresários e que não consegue ter um programa que dê conta dos  que vivem nas ruas.  Acontece que a vida corre e o mundo se mostra em sua insensatez, cheio de dificuldades.  Muitos homens não querem ver nas dobras de nossa sociedade aqueles que sofrem porque estão às margens do capitalismo. Respiram miséria e fome!   * Memórias infantis: No entorno do rio a água é quase morna no verão. De cor amarelada parece filtrar o sol.  Quando ele se põe devagar e sempre - avermelhando os arvoredos  no alto do céu -  o véu da noite começa a baixar.  Um calafrio vivo arde na pele... * Anoto: "(...) a verdadeira medida da vida é a lembrança. Olhando para trás, ela atravessa  a vida como um raio." Walter Benjamin...

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 Rio, 22.08.2020 Caro leitor, devo dizer que tomados por uma pressa sem sentido, que nos é imposta por um mundo excessivamente capitalista, vivemos dias de decadência cultural! * Nascer e morrer No círculo da água ao pó o olhar renasce a cada dia. O corpo elástico salta em torno dos espaços que se movem. Solto e desamparado os olhos míopes miram o longe e o perto. Sempre as mãos sonham com a boca respirando nuvens. A sede é quente e árida clama o ar e sopra a vida. Nascer é água e terra vento e silêncio. Nascer é antes de morrer.

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 Rio, 21.08.2020 Escrevo na manhã desta sexta-feira:  1. Cinco meses nos separam do início da pandemia no Brasil. Já aprendemos muito, no entanto ainda persistimos em alguns comportamentos bizarros enquanto moradores da cidade  do Rio  de Janeiro, e habitantes do planeta Terra. Buscamos tomar os espaços de volta rapidamente  como se eles apenas nos pertencessem, e buscamos ainda deixar de lado a sobriedade que,  agora, precisaremos ter para seguir nossa caminhada no mundo.  Estes dias de quarentena, tão delicados quanto difíceis de imaginar há cinco meses atrás, são  reveladores de realidades que já nos rodeavam há algum tempo. O que antes era visto em  pedaços se tornou um cenário de paisagem aberta em várias partes da cidade, e no contexto  atual nos reserva novas realidades inclusive no mundo.  No período da breve vida de cada um de nós - se pensarmos no continuum do tempo - somos  responsáveis por nossos passos, e, se conse...

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 Rio, 21.08.2020 Troncos de árvores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Fotos de José Eduardo Barros

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 Rio, 20.08.2020 Poesia na floresta A folha verde conserva o sonho de uma árvore Desdobra-se em pequenas gotas a seiva que escorre lenta Para o rio correm ruídos de araras azuis A paisagem é lavada nas águas da chuva Abençoada pelas mãos das índias Rasgada na luz do sol com encantamento No sussurro da primavera renova-se Ante cipós e galhos longos soltos Caídos no esquecimento do rio São dias difíceis os dias de fogo em labaredas tontas tortas A floresta queima indefesa sua flora A vida que os deuses nos deram desaparece Um rito em canto fúnebre se mistura Na vida da floresta  Onde o que era louvado no espaço De praias de águas doces ribeirinhas Vai devastado pelo fogo Morrer de repente em mãos assassinas  

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  Rio de Janeiro, 19.08.2020   Aqui, nesta cidade estranha e exuberante acontece muito de tudo. Acordamos com as manobras de um governo federal desgovernado e ousado. Rodeados de verde e asfalto, vivemos estes dias absurdos engolindo a pandemia entre algumas decisões judiciais e lives musicais que nos salvam do horror. Não conseguimos dar conta de tantas loucuras acontecendo no país, nem deixamos de chorar os que ainda  partem de repente. Somos consumidos pelo fogo que destrói nossas matas virgens e nossos animais selvagens tanto no Pantanal quanto no Amazonas! A alegria e o samba precisarão aguardar... Teremos que reaprender a sorrir, depois. Enquanto respiramos neste jogo feroz de tanto "poder", a nossa luta é travada mesmo para  fazer valer a verdade dos fatos! * Escrevo no anoitecer: Agradeço a Fernando Gabeira pela lucidez e seriedade de seus comentários no jornal da GloboNews. Faz tempo que quero dizer isto em voz alta. Muito obrigada!

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 Rio, 18.08.2020 Em casa (monólogo) A mesa e a cozinha guardam espaços - quase sagrados - habitados de conversas e alimentos.  Não estamos mais vivendo em tempos antigos, quando quase tudo se dava ao redor destes  lugares. E as conversas aconteciam naturalmente. Moramos, agora, em casas com mais abertura ao olhar que se estende por janelas espalhadas,  inclusive, nas telas planas de tvs, computadores e celulares. Porém, ficamos habitados de  gestos e palavras por vezes violentos demais. As palavras amorosas costumam faltar. Sem  medidas voltadas para os cuidados básicos, sem os critérios humanos necessários criamos  uma grande parte de nossas crianças à margem, e assistimos muitos de nossos adolescentes  crescerem meio desgovernados.   Não só aqui, mas ao redor do mundo estes futuros adultos, de uma maneira geral, absorvem  um "tamanho" fora da ética humana, onde passam a se autorizar qualquer coisa e saboreiam  de tudo no grup...

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 Rio, 17.08.2020 Leitor, entre Lives de: filósofos, políticos, músicos, humoristas, lançamentos de livros e psicanalistas sobrevivemos! Livros, muitos livros sempre! * Ponto de exclamação Um ponto no verso depois de um traço e novas perguntas indagam os dias seguintes e - depois. A vírgula não comparece dissolve-se na página aberta. Faz calor na cidade maravilhosa enquanto aguardamos o muro da dúvida se dissolver. Ponto de interrogação sob as negativas que se montam? Nua a exclamação não dá margem à dúvida: fiquem em casa!

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 Rio, 16.08.2020 Caro leitor, é lamentável que continuemos assistindo a destruição do Pantanal do Mato  Grosso. A extensão de terra já alcançada pelo fogo corresponde a 10 vezes o  Estado de S.Paulo. Por que não conseguimos cuidar melhor do que é nosso? * No Pantanal A noite é escura e rouca na janela  Deixa ver o pranto que a sombra queima Pálpebras piscam na rapidez do vento e o calor vermelho abre brilhos  Não mergulho minha mão neste chão ao contrário, caminho fora deste jogo A água foi pra longe ou virou pó e os animais não têm mais para onde correr A pressa não tem pernas nem o pranto abre novas estradas Triste é o dia seguinte entre cinzas e ossadas de animais As árvores e os arbustos queimam fora da lucidez dos homens

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 Rio, 16.08.2020 Notas matutinas Relembro que, durante a segunda metade da década de noventa e a primeira década do século  seguinte, os passeios do casal se compunham de caminhadas - três vezes por semana - dentro  do Jardim Botânico de nossa cidade. Alguns de meus poemas nasciam ali, enquanto José  fotografava as árvores e as texturas dos troncos, as flores raras e os pássaros inesperados.  Passamos a compor nossos passeios com poetas, familiares e amigos (estrangeiros ou não)  sempre naquelas alamedas impressionantemente altas ou perfumadas. As capas dos livros  Canto de sombras  (7Letras, 1996) e Outonos (7Letras, 2014) foram feitas de imagens  clicadas ali. Assim como recolhi no chão deste Jardim os restos e a folha que estão na capa  de meu livro Vestes e vestígios  - o pequenino, feito a mão, costurado com agulha grossa  (edições Sol, 2002).                       ...